sábado, 2 de maio de 2026

O VINHO E AS MISSÕES JESUÍTICAS NO RIO GRANDE DO SUL

Neste ano, 2026, o Rio Grande do Sul celebra os 400 anos das Missões Jesuíticas Guaranis (1626–2026). Porém, antes de mencionar a relação do vinho com as Missões Jesuíticas no estado, vamos recordar um pouco da história dos Sete Povos das Missões.

A primeira fase das reduções jesuíticas ocorreu no período de 1626 a 1638-1639, com a fundação da redução de São Nicolau pelo padre Roque Gonzales de Santa Cruz, em 3 de maio de 1626. Este período inicial, focado na região do Tape (atual região Noroeste/Missões-RS) foi marcado pela criação de 18 reduções. Os constantes conflitos com bandeirantes paulistas e disputas de fronteira entre Portugal e Espanha destruíram essa primeira fase, levando a uma migração temporária dos jesuítas para o lado argentino do rio Uruguai.


Antes de passarmos a segunda fase das reduções jesuíticas, vale lembrar um pouco da história do Rio Grande do Sul. Desde o descobrimento do Brasil e, no período das missões jesuíticas, praticamente toda a região Sul do Brasil não pertencia a coroa portuguesa e sim, as terras conquistadas pela Espanha na América do Sul, como resultado do tratado de Tordesilhas (1494). Firmado entre Portugal e Espanha este dividiu as terras "descobertas e por descobrir" fora da Europa por um meridiano a 370 léguas a oeste de Cabo Verde (África). Terras a Leste seriam de Portugal e a Oeste, da Espanha, garantindo a Portugal a posse de parte do Brasil, mas não a parte onde se estabeleceram as Missões Jesuíticas (espanholas), localizadas no Sul do país (Vejam o mapa que segue).

Apenas em 1777, com o Tratado de Santo Ildefonso todo o território do Rio Grande do Sul foi incorporado ao Brasil de forma definitiva.

 


A segunda fase das reduções jesuíticas (como eram chamadas as aldeias indígenas cristãs) teve início a partir de 1682 (século XVII) quando os padres jesuítas da Companhia de Jesus começaram a retornar para as suas antigas terras, retomando as atividades jesuíticas no Noroeste do estado, originando sete reduções.  Os Sete Povos das Missões também são conhecidos como Missões Orientais, por estarem localizados a Leste do rio Uruguai.

Neste mesmo ano foi fundado o primeiro dos Sete Povos, São Francisco de Borja (atual município de São Borja), que contava com quase 3.000 habitantes.  Posteriormente foram estabelecidas mais seis reduções no território gaúcho:

  • São Nicolau (1626-1638) foi a primeira redução no estado e posteriormente refundada em 1687, na fase dos Sete Povos das Missões. É considerada o Berço das Missões e onde foi encontrada uma adega preservada;
  • São Luiz Gonzaga (1687), localizada no município de mesmo nome;
  • São Miguel Arcanjo (1687), localizada no município de São Miguel das Missões, onde se encontra o Sitio Arqueológico das Missões, conhecido como Ruinas de São Miguel. É o sítio arqueológico mais conhecido e vestígios mais notáveis das reduções jesuíticas guarani, tendo recebido o título de Patrimônio Mundial da UNESCO em 1983. O local abriga a fachada da igreja, ruínas do colégio, cemitério e o Museu das Missões, onde estão expostas imagens de santos esculpidas em madeira pelos jesuítas; 


  • São Lourenço Mártir (1691), localizada entre os municípios de São Luiz Gonzaga e São Miguel. Exibe remanescentes da igreja, adegas e escola;
  • São João Batista (1697), situada no município de Entre-Ijuis, onde ocorreu a primeira fundição de ferro e aço da América Latina;
  • Santo Ângelo Custódio (1707) localizada no município de Santo Ângelo, cuja atual Catedral Angelopolitana, construída no local da antiga igreja missioneira, tem traços arquitetônicos semelhantes à da igreja das Ruinas de São Miguel.

A denominação Sete Povos das Missões, foi dada ao conjunto de sete aldeamentos indígenas fundada por jesuítas espanhóis na “Região do Rio Grande do Sul e de São Pedro”, atual estado do Rio Grande do Sul.

Os padres da Companhia de Jesus (Jesuítas) buscavam converter os índios guaranis ao catolicismo, organizando-os em vilas chamadas "reduções" para protegê-los da escravidão. Estas funcionavam como centros urbanos com igreja, escola, oficinas, horta e cemitério. Os guaranis aprenderam técnicas agrícolas, pecuária e artes.

Mas,  tenho certeza de que os leitores devem estar se perguntando qual a relação dessas Missões Jesuíticas e o vinho. Simples, os jesuítas é uma ordem religiosa católica e no ritual da missa católica o vinho é utilizado na Liturgia Eucarística, especificamente no momento da Consagração, representando o sangue de Cristo. O vinho também era para consumo nas refeições. Assim, em todas as reduções jesuíticas havia a presença do vinho e, nas ruinas da redução de São Nicolau, no município de mesmo nome é possível visitar a sua adega, que está preservada.

Essa adega é construída em pedra de arenito, muito comum na região, sendo única entre todos os povos da margem oriental do Rio Uruguai, ela impressiona pela sua beleza e preservação. Impressiona também pelo fato de que ao descer as escadas originais, o visitante vai sentir a temperatura cair à medida que se aproxima dos 8 metros de profundidade, é um ambiente perfeito para armazenar vinhos, repleto de história e mistério.

Mas além de toda esta riqueza histórica a região das Missões abriga também a mais recente região vitivinícola do estado do Rio Grande do Sul. O Terroir NoMi (abreviação de Noroeste/Missões). É uma promissora e nova região vitivinícola localizada no Noroeste do Rio Grande do Sul e na região das Missões, que teve sua marca adotada e o lançamento do projeto realizado por produtores locais em março de 2024. 

A associação conta com a participação de oito vinícolas da região, sendo que algumas delas eu tive o prazer de visitar e degustar excelentes vinhos:

  • Malgarim Vinhos, de São Borja;
  • Don Carlos, de Santo Ângelo;
  • Novos Caminhos Wine, de Ijuí;
  • Weber, de Crissiumal;
  • Fin, de Entre-Ijuís;
  • Azienda Agrícola Bortolini, de Ijuí;
  • Tertúlia, de Três de Maio; e,
  • Família WF, também de Ijuí.

O padre jesuíta Roque González de Santa Cruz, em 1619, cultivou as primeiras vinhas na região, cujas castas seriam as espanholas Criolla e Criolla Chica e, também as chamadas de País e Mission. Hoje as vinícolas da região além de cultivarem as tradicionais cepas internacionais como a Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay, Viognier e Pinot Bianco, investem também em variedades ainda pouco conhecidas no país, mas que atraem a atenção do consumidor. Entre elas estão a grega Xinomavro, a georgiana Saperavi, a montenegrina e sérvia Vranac, a tcheca Palava (todas do Leste Europeu), assim como as italianas Casavecchia e Nero D’Avola.

As vinícolas do Terroir NoMi apresentam em seus vinhos rótulos que remetem a tradição missioneira, sendo alguns deles verdadeiras obras de arte. A vinícola Dom Carlos, em Santo Ângelo, há quatro anos desenvolveu um projeto de rótulos para seus vinhos de conteúdo missioneiro, com o arquiteto Antônio Warpechowski, criador do conteúdo visual das garrafas.  


Na mesma época a vinícola Malgarim também desenvolveu um projeto de rótulos com referências missioneiras, como pode ser observado na figura.  Atualmente, os vinhos tintos têm rótulos que remetem a origem missioneira da região como o Tempranillo Arapysandú, Tempranillo Inácio Paicá, ou o Cabernet Sauvignon com a figura da vinícola em estilo missioneiro e o Merlot com a cruz missioneira em seu rótulo. O próprio estilo do prédio da vinícola remete a arquitetura da igreja missioneira.  

 


O grupo NoMi trabalha para obter o reconhecimento de Indicação de Procedência (IP) junto ao INPI, buscando valorizar castas menos comuns e impulsionar o enoturismo na região missioneira. Vale a pena visitar as vinícolas e degustar essas castas novas que estão sendo introduzidas por elas.

 Se beber, não dirija!

Referencias:

 https://saonicolau.rs.gov.br/site/conteudos/6565-padega-jesuiacuteticap

https://brasildevinhos.com.br/terroir-nomi-nasce-uma-nova-e-promissora-regiao-vitivinicola-gaucha/

https://www.malgarimvinhos.com.br/categoria-produto/tempranillo/

www.brasildevinhos.com.br

https://www.portaldasmissoes.com.br/rolador/noticias/sete-povos-das-missoes-uma-das-mais-notaveis-utopias-da-historia-1028

https://www.penaestrada.blog.br/ruinas-de-sao-miguel-das-missoes/

http://penta2.ufrgs.br/rgs/historia/setePovosMissoes.html

https://www.instagram.com/vinicoladoncarlos/

 

 




 








sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

GEOGRAFIA DO VINHO - O VINHO DO PAÍS DO SOL NASCENTE – JAPÃO

O Japão é conhecido como “o país do Sol nascente”. Uma das origens atribuídas a essa expressão era a forma como os chineses, que tinham uma enorme influência na cultura, política, filosofia, religião, vestimentas e escrita asiática, se referiam ao país 2 mil anos antes do Japão ser a potência atual.  

Se olharmos a localização do China em relação ao Japão essa expressão faz muito sentido, já que ele está a Leste da China, onde nasce o Sol (Oriente).

Apesar de o país ser bastante conhecido por todos os brasileiros, devido as levas de imigrantes japoneses que chegaram ao nosso país a partir de 1908 e, mantermos intensas relações comerciais e turísticas, tem-se pouca informação sobre a sua produção de vinhos.

Dois fatores contribuem para isso, o primeiro é a distância entre o produtor de vinho (Japão) e o consumidor (Brasil). A distância em linha reta (distância geodésica) entre Brasília-Brasil e Tóquio-Japão, é de aproximadamente 17.664 km, o que implica em um longo voo de 22 horas, 4 min. Isso dificulta qualquer tipo de relação comercial, uma vez que demanda uma logística complexa que não afete a qualidade de um produto delicado como o vinho.

O segundo fator é que a produção de vinho no Japão, ao contrário da Europa, começou há cerca de 140 anos na província de Yamanashi, na década de 1870, mais ou menos no mesmo período em que os imigrantes italianos chegaram ao Brasil (fevereiro de 1874).

Foi nessa época que dois jovens da província de Yamanashi voltaram da França  onde estudaram técnicas de produção de vinho, decidiram tentar a sorte e fundaram a primeira vinícola japonesa. Assim nasceu a Château Mercian, a primeira vinícola privada do Japão que ainda  está em operação e planeja dobrar sua produção. 



Apesar de os dois países iniciarem a vitivinicultura no  mesmo período, a diferença entre eles é que os imigrantes italianos que aqui chegaram a 152 anos, trouxeram junto um vasto conhecimento sobre a produção de vinhos na Itália que começou há mais de 4.000 anos, com raízes antigas que remontam aos etruscos (por volta de 1.000 a.C.), ao contrário do Japão.

A história do consumo de vinho no Japão começou com a aproximação da sua ocidentalização, mas não se popularizou, pois o vinho não se adequava à dieta japonesa da época, centrada no arroz e a bebida que dominava era o saquê. Porém, em 1964 o Japão sediou as Olimpiadas de Tokyo e, com a chegada de estrangeiros de vários pontos do mundo, começou a mudança para um maior consumo de vinho à medida que a alimentação se tornava mais ocidentalizada. O consumo anual por adulto ainda é baixo, em torno de 3,1 litros ou 4,1 garrafas/por ano. No  Brasil em 2025 o consumo per capita indicou uma média entre 2,2 a 3 litros/por ano.

As principais variedades e províncias produtoras de vinho no Japão

O Japão é um país insular (3.900 ilhas) com aproximadamente 378.000 km², onde o  cultivo da uva é realizado em diversos locais incluindo vales, montanhas e colinas. Predominantemente montanhoso e vulcânico (conveniente para a instalação de áreas de vitivinicultura) tem cerca de 70% a 80% do território coberto por montanhas e florestas, o que concentra a população nas áreas costeiras.

A partir da criação da primeira vinícola comercial, começaram a surgir  outras  por todo o país com as principais áreas de produção sendo as províncias de Yamanashi (31%), Nagano (23%), Hokkaido (17%) e Yamagata (10%). Em 2024 foram  registradas mais de 500 pequenas   vinícolas espalhadas por 46 das 47 províncias do Japão, o gráfico apresenta a produção de vinhos em 2025,  nas principais províncias vitivinícolas.



Desde 2013, o Japão vem adotando a designação de Indicação Geográfica (GI) para vinhos para destacar seu "terroir" único, similar ao sistema AOC francês. Este é um sistema estabelecido pela Agência Nacional de Impostos (NTA) para proteger e promover vinhos produzidos com uvas locais, garantindo a qualidade e origem geográfica. Cinco províncias receberam reconhecimento oficial como Indicações Geográficas (IGs): Yamanashi, Nagano, Hokkaido, Yamagata e Osaka.

Duas variedades nativas são largamente cultivadas no Japão, a branca Koshu e a tinta Muscat Bailey A. A introdução de variedades Vitis Viniferas europeias ocorreu na segunda metade da década de 1970, com as variedades Merlot e Chardonnay e a  Cabernet Sauvignon. Paralelamente um número crescente de produtores tenta utilizar a Syrah e a Pinot Noir em áreas de cultivo menores, assim como as variedades brancas a Kerner (originária da Alemanha) e a Sauvignon Blanc.

As ilhas de Honshu e Hokkaido – Regiões Vitivinícolas

Ilha de Honshu

Na ilha de Honshu, a maior ilha do arquipélago japonês,  estão localizadas cinco províncias vitivinícolas, Yamanashi, Nagano, Yamagata, Okayama e Osaka.


Província de Yamanashi

É conhecida como o "berço" do vinho japonês, ela abriga o maior número de vinícolas. Localizada a oeste de Tóquio e aninhada perto da base do icônico Monte Fuji, Yamanashi é o epicentro da vitivinicultura japonesa (8,586 Ton./2025).

A região é uma bacia interior com montanhas que oferecem abrigo contra a chuva. Tem um clima temperado, sol abundante e solos vulcânicos ricos, que juntos criam um ambiente ideal para a vitivinicultura.

 É famosa pela uva Koshu, variedade vinífera branca/rosada, com casca grossa para resistir à umidade. Nativa do Japão é cultivada há mais de mil anos, principalmente nessa província. Produz vinhos brancos elegantes, secos, com alta acidez, aromas cítricos (toronja, limão) com notas minerais que harmonizam com sushi e a culinária japonesa.



Nessa província é cultivada também a variedade tinta Muscat Bailey A (MBA), uma casta híbrida de uva tinta japonesa desenvolvida na década de 1920 por  Kawakami Zenbei. É um cruzamento entre Bailey (variedade americana Vitis Labrusca) e Muscat de Hamburgo (Vitis Vinifera), desenvolvida especificamente para o clima úmido e chuvoso do Japão. É um dos pilares da produção de vinho tinto japonês e é cultivada também no Brasil e na Coreia do Sul. 

Caracteriza-se por uma acidez vibrante, corpo leve a médio, taninos suaves e aromas distintos de frutas como morango e framboesa, frequentemente com um leve toque floral ou de avelã. Nessa província são também cultivadas variedades internacionais como a Chardonnay e Merlot.

Yamanashi foi a primeira província vitivinícola a receber Indicação Geográfica (GI Yamanashi) estabelecida em 2013. Os vinhos devem ser feitos exclusivamente com uvas locais, principalmente Koshu (branco) e Muscat Bailey A (tinto), com teor alcoólico  de 8,5%.

Província de Nagano  

Situada em uma área montanhosa (Alpes Japoneses), é uma das regiões vitivinícolas mais promissora, sendo a segunda maior produtora de uvas viníferas do país (6,704 Ton./2025).  É conhecida por seus vinhedos de altitude (em torno de 500 m).  

Importante região vitivinícola de clima frio está situada na região central  do Japão, cercada por montanhas de 3.000m. Nagano possui vales com alta altitude, clima frio, invernos longos e nevados, verão fresco, grande amplitude térmica e longas horas de sol ideais para uvas europeias, fatores esses que contribuem para o desenvolvimento de sabores complexos nas uvas.

Com mais de 60 vinícolas, focadas em Pinot Noir e Chardonnay e variedades brancas de alta qualidade, como a Kerner  (Trollinger + Riesling), a região é conhecida por produzir vinhos elegantes, com alta acidez e caráter mineral. A variedade híbrida de uva Shinano Riesling (Riesling+Chardonnay)  cultivada principalmente em Nagano, foi especificamente desenvolvida pela Manns Wine Co. para o clima único e frequentemente úmido do Japão. Produz  vinhos aromáticos, frescos com alta acidez, sabores de lima, maçã verde e pêssego branco, ideal para vinhos leves e refrescantes.

Concentrada em Yoichi e Sorachi, a indústria vitivinícola é impulsionada por pequenos produtores artesanais que se adaptam às mudanças climáticas e aos invernos rigorosos. Em  2021 foi estabelecida a Indicação Geográfica GI Nagano (selos azul ou vermelho) para vinhos feitos com 100% de uvas da região e os de qualidade superior podem receber o selo dourado "GI Nagano Premium".

 Província de Yamagata

Situada no Norte da ilha principal de Honshu, é uma renomada região vitivinícola de clima frio, propício ao cultivo de frutas, destacando-se na produção de vinhos de alta qualidade. É a quarta maior província produtora de vinhos no Japão (2,428 Ton./2025).

Está voltada para o mar do Japão a Oeste e é cercada por montanhas em três lados. As uvas são cultivadas em encostas com boa drenagem e a  região possui solos vulcânicos e sedimentares, ideais para a produção de uvas de qualidade, beneficiando-se de noites frescas e dias quentes. O clima da região, com grande amplitude térmica, favorece as uvas aromáticas. 


Com cerca de 19 vinícolas focadas em vinhos aromáticos de alta qualidade e acidez refrescante, é conhecida por seus vinhos brancos Delaware (variedade americana), Niagara,  Chardonnay e Koshu, além dos vinhos tintos produzidos com as uvas Merlot e Muscat Bailey A. Em 2021, o vinho de Yamagata recebeu a certificação de Indicação Geográfica (GI). 

Na ilha de Honshu são encontradas também mais duas outras regiões vitivinícolas de menor expressão, mas importantes na vitivinicultura japonesa.

Província de Osaka

É pouco conhecido que a província de Osaka seja produtora de vinhos, mas na verdade  é uma região com mais de 120 anos de história vitivinícola, graças à sua abundante luz solar. Poucos sabem que nessa província há uma região produtora que fica próxima das áreas de consumo — do centro da cidade, são apenas 40 minutos.

É o lar da primeira vinícola urbana do Japão (Fujimaru Winery) e da primeira vinícola aeroportuária do Japão. Sendo uma das poucas com essa característica, ter vinhedos tão perto do centro da cidade é um dos atrativos do vinho de Osaka. Em 2021 Osaka recebeu a Indicação Geográfica (GI Osaka).

Em vinhedos próprios  a vinícola Fujimaru cultiva principalmente uvas Delaware,  uma variedade tinta adaptada ao cultivo no Japão e apreciada pelos habitantes de Osaka há muito tempo. Aproximadamente um terço do vinho produzido em Osaka é feito com uvas dessa variedade.



Os vinhos de Delaware caracterizam-se pelo seu corpo leve e acidez refrescante. Harmonizam facilmente com refeições do dia a dia, como massas com molho de tomate e pizzas, também combinam maravilhosamente com a culinária japonesa, incluindo tempurá de legumes da estação e o takoyaki, um bolinho com massa à base de trigo, recheado com pedaços de polvo, cebolinha e gengibre em conserva,  um dos petiscos de rua mais populares e icônicos do Japão, originário da cidade de Osaka.

Província de Okayama

É uma região vitivinícola emergente reconhecida pela produção de vinhos de alta qualidade, particularmente na área montanhosa de Niimi. É  a menor região  produtora de vinho,  mas responsável por 90% da produção japonesa de Moscato de Alexandria. Apresenta solo calcário e significativas diferenças de temperatura entre o dia e a noite, onde são cultivadas as variedades Chardonnay, Sauvignon Blanc, Riesling e as  tintas Muscat Bailey A, Cabernet Franc, Merlot, Pinot Noir.

Ilha de Hokkaido

A ilha de Hokkaido é a província vitivinícola localizada mais ao Norte do país (41° a 45° N), focada em vinhos de clima frio (estilo europeu) devido aos verões amenos e invernos rigorosos.   É uma das principais regiões vitivinícola do Japão (3,708 Ton./202 5), sendo vista como o futuro da alta qualidade no país devido às mudanças climáticas que favorecem regiões mais frias.



Graças ao aquecimento global, agora é possível plantar variedades de viníferas em Hokkaido, e a região tornou-se o motor do movimento do vinho natural no Japão. Com invernos rigorosos e clima mais frio, com mais de um metro de neve no inverno, grande amplitude térmica diária, combinada com os solos férteis essa região tornou-se a "nova fronteira" vitivinícola japonesa, produzindo vinhos mais estruturados e com boa acidez.

A região produz variedades de uvas com foco nas variedades europeias de clima mais frio, como as brancas Chardonnay, Kerner, Muller Thurgau e as tintas Merlot, Pinot Noir  e a aromática Zweigelt (híbrida austríaca).

Hokkaido foi designada Indicação Geográfica (GI Hokkaido) pela Agência Nacional de Impostos em junho de 2018, com isso os vinhos tem que atender certos padrões , como "utilizar 100% de uvas colhidas em Hokkaido", e mencionar a indicação "Hokkaido" em seus rótulos.

Videiras enterradas na neve:

Uma curiosidade, essa região vitivinícola se destaca por um manejo interessante de suas videiras. No inverno os vinhedos de Hokkaido são cobertos por uma espessa camada de neve (frequentemente mais de 6 metros) durante os longos e frios invernos. Essa pesada camada de neve atua como um isolante natural, protegendo as vinhas de temperaturas abaixo de zero (até -20 °C) como um iglu, impedindo que congelem até a primavera.



A técnica de "enterrar na neve" (snow burial) ou inclinar as videiras rente ao solo é utilizada para protegê-las do frio intenso, uma vez que as temperaturas extremas poderiam matar as videiras, especialmente as variedades europeias como a Pinot Noir e Merlot. Assim, os produtores cortam as videiras baixas ou dobram os ramos permitindo que a neve cubra a planta, mantendo a temperatura ao redor da videira por volta de -7°C, mesmo quando o ar atmosférico está muito mais frio, protegendo-a contra danos do congelamento.

Esse artigo nos mostra que, ao contrário dos vinhos de outras regiões vitivinícolas ao redor do mundo, a característica marcante  do vinho japonês é a "delicadeza". A culinária japonesa e o vinho japonês demonstram uma afinidade surpreendente nesse sentido, ambos se caracterizam pela sua delicadeza, diferente dos molhos vermelhos da comida italiana, do churrasco gaúcho e da comida calórica ou condimentada presente em muitos países. Ao saborear sushi, tempurá ou sukiyaki, o vinho japonês é a harmonização ideal.

Se beber, não dirija!

Bibliografia:

https://www.winetraveler.com/japan/japanese-wine/

https://japanhousesp.com.br/story/o-vinho-japones-e-as-principais-provincias-vinicolas-niponicas/

www.winefogg.com/japanese-wine

https://cluboenologique.com/story/introduction-japanese-wine/

https://gubi-gubi.nl/pages/fujimaru-winery

https://winesofhokkaido.com/en/

https://www.wineanorak.com/wineblog/uncategorized/tasting-some-japanese-wines-from-the-hokkaido-region


sexta-feira, 19 de setembro de 2025

O VINHO NA TRILHA DOS FARROUPILHAS

 



No dia 20 de setembro o Rio Grande do Sul celebra o início da Revolução Farroupilha (20/09/1835-01/03/1845) ou Guerra dos Farrapos (se referiam aos trajes esfarrapados que as tropas rebeldes usavam) como ficou conhecida a mais longa guerra civil do Brasil. Começou como uma revolta de estancieiros gaúchos contra altos impostos sobre o charque, produzido nas estâncias, e a falta de autonomia provincial.  

Essa revolta evoluiu para uma luta de caráter republicano e separatista contra o governo imperial do Brasil, na então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, e que resultou na declaração de independência da província como estado republicano, dando origem a República Rio-Grandense, que durou dez anos.

Entre as principais causas estavam:

  1. Descontentamento Econômico: devido a política de altos impostos sobre o charque gaúcho, que abastecia inclusive São Paulo e Rio de Janeiro, e que não era aplicado aos produtos estrangeiros, que chegavam ao estado favorecendo a concorrência;
  2. Centralização do Poder: A elite sul-rio-grandense reivindicava maior autonomia para a província, governada por presidentes nomeados pelo governo central do Rio de Janeiro; e,
  3. Crise do Período Regencial: A instabilidade política do período regencial (1831-1840), caracterizada pela ausência de um monarca e com um governo central enfraquecido, contribuiu para a atmosfera propícia à revolta.  Dom Pedro II teve sua maior idade declarada e assumiu o trono apenas em 1840.

A Revolução Farroupilha terminou em 01 de março de 1845 com o Tratado de Poncho Verde, que concedeu anistia aos rebeldes, garantiu a alforria de escravizados que lutaram no conflito e integrou os farroupilhas ao exército imperial, consolidando a paz e o orgulho regional. 

"Estancieiros gaúchos”, que deram início a esse conflito eram os donos de grandes propriedades rurais (principalmente na região da Campanha Gaúcha), as chamadas estâncias no estado, dedicadas à criação de gado ou agricultura. Estes termos remontam ao início do povoamento da região quando havia necessidade de manutenção e defesa do território brasileiro nas áreas limítrofes (sesmarias) com Uruguai e Argentina.

Na época, os estancieiros eram membros da elite agrária e produtora de charque (carne seca) e, que devido aos seus interesses econômicos e ideais republicanos, tomaram a frente do movimento para buscar maior autonomia e um tratamento mais justo para os produtos do Rio Grande do Sul. Bento Gonçalves, líder da revolução e primeiro presidente da República Rio Grandense era estancieiro. 


Os termos Estância e Estancieiros ainda são utilizados no Rio Grande do Sul, para definir o dono de uma grande propriedade rural dedicada à criação de gado ou à agricultura: uma estância. O termo também é utilizado no Uruguai e na Argentina (em castelhano, estanciero).

PRODUÇÃO DE VINHO NO ESTADO NO TEMPO DOS FARRAPOS

Há 190 anos, quando teve início a Guerra dos Farrapos em 1835, a porção Sul do estado era praticamente uma extensão enorme de terras despovoadas, onde predominava a pecuária extensiva. A vitivinicultura não era um foco principal do Rio Grande do Sul sendo a produção de charque a atividade econômica dominante no estado.

O mapa que segue (direita) mostra como era o estado do Rio Grande do Sul, no ano em que começou a Revolução Farroupilha. Havia apenas 14 municípios, sendo os de maior extensão territorial Cruz Alta e Alegrete e, toda a Serra Gaúcha, a mais expressiva região vitivinícola do estado pertencia, na época, ao município de Santo Antônio da Patrulha. No mapa da esquerda fiz uma sobreposição com a área que atualmente corresponde a IP Campanha Gaúcha, no mapa de 1835 seriam os territórios dos municípios de Alegrete e Piratini.

Mapa do Rio Grande do Sul, início da Guerra dos Farrapos, Imagem enviada por Sergio Martins, no grupo Buenas Ideias.

A produção de vinhos era focada em vinhos rústicos e em processos de fabricação simples, sem controle técnico de fermentação ou teor alcoólico, resultando em bebidas mais turvas, com sabores grosseiros, muitas vezes alterados por conservantes e de menor qualidade em comparação aos padrões atuais. A produção era mais focada no consumo próprio, mas o vinho já era um símbolo e um elemento presente na vida social e, por vezes, na cultura da época. 

Por volta de 1839 e 1842, em pleno desenrolar da Guerra dos Farrapos, ocorreu a introdução de castas americanas no estado, sendo Marques Lisboa o precursor da uva Isabel. Ele remeteu desde Washington, em 1839 bacelos dessa variedade para Thomas Messiter, seu amigo, fornecendo também informações sobre sua impressionante robustez e produtividade.  A uva Isabel foi a primeira variedade de uva americana a ser introduzida na Europa, África e Ásia, como curiosidade, mas depois por ser resistente ao oídio (Dal Pizzol & Souza, 2014).  

Thomas Messiter formou os primeiros vinhedos na Ilha dos Marinheiros, ficando com o mérito de iniciador do cultivo dessa casta no Rio Grande do Sul. Essa ilha está localizada próximo a cidade de Rio Grande, no Sul do estado. Os municípios de Rio Grande e São José do Norte que aparecem próximos da Ilha dos Marinheiros, tiveram atuação na Guerra dos Farrapos.

A uva Isabel prosperou exuberantemente na Ilha dos Marinheiros, porém, apesar de todos os cuidados extremos, mudas foram subtraídas seguramente por viajantes, navegadores e agricultores da região e seu cultivo foi se difundindo pelo estado (Dal Pizzol & Souza, 2014).

Os imigrantes italianos que deram grande impulso a vitivinicultura no estado e no país, chegaram aqui apenas em 1875, 35 anos após o término da Guerra dos Farrapos.

MUNICÍPIOS VITIVINÍCOLAS DO CAMINHO FARROUPILHA

Nos campos dos Meneses, próximo ao arroio Seival, no dia 10 de setembro de 1836 ocorreu a Batalha do Seival. Hoje esse local corresponde ao município de Candiota, na Campanha Gaúcha.  No dia seguinte, em 11 de setembro de 1836, Antônio de Souza Neto proclamou a República Rio-Grandense, um marco para os ideais republicanos e separatistas do movimento. 

Alguns municípios da Região Metropolitana, da Serra do Sudeste e da Campanha Gaúcha, onde ocorreu a Revolução Farroupilha, a partir da década de 70 vem se destacando cada vez mais na produção de vinhos no estado. A Campanha é considerada a segunda maior região produtora de vinhos finos do Brasil e possui Indicação Geográfica (IG), certificando a tipicidade dos vinhos produzidos pelas 17 vinícolas espalhadas por onze municípios em uma faixa de mais de 44 mil km2.

O crescimento do turismo enológico, assumiu um papel importante nessa porção do estado, onde os visitantes podem conhecer a história da região, degustar vinhos e vivenciar a autêntica cultura gaúcha. 

Os mapas que seguem apresentam o roteiro “Caminho Farroupilha” (a esquerda) e os municípios da Região Metropolitana, Serra do Sudeste e Campanha Gaucha (a direita), que participaram da Guerra do Farrapos e que atualmente se destacam pela produção de vinhos.


Vários municípios vitivinícolas do Rio Grande do Sul tiveram papel importante na Guerra dos Farrapos, veja na tabela os que mais se destacaram e as vinícolas que podem ser encontradas em cada um deles. 


Referências Bibliográficas:

https://www.guatambuvinhos.com.br/

https://www.miolo.com.br/vinho-miolo-sebrumo-tinto-seco-cabernet-sauvignon-6x750ml

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_dos_Farrapos#/media/Ficheiro:MuseuJulio11.jpg

https://www1.folha.uol.com.br/fsp/turismo/fx1002200304.htm

https://riograndedosulroteiros.blogspot.com/2009/11/roteiro-caminho-farroupilha-tradicao-e.html

https://riograndedosulroteiros.blogspot.com/2009/11/roteiro-caminho-farroupilha-tradicao-e.html

https://naofoinogrito.blogspot.com/2016/09/

DAL PIZZOL, R.; Sousa, S.I, ; Memórias do Vinho Gaúcho; 1.ed. Porto Alegre, RS; AGE, 2014; 1.vol.; 280p.:

 






segunda-feira, 28 de julho de 2025

GEOGRAFIA DO VINHO - A PROVÍNCIA COLUMBIA BRITÂNICA, CANADÁ, É A FRONTEIRA MAIS BOREAL DO VINHO NO CONTINENTE AMERICANO

 

O Canadá, localizado na América do Norte, é o segundo maior país do mundo em extensão territorial (9.984.670 km²), ficando atrás apenas da Rússia. Faz fronteira com um único país, os Estados Unidos. Possui um terreno acidentado e climas que variam do Temperado, mais ao sul, ao Ártico, ao norte.

O país tem quatro regiões vitivinícolas importantes, todas localizadas na porção Sul do país, próximo à fronteira com os Estados Unidos, como salientado no mapa. A principal é a província de Ontário onde estão situados dois terços da área de vinhedos do país, com 150 espalhados por 6.900 hectares. A Autoridade de Denominação de Origem Vinícola de Ontário (VQA) reconhece formalmente três áreas de cultivo de vinho na província, a Península de Niagara, a costa norte do Lago Erie e o Condado de Prince Edward.  Todas três estão localizadas ao Sul da cidade de Toronto, próximas ao lago Erie na costa Leste do país, entre as latitudes de 44° a 45° Norte.


A segunda mais importante região vitivinícola do Canadá é província Columbia Britânica (BC) localizada na costa Oeste do país. Ocupa uma área de 944.735 km2 o que corresponde a 9.5% do território canadense. É limitada a Oeste pelo Oceano Pacífico, faz fronteira com as províncias de Alberta a Leste e ao Norte com os Territórios de Yukon e do Nordeste, e com os estados Norte Americanos de Washington, Idaho e Montana ao Sul. Essa província é conhecida por suas paisagens deslumbrantes e pela diversidade de microclimas, que cria condições ideais para a produção de uvas para vinho.

Na minha postagem de 4 de junho de 2025 (https://wwwgranreserva.blogspot.com/) eu apresentei um artigo que tratava da província de Chubut, na Patagônia Argentina, a última fronteira do vinho no Hemisfério Sul, sendo a região vitivinícola mais austral (Sul ou Meridional) do mundo.

Nesta postagem, irei tratar da província Columbia Britânica (British Columbia), localizada entre as latitudes de 49°a 53°Norte sendo a área vitivinícola com a localização mais boreal (Norte ou Setentrional) do continente americano. Acima dessas latitudes as temperaturas extremas não são as mais adequadas para a produção de vinho, inclusive o Ice Wine. 

Essas duas regiões vitivinícolas mais extremas estão aproximadamente, em linha reta, a 11.000 km de distância uma da outra, como apresentado no mapa da América que segue.


Nesse mapa chama a atenção a diferença na quantidade de áreas emersas entre os dois subcontinentes, América do Norte e América do Sul. O mapa da América do Sul tem a forma aproximada de um triangulo invertido, assim quanto mais para o Sul menor é a quantidade de terras emersas, por essa razão a última fronteira da vitivinicultura está localizada na latitude de 46° Sul, na divisa da província de Chubut com a de Rio Negro, na Argentina. Aí cultivam-se variedades mais adaptadas ao clima frio e de ciclo curto, como a Chardonnay, Gewürztraminer, Pinot Gris, Riesling, Sauvignon Blanc, Pinot Noir e Merlot.

A partir dessa latitude a presença de terras emersas é cada vez menor e as correntes marítimas frias oriundas da Antártica (Humbold e Malvinas), aliadas ao clima extremo da região Sul da América do Sul tornam as condições desafiadoras ou mesmo impossíveis para produção de uvas para vinho.

Já no mapa da América do Norte observa-se que o Canadá, tem a forma aproximada de um retângulo com muito mais terras emersas e com maior continentalidade, o que é bastante propício para a vitivinicultura, mesmo em latitudes maiores que as encontradas em Chubut.

A Columbia Britânica é segunda maior região produtora de vinho do Canadá, responsável por cerca de 33% da produção total do país.  Embora a província de Ontário tenha a maior produção de vinho, a Colúmbia Britânica se destaca pela diversidade de seus terroirs e pela qualidade dos seus vinhos. A região vitivinícola da Colúmbia Britânica possui 22 Indicações Geográficas (GI) oficiais, sendo  nove Indicações Geográficas regionais e 12 subindicações geográficas. As GI são Vancouver Island,  Fraser Valley, Similkameen Valley, Gulf Islands, Okanagan Valley, Lillooet Thompson Valley, Shuswap e Kootenays, conforme apresentado no mapa que segue. 



O Vale do Okanagan, localizado no Sul da província é a mais famosa das regiões vitivinícolas aí existentes. Seu território estende-se por aproximadamente 250 km e está localizado entre as coordenadas 49° (na fronteira com os Estados Unidos) até 51° de latitude Norte.



O lago Okanagan,  ao longo do qual estão localizadas as áreas de vinhedos, é um lago glaciar bastante profundo orientado no sentido Norte-Sul e alargado em sua extremidade Sul pelo rio de mesmo nome, que flui em direção à fronteira com os Estados Unidos. Sua área é de 351 km2,  seu comprimento é de 111 km, sua largura máxima de 6,4 km e sua altitude é ao redor de 342 m.

A latitude e a duração do dia do Okanagan, além do verão curto e seco, com primavera e outono frescos, tornam-no ideal para as variedades de clima frio, como Chardonnay e Pinot Noir. Apesar de o verão ser curto, devido as altas latitudes, nesse período há 18 horas de sol por dia o que resulta em sabores mais sutis nos vinhos, uma vez que a temporada de produção é menor. O vale tem 2.000 horas de sol durante o ano e, como as uvas são vulneráveis ao frio, a maioria da vinícolas tentam proteger as safras com métodos de controle climático. 

O Okanagan tem menos de 250 milímetros de precipitação ao ano na sua porção Sul e mais de 400 milímetros na parte Norte. A maioria das vinícolas da região necessita de irrigação de fontes de água próximas. O clima do Vale do Okanagan é único. As temperaturas diurnas podem chegar a 40°C em alguns lugares no verão, mas as noites frias permitem que as uvas mantenham sua acidez natural, sendo esta uma característica marcante dos vinhos da Colúmbia Britânica.


O Okanagan Norte (C) tem um clima continental úmido fresco (Köppen: Dfbo) com verões às vezes quentes e invernos frios com máximas próximas a zero e com precipitação bem distribuída durante todo o ano. Aí predominam os vinhos brancos de clima frio e Pinot Noir de alta acidez. 

No Okanagan Central (B), principalmente próximo a cidade de Kelowna e West Kelona tem um clima mediterrânico de verão fresco (Köppen: Csb) caracterizado por verões secos e amenos,  o mês mais frio tem média acima de 0 °C ou −3 °C. Kelowna, localizada as margens do lago Okanagan e cercada por montanhas e vinhedos, é onde são produzidos Chardonnay elegantes e vinhos espumantes.

O Okanagan Sul (A), localizado ao sul de Kelowna tem um clima semiárido (Köppen: Bsk) com verões quentes,  secos e invernos frios. A temperatura média diurna nesta região é de cerca de 15 °C , a mais quente do Canadá. A precipitação média anual nesta região também é a segunda mais seca do Canadá fora do Ártico  e onde são produzidos os tintos encorpados.

O Vale do Okanagan é reconhecido por sua grande variedade de uvas, pela produção de vinhos de clima frio e vinhedos pitorescos. É a maior das nove Indicações Geográficas (IGs) da Colúmbia Britânica e abriga 11 das 12 Sub-IGs reconhecidas. Cada uma delas refletem microclimas, tipos de solo e topografias únicas, tornando-se a região vitivinícola mais diversificada da província.

O Lago Okanagan e a topografia variada da região criam um microclima único, com invernos amenos, verões quentes e um longo período de crescimento livre de geadas. Isso permite que uma ampla gama de variedades de uvas prospere, resultando em vinhos de alta qualidade com estilos distintos. 

 


As seguintes variedades de uvas se destacam na região, Riesling, Chardonnay, Pinot Noir e Merlot. Além dessas, são encontradas também outras variedades como Gewürztraminer, Pinot Gris, Cabernet Sauvignon, Syrah e variedades de uvas alemãs que se adaptam ao clima frio:

  • Bacchus - uva branca desenvolvida na Alemanha em 1933, fruto do cruzamento da Riesling + Silvaner e Müller-Thurgau, em climas mais frios os vinhos tendem a ser mais frescos e com maior acidez;
  • Optima – uva branca, conhecida por ser usada em vinhos de corte devido ao seu baixo teor de acidez e alta doçura;
  • Ehrenfelser - uva branca, cruzamento de Riesling e Silvaner, criada em 1929 no Instituto de Criação de Uvas em Geisenheim, Alemanha; pode produzir vinhos de boa qualidade, especialmente em regiões onde as uvas mais tardias podem sofrer com geadas. Sua popularidade está crescendo no Canadá, especialmente no Vale do Okanagan, onde é utilizada para produzir vinhos do gelo (Ice Wine);
  • Kerner - uma variedade de uva branca aromática, criada em 1929 por August Herold através do cruzamento de Trollinger (variedade vermelha também conhecida como Schiava grossa) e Riesling; uva aromática, de maturação tardia e bastante resistente às baixas temperaturas, suportando temperaturas de até -10 °C, como ocorre no Canadá; conhecida por produzir vinhos brancos de alta qualidade e sabor único;

Mais recentemente, vem ocorrendo o plantio de variedades como Sangiovese, Tempranillo e Zinfandel, que normalmente não são associadas à indústria vitivinícola canadense, mas que se adaptam bem ao clima mais quente do Vale do Okanagan.  

O Vale do Okanagan, apesar de estar em latitudes muito mais altas que as encontradas na província de Chubut, produz uma variedade bem maior de uvas para vinho. Isso se deve ao fato de que esta região tem uma continentalidade muito maior que a da província Argentina, não sofre a influência de correntes marítimas frias e possui clima mais ameno e mais favorável a vitivinicultura.

Para o Vale do  Okanagan, as mudanças climáticas aumentaram a aptidão da região para o cultivo e amadurecimento de frutas, incluindo uvas para produção de vinho. Pesquisas mostram como a faixa climática mundial para a produção de vinho está mudando constantemente para o Norte, favorecendo regiões como o vale, com verdadeira vitivinicultura de clima frio, que agora pode produzir Chardonnays competitivos.

Fontes:

https://brasilescola.uol.com.br/geografia/canada.htm

https://quintadosvinhedos.com.br/uva-bacchus-caracteristicas-harmonizacao-e-regioes-produtoras/

https://vinhonosso.com/tag/kerner/

https://blog.sonoma.com.br/glossario/o-que-e-kerner-guia-completo/

https://www.wine-searcher.com/grape-147-ehrenfelser?srsltid=AfmBOorgByVNMPJBcOQUXbtKs7OIo4Y4Xj8yqB25eJxys52Z42FR6_q5

https://winebc.com/discover-bc-wine-country/okanagan-valley/

https://infotel.ca/newsitem/international-expert-says-global-warming-good-for-okanagan-wines/it26575

https://www.winetourism.com/pt/denominacao-de-origem/vale-de-okanagan/

https://www.instagram.com/p/DL9V6BrPqbu/?img_index=3&igsh=ZHF6eHl0bm1ubDJ5

https://www.wine-searcher.com/regions-okanagan+valley

https://pt.wikipedia.org/wiki/Clima_semiárido#Clima_semiárido_frio

 

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