O Japão é conhecido como “o país do Sol nascente”. Uma das origens atribuídas a essa expressão era a forma como os chineses, que tinham uma enorme influência na cultura, política, filosofia, religião, vestimentas e escrita asiática, se referiam ao país 2 mil anos antes do Japão ser a potência atual.
Se olharmos a
localização do China em relação ao Japão essa expressão faz muito sentido, já
que ele está a Leste da China, onde nasce o Sol (Oriente).
Apesar de o país ser bastante
conhecido por todos os brasileiros, devido as levas de imigrantes japoneses que
chegaram ao nosso país a partir de 1908 e, mantermos intensas relações
comerciais e turísticas, tem-se pouca informação sobre a sua produção de
vinhos.
Dois fatores contribuem
para isso, o primeiro é a distância entre o produtor de vinho (Japão) e o
consumidor (Brasil). A distância em linha reta (distância geodésica) entre
Brasília-Brasil e Tóquio-Japão, é de aproximadamente 17.664 km, o que
implica em um longo voo de 22 horas, 4 min. Isso dificulta qualquer tipo de
relação comercial, uma vez que demanda uma logística complexa que não afete a
qualidade de um produto delicado como o vinho.
O segundo fator é que a produção
de vinho no Japão, ao contrário da Europa, começou há cerca de 140 anos na província
de Yamanashi, na década de 1870, mais ou menos no mesmo período em que os
imigrantes italianos chegaram ao Brasil (fevereiro de 1874).
Foi nessa época que dois jovens da província de Yamanashi voltaram da
França onde estudaram técnicas de produção
de vinho, decidiram tentar a sorte e fundaram a primeira vinícola japonesa.
Assim nasceu a Château Mercian, a primeira vinícola privada do Japão que
ainda está em operação e planeja dobrar
sua produção.
A história do consumo de
vinho no Japão começou com a aproximação da sua ocidentalização, mas não se
popularizou, pois o vinho não se adequava à dieta japonesa da época, centrada
no arroz e a bebida que dominava era o saquê. Porém, em 1964 o Japão sediou as Olimpiadas
de Tokyo e, com a chegada de estrangeiros de vários pontos do mundo, começou a
mudança para um maior consumo de vinho à medida que a alimentação se tornava
mais ocidentalizada. O consumo anual
por adulto ainda é baixo, em torno de 3,1 litros ou 4,1 garrafas/por ano.
No Brasil em 2025 o consumo per capita
indicou uma média entre 2,2
a 3 litros/por ano.
As principais
variedades e províncias produtoras de vinho no Japão
O Japão é um país insular (3.900 ilhas) com aproximadamente 378.000 km², onde o cultivo da uva é realizado em
diversos locais incluindo vales, montanhas e colinas. Predominantemente montanhoso e
vulcânico (conveniente para a instalação de áreas de vitivinicultura) tem cerca
de 70% a 80% do território coberto por montanhas e florestas, o que concentra a
população nas áreas costeiras.
A partir da criação da primeira vinícola comercial, começaram a surgir outras
por todo o país com as principais áreas de produção sendo as províncias
de Yamanashi (31%), Nagano (23%), Hokkaido (17%) e Yamagata (10%). Em 2024
foram registradas mais de 500
pequenas vinícolas espalhadas por 46
das 47 províncias do Japão, o gráfico apresenta a produção de vinhos em
2025, nas principais províncias
vitivinícolas.
Duas variedades nativas são largamente cultivadas no Japão, a branca Koshu
e a tinta Muscat Bailey
A. A introdução de variedades Vitis Viniferas europeias ocorreu na
segunda metade da década de 1970, com as variedades Merlot e Chardonnay e
a Cabernet Sauvignon. Paralelamente um
número crescente de produtores tenta utilizar a Syrah e a Pinot Noir em áreas
de cultivo menores, assim como as variedades brancas a Kerner (originária da
Alemanha) e a Sauvignon Blanc.
As ilhas de Honshu e
Hokkaido – Regiões Vitivinícolas
Ilha de Honshu
Na ilha de Honshu, a maior ilha do arquipélago japonês, estão localizadas cinco províncias
vitivinícolas, Yamanashi, Nagano, Yamagata, Okayama e Osaka.
Província de Yamanashi
É conhecida como o
"berço" do vinho japonês, ela abriga o maior número de vinícolas. Localizada
a oeste de Tóquio e aninhada perto da base do icônico Monte Fuji, Yamanashi é o
epicentro da vitivinicultura japonesa (8,586 Ton./2025).
A região é uma bacia interior com montanhas que oferecem abrigo contra a
chuva. Tem um clima temperado, sol abundante e solos vulcânicos ricos, que
juntos criam um ambiente ideal para a vitivinicultura.
É famosa pela uva Koshu, variedade vinífera branca/rosada, com casca grossa para resistir à umidade.
Nativa do Japão é cultivada há mais de mil anos, principalmente nessa
província. Produz vinhos
brancos elegantes, secos, com alta acidez, aromas cítricos (toronja, limão) com
notas minerais que harmonizam com sushi e a culinária japonesa.
Caracteriza-se por uma acidez vibrante, corpo leve a médio, taninos suaves
e aromas distintos de frutas como morango e framboesa, frequentemente com um
leve toque floral ou de avelã. Nessa
província são também cultivadas variedades internacionais como a Chardonnay e
Merlot.
Yamanashi foi a primeira província vitivinícola a receber Indicação
Geográfica (GI Yamanashi) estabelecida em 2013. Os vinhos devem ser feitos
exclusivamente com uvas locais, principalmente Koshu (branco) e Muscat Bailey A
(tinto), com teor alcoólico de 8,5%.
Província de Nagano
Situada em uma área montanhosa (Alpes Japoneses), é uma das regiões vitivinícolas mais promissora, sendo a segunda
maior produtora de uvas viníferas do país (6,704 Ton./2025). É conhecida por seus vinhedos de
altitude (em torno de 500 m).
Importante região vitivinícola de
clima frio está situada na região central do Japão, cercada por montanhas de 3.000m. Nagano
possui vales com alta altitude, clima frio, invernos longos e nevados, verão
fresco, grande amplitude térmica e longas horas de sol ideais para uvas
europeias, fatores esses que contribuem para o
desenvolvimento de sabores complexos nas uvas.
Com mais de 60 vinícolas, focadas em
Pinot Noir e Chardonnay e variedades brancas de alta qualidade, como a Kerner (Trollinger + Riesling), a região é conhecida por produzir vinhos elegantes, com
alta acidez e caráter mineral. A variedade híbrida de uva Shinano Riesling (Riesling+Chardonnay) cultivada
principalmente em Nagano, foi especificamente desenvolvida pela Manns Wine Co. para
o clima único e frequentemente úmido do Japão. Produz vinhos aromáticos, frescos com alta acidez,
sabores de lima, maçã verde e pêssego branco, ideal para vinhos leves e
refrescantes.
Concentrada em Yoichi e Sorachi, a
indústria vitivinícola é impulsionada por pequenos produtores artesanais que se
adaptam às mudanças climáticas e aos invernos rigorosos. Em 2021 foi estabelecida a Indicação Geográfica GI
Nagano (selos azul ou vermelho) para vinhos feitos com 100% de uvas da
região e os de qualidade superior podem receber o selo dourado "GI
Nagano Premium".
Situada no Norte da ilha principal de Honshu, é uma renomada região vitivinícola de clima frio, propício ao cultivo de frutas, destacando-se na produção de vinhos de alta qualidade. É a quarta maior província produtora de vinhos no Japão (2,428 Ton./2025).
Está voltada para o mar do Japão a Oeste e é cercada por montanhas em três lados. As uvas são cultivadas em encostas com boa drenagem e a região possui solos vulcânicos e sedimentares, ideais para a produção de uvas de qualidade, beneficiando-se de noites frescas e dias quentes. O clima da região, com grande amplitude térmica, favorece as uvas aromáticas.
Com cerca de 19 vinícolas focadas em vinhos aromáticos de alta qualidade e
acidez refrescante, é conhecida
por seus vinhos brancos Delaware (variedade americana), Niagara, Chardonnay e Koshu, além dos vinhos tintos
produzidos com as uvas Merlot e Muscat Bailey A. Em 2021, o vinho de Yamagata
recebeu a certificação de Indicação Geográfica (GI).
Na ilha de Honshu são encontradas também mais duas outras regiões
vitivinícolas de menor expressão, mas importantes na vitivinicultura japonesa.
Província de Osaka
É pouco conhecido que a província de Osaka seja produtora de vinhos, mas na
verdade é uma região com mais de 120
anos de história vitivinícola, graças à sua abundante luz solar. Poucos sabem
que nessa província há uma região produtora que fica próxima das áreas de
consumo — do centro da cidade, são apenas 40 minutos.
É o lar da primeira vinícola
urbana do Japão (Fujimaru Winery) e da primeira vinícola aeroportuária do
Japão. Sendo uma das poucas com essa característica, ter vinhedos tão
perto do centro da cidade é um dos atrativos do vinho de Osaka. Em 2021 Osaka recebeu a Indicação
Geográfica (GI Osaka).
Em vinhedos próprios a vinícola Fujimaru cultiva principalmente
uvas Delaware, uma variedade tinta adaptada
ao cultivo no Japão e apreciada pelos habitantes de Osaka há muito tempo. Aproximadamente
um terço do vinho produzido em Osaka é feito com uvas dessa variedade.
Província de Okayama
É uma região vitivinícola emergente
reconhecida pela produção de vinhos de alta qualidade, particularmente na área
montanhosa de Niimi. É a menor
região produtora de vinho, mas responsável por 90% da produção japonesa
de Moscato de Alexandria. Apresenta
solo calcário e significativas diferenças de temperatura entre o dia e a noite,
onde são cultivadas as variedades Chardonnay,
Sauvignon Blanc, Riesling e as tintas Muscat
Bailey A, Cabernet Franc, Merlot, Pinot Noir.
Ilha de Hokkaido
A ilha de Hokkaido é a província
vitivinícola localizada mais ao Norte do país (41° a 45° N), focada em
vinhos de clima frio (estilo europeu) devido aos verões amenos e invernos
rigorosos. É
uma das principais regiões vitivinícola do Japão (3,708 Ton./202 5), sendo vista
como o futuro da alta qualidade no país devido às mudanças climáticas que
favorecem regiões mais frias.
Graças ao aquecimento global, agora
é possível plantar variedades de viníferas em Hokkaido, e a região tornou-se o
motor do movimento do vinho natural no Japão. Com invernos rigorosos e
clima mais frio, com mais de um metro de neve no inverno, grande amplitude
térmica diária, combinada com os solos
férteis essa região tornou-se a "nova fronteira"
vitivinícola japonesa, produzindo vinhos mais estruturados e com boa acidez.
A região produz variedades de uvas com foco nas variedades europeias de
clima mais frio, como as brancas Chardonnay, Kerner,
Muller Thurgau e as tintas Merlot, Pinot Noir e a aromática Zweigelt (híbrida austríaca).
Hokkaido foi designada Indicação Geográfica (GI Hokkaido) pela
Agência Nacional de Impostos em junho de 2018, com isso os vinhos tem que
atender certos padrões , como "utilizar 100% de uvas colhidas em
Hokkaido", e mencionar a indicação "Hokkaido" em seus rótulos.
Videiras enterradas na neve:
Uma curiosidade, essa região vitivinícola se destaca por um manejo
interessante de suas videiras. No inverno os vinhedos de Hokkaido são cobertos
por uma espessa camada de neve (frequentemente mais de 6 metros) durante os
longos e frios invernos. Essa pesada camada de neve atua como um isolante
natural, protegendo as vinhas de temperaturas abaixo de zero (até -20 °C) como
um iglu, impedindo que congelem até a primavera.
Esse artigo nos mostra que, ao contrário dos vinhos de outras regiões
vitivinícolas ao redor do mundo, a característica marcante do vinho japonês é a "delicadeza".
A culinária japonesa e o vinho japonês demonstram uma afinidade surpreendente
nesse sentido, ambos se caracterizam pela sua delicadeza, diferente dos molhos
vermelhos da comida italiana, do churrasco gaúcho e da comida calórica ou
condimentada presente em muitos países. Ao saborear sushi, tempurá ou sukiyaki,
o vinho japonês é a harmonização ideal.
Se beber, não dirija!
Bibliografia:
https://www.winetraveler.com/japan/japanese-wine/
https://japanhousesp.com.br/story/o-vinho-japones-e-as-principais-provincias-vinicolas-niponicas/
www.winefogg.com/japanese-wine
https://cluboenologique.com/story/introduction-japanese-wine/
https://gubi-gubi.nl/pages/fujimaru-winery
https://winesofhokkaido.com/en/




