quinta-feira, 9 de julho de 2026

OS SURPREENDENTES VINHOS DA GRÉCIA ELABORADOS COM UVAS AUTÓCTONES

Em meados do mês e junho (2026) participei de um jantar-degustação com vinhos gregos harmonizados com comidas típicas daquele país, na Wine&Food (https://www.winefoodemporium.com.br/). 

Foi uma experiência surpreendente pela variedade de vinhos degustados, todos elaborados a partir de uvas autóctones, bem como extremamente saborosa por causa dos deliciosos pratos típicos da culinária grega preparados pelo chef Igor Miller (@~Leo Miller), que harmonizaram maravilhosamente com os vinhos.

Um pouco de história – Grécia Antiga

A vitivinicultura na Grécia antiga teve início no final do período Neolítico (Período da Pedra Polida - 12 mil anos atrás), quando a agricultura apareceu no Oriente Próximo, região da Ásia próxima ao Mar Mediterrâneo, que incluía a Síria, Líbano, Israel, Palestina, Iraque e a Mesopotâmia (Iraque Moderno) e, mais tarde no resto do mundo, com o cultivo doméstico das uvas se tornando comum no início da Idade do Bronze (3.300 A.C).

Ela foi a grande responsável por difundir o cultivo de vinhas e os métodos de vinificação pelo Mediterrâneo. O vinho era um pilar central da economia, da religião e da vida social, comercializado em ânforas para colônias e outros povos.

As cidades-estados gregas estabeleceram colônias por todo o Mediterrâneo, e os colonizadores, levaram as videiras com eles e cultivaram as parreiras selvagens que encontraram. Como pode ser observado no mapa que segue, as zonas de assentamento grego na Grécia antiga e sua influência, dominavam grande parte das regiões costeiras do mar Mediterrâneo e do mar Báltico, abrangendo territórios da Europa, Ásia Menor e Norte da África.


Os Gregos antigos foram os pioneiros no desenvolvimento de métodos de vitivinicultura e de produção de vinhos, ajudando com o início deste processo em comunidades que hoje estão na França, na Itália e Portugal, bem como em outros povos, através do comércio e da colonização. 

Ao longo do tempo eles influenciaram de forma marcante a vinificação na Europa antiga na parte do Oeste da Europa; a península itálica, onde hoje é a Toscana, regiões da Turquia e por último as terras dominadas pelos Romanos, localizadas ao longo do mar Mediterrâneo e centradas na cidade de Roma.

Os vinhos antigos frequentemente continham adição de água do mar, resina de pinho e especiarias para conservação e sabor, sendo muito diferentes dos vinhos atuais.

A Grécia atual e as regiões vitivinícolas

O território da Grécia atual é bem menor que o da Grécia antiga. Hoje o país tem uma área de aproximadamente 132.000 km², pouco menor que o território do estado do Ceará, que é de 148.894,44 km².

Localizada no Sul e Sudeste da Europa na península Balcânica, próxima ao mar Mediterrâneo, a Grécia consiste em um país peninsular e montanhoso que se projeta para o mar no extremo sul dos Balcãs, terminando na península do Peloponeso, estando estrategicamente localizada na encruzilhada entre a Europa, a Ásia e a África. 


Faz fronteira terrestre a Noroeste com a Albânia, com a Macedônia do Norte e a Bulgária ao Norte e com a Turquia a Nordeste.  O país é cercado pelo Mar Jônico a Oeste, pelo Mar Egeu a Leste e pelo Mar Mediterrâneo ao Sul.

De acordo com a classificação climática de Köppen-Geiger (1900 e 1936) a mais utilizada na vitivinicultura, as regiões vitivinícolas da Grécia se estendem de Sul ao Norte do país, entre os paralelos de 36°N e 42°N. Nelas há o predomínio dos tipos climáticos Temperado/Csa - Clima mediterrâneo de verão quente na porção Oeste e Sul do país, e o Temperado/Csb - Clima mediterrâneo de verão fresco, ao Norte. O mapa apresenta a distribuição destes dois tipos climáticos no território grego. 

O relevo da Grécia é predominantemente montanhoso, cobrindo cerca de 80% do território, com uma altitude média de aproximadamente 498 metros acima do nível do mar. O país é marcado por uma forte cadeia de montanhas (Cordilheira do Pindo), intercalada por pequenas planícies, vales e milhares de ilhas. 


Este tipo de relevo favorece a vitivinicultura por garantir excelente drenagem do solo, proteção contra pragas e alta amplitude térmica. As altitudes maiores, em regiões vitivinícolas, diminuem as temperaturas e aumentam a incidência de raios UV, resultando em uvas com cascas mais grossas, maior acidez, frescor e taninos mais concentrados.

As principais regiões vitivinícolas da Grécia e dos vinhos degustados

Atualmente a Grécia cultiva mais de 300 castas nativas e possui cinco principais macrorregiões vitivinícolas que se estendem desde sua porção continental, ao Norte do país até as ilhas no Sul, abrigando vinte e nove Denominações de Origem Protegida (PDOs).

As principais regiões vitivinícolas são Santorini (Ilhas Egeias, no Sul) onde a uva estrela é a branca Assyrtiko que gera vinhos minerais, secos e de alta acidez; a Macedônia (Norte da Grécia) onde destaca-se a uva Xinomavro, com taninos marcantes e grande potencial de guarda; o Peloponeso (Sul da Grécia) uma das maiores e mais antigas regiões vitivinícolas, famosa pelos vinhos aromáticos da uva tinta Agiorgitiko na região de Nemeia, e, Atica no norte da península do Peloponeso 

Os vinhos degustados

Os vinhos degustados no jantar foram elaborados com as castas provenientes das seguintes regiões, por ordem de degustação: 1) Noroeste do Peloponeso-Mantineia (branco), 2) Nordeste do Peloponeso-Acaia (rose), 3) Noroeste do Peloponese-Nemea (tinto), 4) Norte da Macedônia-Naoussa (tinto) e 5) Norte do Peloponeso-Patras (colheita tardia), como pode ser observado no mapa. 


Os vinhos degustados


    




Um experiência enriquecedora além de muito saborosa!

Se beber, não dirija!

Bibliografia:

https://www.google.com/search?q=regioes+vitivinicolas+da+grecia+antiga&sca_esv=

https://www.dadosmundiais.com/europa/grecia/index.php

https://pt.wikipedia.org/wiki/Vinicultura_na_Grecia_antiga

https://www.vinhoscollection.com.br/mavrodaphne?

https://www.divvino.com.br/vinho-grego-cavino-naoyssa-xinomavro

https://www.winelands.com.br/produto/nemea-agiorgitiko-pdo/

segunda-feira, 18 de maio de 2026

A UVA PINOT NOIR – DE SEMENTES DA ERA MEDIEVAL COM 600 ANOS ATÉ OS VINHOS DE NOSSOS DIAS.

 No mês de abril ministrei uma aula/degustação sobre “O Vinho e a Geografia – O Sauvignon Blanc e o Pinot Noir pelo Mundo” na Wine & Food Emporium, onde foram degustados cinco vinhos, dois Sauvignon Blanc e três Pinot Noirs, todos eles oriundos de diferentes regiões vitivinícolas.

Quando estava preparando a aula me deparei com artigos bem interessantes, publicados recentemente, mencionando que vinhos Pinot Noir são alguns dos mais antigos do mundo. Cinquenta e quatro (54) sementes de uva de 600 anos, identificadas como geneticamente idênticas à Pinot Noir moderna, foram encontradas em uma fossa de latrina de um hospital medieval da cidade de Valenciennes, na região de Hauts-de-France, norte da França.


Na Idade Média as latrinas dos hospitais eram sanitários básicos com estruturas mais rústicas, sendo utilizadas também como poço de lixo para os restos da cozinha e detritos do dia a dia. Foi a acumulação desse material que  involuntariamente preservou essa matéria orgnânica que, de outro modo, já teria apodrecido há muito.

A descoberta, divulgada inicialmente pela CBS/AFP e um novo estudo publicado na Nature Communications (Março 2026), sugerem que o cultivo da Pinot Noir na França remonta pelo menos ao século XV (1401-1500). Isso confirma a continuidade genética da casta, indicando que a Pinot Noir é cultivada há séculos oferecendo uma visão rara sobre a longevidade de uma das variedades de uva mais populares do mundo.

O estudo analisou os genomas de 54 sementes de uva que abrangem desde a Idade do Bronze (por volta de 2300 a.C.) até a Idade Média. Os pesquisadores sequenciaram seu DNA e encontraram uma correspondência genética direta com a Pinot Noir atual. Os resultados confirmam que os viticultores já adotavam técnicas de propagação clonal — preservação e replantio de mudas de videiras específicas — há pelo menos 600 anos.

O que você precisa saber sobre a Pinot Noir - Vinsel Vinhos

https://vinsel.com.br/blogs/novidades/o-que-voce-precisa-saber-sobre-a-pinot-noir?

Essas  54 sementes, que conservaram-se  nesse ambiente úmido e pobre em oxigênio, foi identificado que  provêm de épocas distintas: da Idade do Bronze, por volta de 2.300 a.C., até  o século XV (1401  a 1500). Entre as sementes analisadas uma da fase tardia da Idade  Média (por volta de 1450) destacou-se de modo particular - geneticamente, corresponde quase exatamente ao Pinot Noir que hoje cresce em vinhas de todo o mundo.

“Não é possível afirmar se a fruta era consumida como uva de mesa ou se as pessoas faziam vinho com ela na época”, menciona o coautor do estudo, Laurent Bouby, do Instituto de Ciência Evolutiva de Montpellier. Porém, a descoberta estabelece uma clara conexão entre a indústria vinícola francesa moderna e suas raízes medievais. Como referência histórica, ao leitor,  Joana d’Arc poderia ter comido as mesmas uvas que nós, como mencionado por Ludovic Orlando, paleogeneticista da Universidade de Toulouse e coautor do estudo.

A propagação clonal, baseada no plantio por meio da técnica de estaquia (um pedaço do ramo é plantado para criar raízes e formar uma nova planta) em vez de sementes, permitiu copiar indefinidamente videiras selecionadas, mantendo o mesmo conjunto de características desejadas. Dessa forma, um mesmo “indivíduo” vegetal pôde ser multiplicado por séculos em diferentes regiões vitívinicolas. Essa técnica explica por que uma semente medieval pode ser virtualmente idêntica à Pinot Noir atual.

Com isso, para nossa sorte, a Pinot Noir chegou aos nossos dias com suas características preservadas, sendo uma das uvas mais reverenciadas no mundo do vinho, conhecida por produzir rótulos elegantes, delicados e cheios de complexidade.

Em Valenciennes o clima é Temperado Oceânico (Cfb) de acordo com a escala climática de Köppen-Geiger, o que indica temperaturas amenas, verão curto, agradável. O inverno é muito frio (latitude 50° 21’N), de ventos fortes e de céu parcialmente encoberto, as temperaturas podem chegar a -6°C. As   chuvas são bem distribuídas (810mm/ano) ao longo de todo o ano, e as quatro estações são bem definidas.  

Os vinhos apresentados na aula/degustação foram escolhidos juntamente com a Wine & Food Emporium, entre vários analisados. Os eleitos foram selecionados porque as suas regiões vitivinícolas apresentavam características climáticas diferentes, que podiam ser observadas em cada cálice, em cada gole de vinho.

Os exemplares de Pinot Noir degustados eram de três regiões vitivinícolas Austrália, Brasil e Moldávia. Porém, o da Moldávia, é de uma região vitivinícola com o mesmo tipo climático que de Valencienne, na França.

Dois eram de regiões vitivinícolas do Hemisfério Sul e um do Hemisfério Norte, localizadas em latitudes diferentes, em áreas com maior ou menor continentalidade/maritimidade e com maior ou menor altitude, conforme pode ser visto no mapa que segue. 


Os vinhos degustados foram:

·        Austrália - lindemans Bin 99 Pinot Noir, safra 2021, Hunter Valley;

·       Brasil - Aracuri Pinot Noir, safra 2022, Vinícola Aracuri, Muitos Capões, RS;

·       Moldávia - Daos Pinot Noir Bostavan, Safra 2022, área vinícola Etulia, região Valul Lui Traian.

A ordem da degustação foi primeiro o vinho de maior latitude no Hemisfério Sul – Australia- depois o vinho do Rio Grande do Sul e, por último o exemplar do Hemisfério Norte-Moldávia - o de maior continentalidade e, também, maior latitude.


1° Vinho - O australiano lindemans Bin 99 Pinot Noir, safra 2021, a vinícola está localizada no Hunter Valley (32°46′ S - 151°17′ L), no Sudeste da Austrália, na província de Nova Gales do Sul.  Esta é uma das principais regiões vitivinícolas do país.  Está a 160 km ao norte de Sydney e das três regiões analisadas na degustação, é a que apresenta a maior maritimidade.  A Australian Geographical Indication (AGI-1966) do vale tem 19.578 km² e um total de 2.605 hectares de vinhedos.



2° Vinho – O brasileiro Aracuri Pinot Noir, safra 2022, da Vinícola Aracuri, localizada no município de Muitos Capões (28° 18′ S - 51° 10′ O), na região dos Campos de Cima da Serra, no extremo Nordeste do estado, na borda do Planalto Médio.  É a região mais fria do Rio Grande do Sul é nela que está localizado também o município de São José dos Ausentes, que juntamente com o município de Urupema-SC apresentam as menores temperaturas no inverno. 



3° Vinho – O vinho da Moldávia era o Daos Pinot Noir Bostavan, safra 2022, área vinícola Etulia, região Valul Lui Traian (45° 32’ N – 28° 15’ L). Os vinhedos da Moldávia formam uma das regiões vinícolas mais antigas e densas do Leste Europeu. O nome DAOS é uma homenagem aos antigos Dácios ("Daoi"), povo indo-europeu que habitava a região da Moldávia e Romênia (Sec.I a.C. e o séc.II d.C.). A Etulia está Inserida dentro da Indicação Geográfica Protegida (IGP) Valul lui Traian. 



Foi realmente uma experiência muito interessante. Apesar de todos os vinhos serem elaborados com a mesma uva, mas, por serem oriundos de regiões vitivinícolas com localização geográfica bem diferentes, as características específicas trazidas por cada uma delas estavam muito presentes neles.

Se beber, não dirija!

Referencias bibliográficas:

https://www.thedrinksbusiness.com/2026/03/medieval-grape-seed-reveals-600-year-lineage-of-pinot-noir/

 https://paroquiadoamial.pt/8-356197713-sanita-medieval-revela-vestigio-de-pinot-noir-com-600-anos/

 https://oantagonista.com.br/mundo/semente-de-uva-encontrada-em-vaso-sanitario-de-hospital-medieval-revela-que-a-variedade-pinot-noir-ja-existia-ha-600-anos/

 https://pt.euronews.com/cultura/2026/03/25/joana-darc-pode-ter-provado-a-mesma-uva-que-nos-pinot-noir-ja-existia-na-idade-media

 https://olhardigital.com.br/2026/03/27/curiosidades/uma-semente-de-uva-encontrada-na-latrina-de-um-hospital-medieval-revela-que-a-variedade-pinot-noir-ja-existia-ha-600-anos/

 https://pt.wikipedia.org/wiki/Classifica_climática_de_Koppen-Geiger



OS SURPREENDENTES VINHOS DA GRÉCIA ELABORADOS COM UVAS AUTÓCTONES

Em meados do mês e junho (2026) participei de um jantar-degustação com vinhos gregos harmonizados com comidas típicas daquele país, na Wine...