quarta-feira, 2 de setembro de 2026

GEOGRAFIA DO VINHO - OS EFEITOS DO SUPER EL NIÑO 2026-2027 NO PANORAMA MUNDIAL DO VINHO

Cientistas estão anunciando a configuração de um poderoso El Niño, com o aquecimento do Pacífico Equatorial entre agosto e outubro-2026, intensificação esperada entre a primavera e o verão-2026/2027 e, podendo prolongar seus impactos até o segundo semestre de 2027. De acordo com o serviço Meteorológico do Reino Unido (Met Office) este será o El Niño mais intenso do século e alerta que é "muito provável" que 2027 seja o ano mais quente já registrado.

O El Niño é um fenômeno natural que se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico próximo a linha do Equador, na região intertropical. Ele ocorre em intervalos irregulares de cinco a sete anos e tem duração média que pode variar entre um e um ano e meio, com início nos últimos meses do ano.


Com a modificação do padrão da circulação atmosférica sobre o Pacífico, o El Niño é responsável por alterar a distribuição da umidade, das chuvas e das temperaturas em várias áreas do planeta, entre elas o Brasil.

De acordo com o Centro de Previsão Climática da NOAA, a chance de formação de um novo El Niño a partir de setembro de 2026 supera os 90%. Já o CEMADEM prevê que a probabilidade de ocorrência que era de 60% entre maio e julho, salte para mais de 90% entre setembro e outubro, podendo ser de grande intensidade, com temperaturas até 2°C acima da média no segundo semestre. 

O El Niño mais intenso já registrado, ocorrido entre 1877 e 1878, intensificou condições que levaram a uma fome global, causando a morte de mais de 50 milhões de pessoas na Índia, na China, no Brasil e em outras regiões. Esse número representava de 3% a 4% da população mundial estimada na época, o que equivaleria a pelo menos 250 milhões de pessoas se o evento ocorresse hoje.

Na ocasião, essa alteração climática devastou plantações levantando a questão de saber se uma perturbação semelhante, como está previsto para 2026-2027,  poderia ameaçar novamente a segurança alimentar global.

Para dar uma ideia ao leitor da dimensão que está sendo projetado, nos três maiores Super El Niño que ocorreram na era moderna a temperatura da água do oceano atingiu picos de 2,3°C (1997/1998), 2,6°C (1982/1983) e 3°C (2015/2016). Para esse El Niño os modelos da NOAA projetam média acima de 4°C para o final de 2026 e nas versões corrigidas a temperatura ficaria em torno de 3°C a 3,5°C. E, ainda assim, seria um evento de intensidade extraordinária, uma vez que tudo pode se tornar ainda pior, pois esse El Niño irá atingir um planeta mais quente e mais habitado que qualquer outro ocorrido anteriormente. 


Em eventos de El Niño um dos setores econômicos mais afetados é a produção agrícola, entre elas a vitivinicultura.  Vale lembrar que “o vinho se faz no vinhedo”, portanto eventos climáticos tem interferência direta na produção e na qualidade da uva que será, posteriormente, transformada em vinho.

Além da variedade de uva não se pode esquecer que os elementos climáticos (radiação solar, temperatura, precipitação, umidade, nebulosidade, ventos, pressão atmosférica) são fortemente afetados pelo El Niño, podendo interferir sobremaneira nas características do vinho tais como perfil de aromas e sabores.

Impactos do El NIño no vinhedo

O fenômeno El Niño impacta de forma significativa a vitivinicultura global, uma vez que altera os padrões de temperatura e a distribuição das chuvas. O impacto final sobre as áreas vitivinícolas depende da intensidade do evento (e o atual está previsto para ser o mais intenso), da localização geográfica do vinhedo (hemisfério Norte e Sul) e do estágio em que a planta se encontra (da dormência a colheita).

Em regiões específicas ou quando o fenômeno é moderado, o El Niño pode favorecer a produção. Como fatores positivos que trariam benefício ao vinhedo pode-se mencionar: 

  • Invernos mais amenos: O que reduz o risco de geadas tardias que destroem os primeiros brotos da videira;
  • Aumento da umidade no solo: Em regiões historicamente áridas (como partes do Chile e Austrália), as chuvas extras realimentam os lençóis freáticos e reduzem os custos com a irrigação;
  • Aceleração do amadurecimento: Com o aumento de temperatura em certas áreas a colheita pode ser antecipada, resultando em uvas com maior concentração de açúcares.

Infelizmente, na maioria das vezes, o El Niño traz grandes desafios para os produtores de vinho, entre eles tem-se:

  •  Excesso de chuvas durante a floração: Pode diluir os componentes das uvas, prejudicar a fecundação das flores e consequentemente reduzir o volume de uvas produzidas;  
  • Ocorrência de doenças fúngicas: A combinação de calor extremo e alta umidade, na fase de maturação e colheita, pode favorecer o aparecimento de fungos como o míldio e a podridão cinzenta (Botrytis);
  • Excesso de chuvas no período da colheita: Água em excesso no período final dilui os açúcares e sabores da uva, gerando vinhos de menor qualidade;
  • Eventos climáticos extremos: Aumento na incidência de tempestades de granizo e ventos fortes, que quebram os ramos e, consequentemente, quebram a produção do ano;
  • Secas severas em outras regiões: Enquanto algumas áreas sofrem com excesso de água, regiões como a Austrália e o Nordeste do Brasil enfrentam secas extremas que estressam a planta e reduzem o rendimento.

Regiões do mundo que serão afetadas

O artigo “‘Super’ El Niño could cause global food price shock lasting into 2028, analysts say” publicado no The Guardian, em 12/jul/2026 apresenta um mapa mundial com os efeitos típicos do fenômeno El Niño. Nesse mapa, em vermelho eu salientei as regiões vitivinícolas ao redor do mundo que deverão sofrer impactos (seca ou excesso de chuva) provocados por El Niño. 

Algumas delas estão localizadas no hemisfério Norte (setembro a março-outono/inverno, período de dormência). Outras no hemisfério Sul (setembro a março-primavera/verão, períodos de brotação, floração, amadurecimento e vindima).


De acordo com o mapa a Ásia e a Oceania seriam impactadas com condições mais secas (cor marrom) e o maior risco seria nos países produtores de vinho como segue.

Na Ásia, as áreas vitivinícolas estão localizadas entre o Trópico de Câncer (23°27’N) e a linha do Equador (0°). Três países se destacam: a Índia (Vale do Nashik 18°33’- 20°53’N), a Tailândia (Chiang Mai-18°47′N), e o Vietnam (11° 45′ N). Todos utilizam o sistema de dupla poda, com o El Niño estarão sujeitas a mais seca entre julho e janeiro.

 


Na Oceania, há dois importantes países vitivinícolas a Austrália e a Nova Zelândia. Na Austrália (15° a 40° S), as províncias vitivinícolas estão localizadas em sua porção Leste/Sul. Estas podem enfrentar um risco severo de secas prolongadas, ondas de calor extremas e alertas e incêndios florestais. Aliás, não apenas essas províncias vitivinícolas localizadas mais ao Sul, mas todo a porção leste do país, inclusive províncias que não produzem vinho. 


A Nova Zelândia, uma região vinícola importante na Oceania, não será afetada nem pela estiagem nem pelo excesso de chuvas.  

Na África, a África do Sul, maior produtora de vinho no continente, terá todo o seu território afetado pela seca, entre novembro de março. Está previsto para a partir de setembro, início do ciclo da uva, altíssima probabilidade de temperaturas acima da média e escassez de precipitação nos próximos meses.

Na América do Norte, na Costa do Pacífico, na fronteira entre Estados Unidos e Canadá, onde estão localizados a província Columbia Britânica (Canadá) e o estado de Washington (USA) está previsto mais seca, alterando o regime normal de chuvas e neve.  É nessa região que é produzido o Ice Wine, no Vale do Okanagan, no Canadá. Na California, a mais importante região vitivinícola dos Estados Unidos, localizada no Sudoeste do país, El Niño, poderá trazer invernos mais quentes com precipitações acima da média, riscos de temporais e de inundações no estado. 

Na América do Sul, os quatro países produtores de vinho do continente (Argentina, Chile, Brasil e Uruguai) serão afetados pelo El Niño 2026-2027, em diferentes períodos do ano e de diferentes formas, como pode ser visto no mapa que segue.

 

As principais regiões produtoras de vinho da Argentina não serão afetadas pelo fenômeno, mas o Uruguai será atingido por ele no período de dezembro a fevereiro (amadurecimento e vindima), que se caracterizará por ser bastante chuvoso, o que pode prejudicar  a qualidade das uvas.

Das 16 regiões do Chile 10 terão impactos severos provocados pelo Super El Niño, entre junho e agosto, desde o norte árido até o sul do país. O Super El Niño de 2026 deve causar efeitos extremos no Chile, dividindo o país entre a falta de água no Norte e temporais severos no Centro-Sul, como pode ser visto no mapa. Todas essas regiões são importantes produtoras de vinho.

Com relação ao Brasil haverá um contraste entre as regiões vitivinícolas, dependendo da sua localização geográfica. O mês de setembro marca a transição do período mais seco para o começo da estação chuvosa em boa parte do Brasil (Tropical). A primavera começa no dia 22, mas setembro ainda pode ter características típicas do inverno, como novas entradas de ar frio, quedas acentuadas de temperatura e até episódios de geada na região Sul do país.

De acordo com as previsões o El Niño tem 90% de probabilidade de se configurar como muito forte no trimestre de setembro-outubro-novembro, período de brotação e floração da videira na região Sul, o que pode comprometer a próxima safra. Este é, também, o período da colheita e da poda de formação no sistema dupla poda.

É esperado que El Niño traga eventos climáticos extremos ao Brasil, com chuvas intensas no Sul (principal região vitivinícola do país) e secas severas no Nordeste (viticultura irrigada). Já nas regiões vitivinícolas localizadas em partes do Brasil Central e do Sudeste, especialmente Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo, onde é utilizado o sistema duplo poda, também há maior probabilidade de chuva abaixo do normal, de acordo com alertas reunidos pelo INMET e que pode ser observado no mapa para o mês de setembro 2026.









quinta-feira, 9 de julho de 2026

OS SURPREENDENTES VINHOS DA GRÉCIA ELABORADOS COM UVAS AUTÓCTONES

Em meados do mês e junho (2026) participei de um jantar-degustação com vinhos gregos harmonizados com comidas típicas daquele país, na Wine&Food (https://www.winefoodemporium.com.br/). 

Foi uma experiência surpreendente pela variedade de vinhos degustados, todos elaborados a partir de uvas autóctones, bem como extremamente saborosa por causa dos deliciosos pratos típicos da culinária grega preparados pelo chef Igor Miller (@~Leo Miller), que harmonizaram maravilhosamente com os vinhos.

Um pouco de história – Grécia Antiga

A vitivinicultura na Grécia antiga teve início no final do período Neolítico (Período da Pedra Polida - 12 mil anos atrás), quando a agricultura apareceu no Oriente Próximo, região da Ásia próxima ao Mar Mediterrâneo, que incluía a Síria, Líbano, Israel, Palestina, Iraque e a Mesopotâmia (Iraque Moderno) e, mais tarde no resto do mundo, com o cultivo doméstico das uvas se tornando comum no início da Idade do Bronze (3.300 A.C).

Ela foi a grande responsável por difundir o cultivo de vinhas e os métodos de vinificação pelo Mediterrâneo. O vinho era um pilar central da economia, da religião e da vida social, comercializado em ânforas para colônias e outros povos.

As cidades-estados gregas estabeleceram colônias por todo o Mediterrâneo, e os colonizadores, levaram as videiras com eles e cultivaram as parreiras selvagens que encontraram. Como pode ser observado no mapa que segue, as zonas de assentamento grego na Grécia antiga e sua influência, dominavam grande parte das regiões costeiras do mar Mediterrâneo e do mar Báltico, abrangendo territórios da Europa, Ásia Menor e Norte da África.


Os Gregos antigos foram os pioneiros no desenvolvimento de métodos de vitivinicultura e de produção de vinhos, ajudando com o início deste processo em comunidades que hoje estão na França, na Itália e Portugal, bem como em outros povos, através do comércio e da colonização. 

Ao longo do tempo eles influenciaram de forma marcante a vinificação na Europa antiga na parte do Oeste da Europa; a península itálica, onde hoje é a Toscana, regiões da Turquia e por último as terras dominadas pelos Romanos, localizadas ao longo do mar Mediterrâneo e centradas na cidade de Roma.

Os vinhos antigos frequentemente continham adição de água do mar, resina de pinho e especiarias para conservação e sabor, sendo muito diferentes dos vinhos atuais.

A Grécia atual e as regiões vitivinícolas

O território da Grécia atual é bem menor que o da Grécia antiga. Hoje o país tem uma área de aproximadamente 132.000 km², pouco menor que o território do estado do Ceará, que é de 148.894,44 km².

Localizada no Sul e Sudeste da Europa na península Balcânica, próxima ao mar Mediterrâneo, a Grécia consiste em um país peninsular e montanhoso que se projeta para o mar no extremo sul dos Balcãs, terminando na península do Peloponeso, estando estrategicamente localizada na encruzilhada entre a Europa, a Ásia e a África. 


Faz fronteira terrestre a Noroeste com a Albânia, com a Macedônia do Norte e a Bulgária ao Norte e com a Turquia a Nordeste.  O país é cercado pelo Mar Jônico a Oeste, pelo Mar Egeu a Leste e pelo Mar Mediterrâneo ao Sul.

De acordo com a classificação climática de Köppen-Geiger (1900 e 1936) a mais utilizada na vitivinicultura, as regiões vitivinícolas da Grécia se estendem de Sul ao Norte do país, entre os paralelos de 36°N e 42°N. Nelas há o predomínio dos tipos climáticos Temperado/Csa - Clima mediterrâneo de verão quente na porção Oeste e Sul do país, e o Temperado/Csb - Clima mediterrâneo de verão fresco, ao Norte. O mapa apresenta a distribuição destes dois tipos climáticos no território grego. 

O relevo da Grécia é predominantemente montanhoso, cobrindo cerca de 80% do território, com uma altitude média de aproximadamente 498 metros acima do nível do mar. O país é marcado por uma forte cadeia de montanhas (Cordilheira do Pindo), intercalada por pequenas planícies, vales e milhares de ilhas. 


Este tipo de relevo favorece a vitivinicultura por garantir excelente drenagem do solo, proteção contra pragas e alta amplitude térmica. As altitudes maiores, em regiões vitivinícolas, diminuem as temperaturas e aumentam a incidência de raios UV, resultando em uvas com cascas mais grossas, maior acidez, frescor e taninos mais concentrados.

As principais regiões vitivinícolas da Grécia e dos vinhos degustados

Atualmente a Grécia cultiva mais de 300 castas nativas e possui cinco principais macrorregiões vitivinícolas que se estendem desde sua porção continental, ao Norte do país até as ilhas no Sul, abrigando vinte e nove Denominações de Origem Protegida (PDOs).

As principais regiões vitivinícolas são Santorini (Ilhas Egeias, no Sul) onde a uva estrela é a branca Assyrtiko que gera vinhos minerais, secos e de alta acidez; a Macedônia (Norte da Grécia) onde destaca-se a uva Xinomavro, com taninos marcantes e grande potencial de guarda; o Peloponeso (Sul da Grécia) uma das maiores e mais antigas regiões vitivinícolas, famosa pelos vinhos aromáticos da uva tinta Agiorgitiko na região de Nemeia, e, Atica no norte da península do Peloponeso 

Os vinhos degustados

Os vinhos degustados no jantar foram elaborados com as castas provenientes das seguintes regiões, por ordem de degustação: 1) Noroeste do Peloponeso-Mantineia (branco), 2) Nordeste do Peloponeso-Acaia (rose), 3) Noroeste do Peloponese-Nemea (tinto), 4) Norte da Macedônia-Naoussa (tinto) e 5) Norte do Peloponeso-Patras (colheita tardia), como pode ser observado no mapa. 


Os vinhos degustados


    




Um experiência enriquecedora além de muito saborosa!

Se beber, não dirija!

Bibliografia:

https://www.google.com/search?q=regioes+vitivinicolas+da+grecia+antiga&sca_esv=

https://www.dadosmundiais.com/europa/grecia/index.php

https://pt.wikipedia.org/wiki/Vinicultura_na_Grecia_antiga

https://www.vinhoscollection.com.br/mavrodaphne?

https://www.divvino.com.br/vinho-grego-cavino-naoyssa-xinomavro

https://www.winelands.com.br/produto/nemea-agiorgitiko-pdo/

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A UVA PINOT NOIR – DE SEMENTES DA ERA MEDIEVAL COM 600 ANOS ATÉ OS VINHOS DE NOSSOS DIAS.

 No mês de abril ministrei uma aula/degustação sobre “O Vinho e a Geografia – O Sauvignon Blanc e o Pinot Noir pelo Mundo” na Wine & Food Emporium, onde foram degustados cinco vinhos, dois Sauvignon Blanc e três Pinot Noirs, todos eles oriundos de diferentes regiões vitivinícolas.

Quando estava preparando a aula me deparei com artigos bem interessantes, publicados recentemente, mencionando que vinhos Pinot Noir são alguns dos mais antigos do mundo. Cinquenta e quatro (54) sementes de uva de 600 anos, identificadas como geneticamente idênticas à Pinot Noir moderna, foram encontradas em uma fossa de latrina de um hospital medieval da cidade de Valenciennes, na região de Hauts-de-France, norte da França.


Na Idade Média as latrinas dos hospitais eram sanitários básicos com estruturas mais rústicas, sendo utilizadas também como poço de lixo para os restos da cozinha e detritos do dia a dia. Foi a acumulação desse material que  involuntariamente preservou essa matéria orgnânica que, de outro modo, já teria apodrecido há muito.

A descoberta, divulgada inicialmente pela CBS/AFP e um novo estudo publicado na Nature Communications (Março 2026), sugerem que o cultivo da Pinot Noir na França remonta pelo menos ao século XV (1401-1500). Isso confirma a continuidade genética da casta, indicando que a Pinot Noir é cultivada há séculos oferecendo uma visão rara sobre a longevidade de uma das variedades de uva mais populares do mundo.

O estudo analisou os genomas de 54 sementes de uva que abrangem desde a Idade do Bronze (por volta de 2300 a.C.) até a Idade Média. Os pesquisadores sequenciaram seu DNA e encontraram uma correspondência genética direta com a Pinot Noir atual. Os resultados confirmam que os viticultores já adotavam técnicas de propagação clonal — preservação e replantio de mudas de videiras específicas — há pelo menos 600 anos.

O que você precisa saber sobre a Pinot Noir - Vinsel Vinhos

https://vinsel.com.br/blogs/novidades/o-que-voce-precisa-saber-sobre-a-pinot-noir?

Essas  54 sementes, que conservaram-se  nesse ambiente úmido e pobre em oxigênio, foi identificado que  provêm de épocas distintas: da Idade do Bronze, por volta de 2.300 a.C., até  o século XV (1401  a 1500). Entre as sementes analisadas uma da fase tardia da Idade  Média (por volta de 1450) destacou-se de modo particular - geneticamente, corresponde quase exatamente ao Pinot Noir que hoje cresce em vinhas de todo o mundo.

“Não é possível afirmar se a fruta era consumida como uva de mesa ou se as pessoas faziam vinho com ela na época”, menciona o coautor do estudo, Laurent Bouby, do Instituto de Ciência Evolutiva de Montpellier. Porém, a descoberta estabelece uma clara conexão entre a indústria vinícola francesa moderna e suas raízes medievais. Como referência histórica, ao leitor,  Joana d’Arc poderia ter comido as mesmas uvas que nós, como mencionado por Ludovic Orlando, paleogeneticista da Universidade de Toulouse e coautor do estudo.

A propagação clonal, baseada no plantio por meio da técnica de estaquia (um pedaço do ramo é plantado para criar raízes e formar uma nova planta) em vez de sementes, permitiu copiar indefinidamente videiras selecionadas, mantendo o mesmo conjunto de características desejadas. Dessa forma, um mesmo “indivíduo” vegetal pôde ser multiplicado por séculos em diferentes regiões vitívinicolas. Essa técnica explica por que uma semente medieval pode ser virtualmente idêntica à Pinot Noir atual.

Com isso, para nossa sorte, a Pinot Noir chegou aos nossos dias com suas características preservadas, sendo uma das uvas mais reverenciadas no mundo do vinho, conhecida por produzir rótulos elegantes, delicados e cheios de complexidade.

Em Valenciennes o clima é Temperado Oceânico (Cfb) de acordo com a escala climática de Köppen-Geiger, o que indica temperaturas amenas, verão curto, agradável. O inverno é muito frio (latitude 50° 21’N), de ventos fortes e de céu parcialmente encoberto, as temperaturas podem chegar a -6°C. As   chuvas são bem distribuídas (810mm/ano) ao longo de todo o ano, e as quatro estações são bem definidas.  

Os vinhos apresentados na aula/degustação foram escolhidos juntamente com a Wine & Food Emporium, entre vários analisados. Os eleitos foram selecionados porque as suas regiões vitivinícolas apresentavam características climáticas diferentes, que podiam ser observadas em cada cálice, em cada gole de vinho.

Os exemplares de Pinot Noir degustados eram de três regiões vitivinícolas Austrália, Brasil e Moldávia. Porém, o da Moldávia, é de uma região vitivinícola com o mesmo tipo climático que de Valencienne, na França.

Dois eram de regiões vitivinícolas do Hemisfério Sul e um do Hemisfério Norte, localizadas em latitudes diferentes, em áreas com maior ou menor continentalidade/maritimidade e com maior ou menor altitude, conforme pode ser visto no mapa que segue. 


Os vinhos degustados foram:

·        Austrália - lindemans Bin 99 Pinot Noir, safra 2021, Hunter Valley;

·       Brasil - Aracuri Pinot Noir, safra 2022, Vinícola Aracuri, Muitos Capões, RS;

·       Moldávia - Daos Pinot Noir Bostavan, Safra 2022, área vinícola Etulia, região Valul Lui Traian.

A ordem da degustação foi primeiro o vinho de maior latitude no Hemisfério Sul – Australia- depois o vinho do Rio Grande do Sul e, por último o exemplar do Hemisfério Norte-Moldávia - o de maior continentalidade e, também, maior latitude.


1° Vinho - O australiano lindemans Bin 99 Pinot Noir, safra 2021, a vinícola está localizada no Hunter Valley (32°46′ S - 151°17′ L), no Sudeste da Austrália, na província de Nova Gales do Sul.  Esta é uma das principais regiões vitivinícolas do país.  Está a 160 km ao norte de Sydney e das três regiões analisadas na degustação, é a que apresenta a maior maritimidade.  A Australian Geographical Indication (AGI-1966) do vale tem 19.578 km² e um total de 2.605 hectares de vinhedos.



2° Vinho – O brasileiro Aracuri Pinot Noir, safra 2022, da Vinícola Aracuri, localizada no município de Muitos Capões (28° 18′ S - 51° 10′ O), na região dos Campos de Cima da Serra, no extremo Nordeste do estado, na borda do Planalto Médio.  É a região mais fria do Rio Grande do Sul é nela que está localizado também o município de São José dos Ausentes, que juntamente com o município de Urupema-SC apresentam as menores temperaturas no inverno. 



3° Vinho – O vinho da Moldávia era o Daos Pinot Noir Bostavan, safra 2022, área vinícola Etulia, região Valul Lui Traian (45° 32’ N – 28° 15’ L). Os vinhedos da Moldávia formam uma das regiões vinícolas mais antigas e densas do Leste Europeu. O nome DAOS é uma homenagem aos antigos Dácios ("Daoi"), povo indo-europeu que habitava a região da Moldávia e Romênia (Sec.I a.C. e o séc.II d.C.). A Etulia está Inserida dentro da Indicação Geográfica Protegida (IGP) Valul lui Traian. 



Foi realmente uma experiência muito interessante. Apesar de todos os vinhos serem elaborados com a mesma uva, mas, por serem oriundos de regiões vitivinícolas com localização geográfica bem diferentes, as características específicas trazidas por cada uma delas estavam muito presentes neles.

Se beber, não dirija!

Referencias bibliográficas:

https://www.thedrinksbusiness.com/2026/03/medieval-grape-seed-reveals-600-year-lineage-of-pinot-noir/

 https://paroquiadoamial.pt/8-356197713-sanita-medieval-revela-vestigio-de-pinot-noir-com-600-anos/

 https://oantagonista.com.br/mundo/semente-de-uva-encontrada-em-vaso-sanitario-de-hospital-medieval-revela-que-a-variedade-pinot-noir-ja-existia-ha-600-anos/

 https://pt.euronews.com/cultura/2026/03/25/joana-darc-pode-ter-provado-a-mesma-uva-que-nos-pinot-noir-ja-existia-na-idade-media

 https://olhardigital.com.br/2026/03/27/curiosidades/uma-semente-de-uva-encontrada-na-latrina-de-um-hospital-medieval-revela-que-a-variedade-pinot-noir-ja-existia-ha-600-anos/

 https://pt.wikipedia.org/wiki/Classifica_climática_de_Koppen-Geiger



GEOGRAFIA DO VINHO - OS EFEITOS DO SUPER EL NIÑO 2026-2027 NO PANORAMA MUNDIAL DO VINHO

Cientistas estão anunciando a configuração de um poderoso El Niño, com o aquecimento do Pacífico Equatorial entre agosto e outubro-2026, int...