sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O VINHO DO PAÍS DO SOL NASCENTE – JAPÃO

O Japão é conhecido como “o país do Sol nascente”. Uma das origens atribuídas a essa expressão era a forma como os chineses, que tinham uma enorme influência na cultura, política, filosofia, religião, vestimentas e escrita asiática, se referiam ao país 2 mil anos antes do Japão ser a potência atual.  

Se olharmos a localização do China em relação ao Japão essa expressão faz muito sentido, já que ele está a Leste da China, onde nasce o Sol (Oriente).

Apesar de o país ser bastante conhecido por todos os brasileiros, devido as levas de imigrantes japoneses que chegaram ao nosso país a partir de 1908 e, mantermos intensas relações comerciais e turísticas, tem-se pouca informação sobre a sua produção de vinhos.

Dois fatores contribuem para isso, o primeiro é a distância entre o produtor de vinho (Japão) e o consumidor (Brasil). A distância em linha reta (distância geodésica) entre Brasília-Brasil e Tóquio-Japão, é de aproximadamente 17.664 km, o que implica em um longo voo de 22 horas, 4 min. Isso dificulta qualquer tipo de relação comercial, uma vez que demanda uma logística complexa que não afete a qualidade de um produto delicado como o vinho.

O segundo fator é que a produção de vinho no Japão, ao contrário da Europa, começou há cerca de 140 anos na província de Yamanashi, na década de 1870, mais ou menos no mesmo período em que os imigrantes italianos chegaram ao Brasil (fevereiro de 1874).

Foi nessa época que dois jovens da província de Yamanashi voltaram da França  onde estudaram técnicas de produção de vinho, decidiram tentar a sorte e fundaram a primeira vinícola japonesa. Assim nasceu a Château Mercian, a primeira vinícola privada do Japão que ainda  está em operação e planeja dobrar sua produção. 



Apesar de os dois países iniciarem a vitivinicultura no  mesmo período, a diferença entre eles é que os imigrantes italianos que aqui chegaram a 152 anos, trouxeram junto um vasto conhecimento sobre a produção de vinhos na Itália que começou há mais de 4.000 anos, com raízes antigas que remontam aos etruscos (por volta de 1.000 a.C.), ao contrário do Japão.

A história do consumo de vinho no Japão começou com a aproximação da sua ocidentalização, mas não se popularizou, pois o vinho não se adequava à dieta japonesa da época, centrada no arroz e a bebida que dominava era o saquê. Porém, em 1964 o Japão sediou as Olimpiadas de Tokyo e, com a chegada de estrangeiros de vários pontos do mundo, começou a mudança para um maior consumo de vinho à medida que a alimentação se tornava mais ocidentalizada. O consumo anual por adulto ainda é baixo, em torno de 3,1 litros ou 4,1 garrafas/por ano. No  Brasil em 2025 o consumo per capita indicou uma média entre 2,2 a 3 litros/por ano.

As principais variedades e províncias produtoras de vinho no Japão

O Japão é um país insular (3.900 ilhas) com aproximadamente 378.000 km², onde o  cultivo da uva é realizado em diversos locais incluindo vales, montanhas e colinas. Predominantemente montanhoso e vulcânico (conveniente para a instalação de áreas de vitivinicultura) tem cerca de 70% a 80% do território coberto por montanhas e florestas, o que concentra a população nas áreas costeiras.

A partir da criação da primeira vinícola comercial, começaram a surgir  outras  por todo o país com as principais áreas de produção sendo as províncias de Yamanashi (31%), Nagano (23%), Hokkaido (17%) e Yamagata (10%). Em 2024 foram  registradas mais de 500 pequenas   vinícolas espalhadas por 46 das 47 províncias do Japão, o gráfico apresenta a produção de vinhos em 2025,  nas principais províncias vitivinícolas.



Desde 2013, o Japão vem adotando a designação de Indicação Geográfica (GI) para vinhos para destacar seu "terroir" único, similar ao sistema AOC francês. Este é um sistema estabelecido pela Agência Nacional de Impostos (NTA) para proteger e promover vinhos produzidos com uvas locais, garantindo a qualidade e origem geográfica. Cinco províncias receberam reconhecimento oficial como Indicações Geográficas (IGs): Yamanashi, Nagano, Hokkaido, Yamagata e Osaka.

Duas variedades nativas são largamente cultivadas no Japão, a branca Koshu e a tinta Muscat Bailey A. A introdução de variedades Vitis Viniferas europeias ocorreu na segunda metade da década de 1970, com as variedades Merlot e Chardonnay e a  Cabernet Sauvignon. Paralelamente um número crescente de produtores tenta utilizar a Syrah e a Pinot Noir em áreas de cultivo menores, assim como as variedades brancas a Kerner (originária da Alemanha) e a Sauvignon Blanc.

As ilhas de Honshu e Hokkaido – Regiões Vitivinícolas

Ilha de Honshu

Na ilha de Honshu, a maior ilha do arquipélago japonês,  estão localizadas cinco províncias vitivinícolas, Yamanashi, Nagano, Yamagata, Okayama e Osaka.


Província de Yamanashi

É conhecida como o "berço" do vinho japonês, ela abriga o maior número de vinícolas. Localizada a oeste de Tóquio e aninhada perto da base do icônico Monte Fuji, Yamanashi é o epicentro da vitivinicultura japonesa (8,586 Ton./2025).

A região é uma bacia interior com montanhas que oferecem abrigo contra a chuva. Tem um clima temperado, sol abundante e solos vulcânicos ricos, que juntos criam um ambiente ideal para a vitivinicultura.

 É famosa pela uva Koshu, variedade vinífera branca/rosada, com casca grossa para resistir à umidade. Nativa do Japão é cultivada há mais de mil anos, principalmente nessa província. Produz vinhos brancos elegantes, secos, com alta acidez, aromas cítricos (toronja, limão) com notas minerais que harmonizam com sushi e a culinária japonesa.



Nessa província é cultivada também a variedade tinta Muscat Bailey A (MBA), uma casta híbrida de uva tinta japonesa desenvolvida na década de 1920 por  Kawakami Zenbei. É um cruzamento entre Bailey (variedade americana Vitis Labrusca) e Muscat de Hamburgo (Vitis Vinifera), desenvolvida especificamente para o clima úmido e chuvoso do Japão. É um dos pilares da produção de vinho tinto japonês e é cultivada também no Brasil e na Coreia do Sul. 

Caracteriza-se por uma acidez vibrante, corpo leve a médio, taninos suaves e aromas distintos de frutas como morango e framboesa, frequentemente com um leve toque floral ou de avelã. Nessa província são também cultivadas variedades internacionais como a Chardonnay e Merlot.

Yamanashi foi a primeira província vitivinícola a receber Indicação Geográfica (GI Yamanashi) estabelecida em 2013. Os vinhos devem ser feitos exclusivamente com uvas locais, principalmente Koshu (branco) e Muscat Bailey A (tinto), com teor alcoólico  de 8,5%.

Província de Nagano  

Situada em uma área montanhosa (Alpes Japoneses), é uma das regiões vitivinícolas mais promissora, sendo a segunda maior produtora de uvas viníferas do país (6,704 Ton./2025).  É conhecida por seus vinhedos de altitude (em torno de 500 m).  

Importante região vitivinícola de clima frio está situada na região central  do Japão, cercada por montanhas de 3.000m. Nagano possui vales com alta altitude, clima frio, invernos longos e nevados, verão fresco, grande amplitude térmica e longas horas de sol ideais para uvas europeias, fatores esses que contribuem para o desenvolvimento de sabores complexos nas uvas.

Com mais de 60 vinícolas, focadas em Pinot Noir e Chardonnay e variedades brancas de alta qualidade, como a Kerner  (Trollinger + Riesling), a região é conhecida por produzir vinhos elegantes, com alta acidez e caráter mineral. A variedade híbrida de uva Shinano Riesling (Riesling+Chardonnay)  cultivada principalmente em Nagano, foi especificamente desenvolvida pela Manns Wine Co. para o clima único e frequentemente úmido do Japão. Produz  vinhos aromáticos, frescos com alta acidez, sabores de lima, maçã verde e pêssego branco, ideal para vinhos leves e refrescantes.

Concentrada em Yoichi e Sorachi, a indústria vitivinícola é impulsionada por pequenos produtores artesanais que se adaptam às mudanças climáticas e aos invernos rigorosos. Em  2021 foi estabelecida a Indicação Geográfica GI Nagano (selos azul ou vermelho) para vinhos feitos com 100% de uvas da região e os de qualidade superior podem receber o selo dourado "GI Nagano Premium".

 Província de Yamagata

Situada no Norte da ilha principal de Honshu, é uma renomada região vitivinícola de clima frio, propício ao cultivo de frutas, destacando-se na produção de vinhos de alta qualidade. É a quarta maior província produtora de vinhos no Japão (2,428 Ton./2025).

Está voltada para o mar do Japão a Oeste e é cercada por montanhas em três lados. As uvas são cultivadas em encostas com boa drenagem e a  região possui solos vulcânicos e sedimentares, ideais para a produção de uvas de qualidade, beneficiando-se de noites frescas e dias quentes. O clima da região, com grande amplitude térmica, favorece as uvas aromáticas. 


Com cerca de 19 vinícolas focadas em vinhos aromáticos de alta qualidade e acidez refrescante, é conhecida por seus vinhos brancos Delaware (variedade americana), Niagara,  Chardonnay e Koshu, além dos vinhos tintos produzidos com as uvas Merlot e Muscat Bailey A. Em 2021, o vinho de Yamagata recebeu a certificação de Indicação Geográfica (GI). 

Na ilha de Honshu são encontradas também mais duas outras regiões vitivinícolas de menor expressão, mas importantes na vitivinicultura japonesa.

Província de Osaka

É pouco conhecido que a província de Osaka seja produtora de vinhos, mas na verdade  é uma região com mais de 120 anos de história vitivinícola, graças à sua abundante luz solar. Poucos sabem que nessa província há uma região produtora que fica próxima das áreas de consumo — do centro da cidade, são apenas 40 minutos.

É o lar da primeira vinícola urbana do Japão (Fujimaru Winery) e da primeira vinícola aeroportuária do Japão. Sendo uma das poucas com essa característica, ter vinhedos tão perto do centro da cidade é um dos atrativos do vinho de Osaka. Em 2021 Osaka recebeu a Indicação Geográfica (GI Osaka).

Em vinhedos próprios  a vinícola Fujimaru cultiva principalmente uvas Delaware,  uma variedade tinta adaptada ao cultivo no Japão e apreciada pelos habitantes de Osaka há muito tempo. Aproximadamente um terço do vinho produzido em Osaka é feito com uvas dessa variedade.



Os vinhos de Delaware caracterizam-se pelo seu corpo leve e acidez refrescante. Harmonizam facilmente com refeições do dia a dia, como massas com molho de tomate e pizzas, também combinam maravilhosamente com a culinária japonesa, incluindo tempurá de legumes da estação e o takoyaki, um bolinho com massa à base de trigo, recheado com pedaços de polvo, cebolinha e gengibre em conserva,  um dos petiscos de rua mais populares e icônicos do Japão, originário da cidade de Osaka.

Província de Okayama

É uma região vitivinícola emergente reconhecida pela produção de vinhos de alta qualidade, particularmente na área montanhosa de Niimi. É  a menor região  produtora de vinho,  mas responsável por 90% da produção japonesa de Moscato de Alexandria. Apresenta solo calcário e significativas diferenças de temperatura entre o dia e a noite, onde são cultivadas as variedades Chardonnay, Sauvignon Blanc, Riesling e as  tintas Muscat Bailey A, Cabernet Franc, Merlot, Pinot Noir.

Ilha de Hokkaido

A ilha de Hokkaido é a província vitivinícola localizada mais ao Norte do país (41° a 45° N), focada em vinhos de clima frio (estilo europeu) devido aos verões amenos e invernos rigorosos.   É uma das principais regiões vitivinícola do Japão (3,708 Ton./202 5), sendo vista como o futuro da alta qualidade no país devido às mudanças climáticas que favorecem regiões mais frias.



Graças ao aquecimento global, agora é possível plantar variedades de viníferas em Hokkaido, e a região tornou-se o motor do movimento do vinho natural no Japão. Com invernos rigorosos e clima mais frio, com mais de um metro de neve no inverno, grande amplitude térmica diária, combinada com os solos férteis essa região tornou-se a "nova fronteira" vitivinícola japonesa, produzindo vinhos mais estruturados e com boa acidez.

A região produz variedades de uvas com foco nas variedades europeias de clima mais frio, como as brancas Chardonnay, Kerner, Muller Thurgau e as tintas Merlot, Pinot Noir  e a aromática Zweigelt (híbrida austríaca).

Hokkaido foi designada Indicação Geográfica (GI Hokkaido) pela Agência Nacional de Impostos em junho de 2018, com isso os vinhos tem que atender certos padrões , como "utilizar 100% de uvas colhidas em Hokkaido", e mencionar a indicação "Hokkaido" em seus rótulos.

Videiras enterradas na neve:

Uma curiosidade, essa região vitivinícola se destaca por um manejo interessante de suas videiras. No inverno os vinhedos de Hokkaido são cobertos por uma espessa camada de neve (frequentemente mais de 6 metros) durante os longos e frios invernos. Essa pesada camada de neve atua como um isolante natural, protegendo as vinhas de temperaturas abaixo de zero (até -20 °C) como um iglu, impedindo que congelem até a primavera.



A técnica de "enterrar na neve" (snow burial) ou inclinar as videiras rente ao solo é utilizada para protegê-las do frio intenso, uma vez que as temperaturas extremas poderiam matar as videiras, especialmente as variedades europeias como a Pinot Noir e Merlot. Assim, os produtores cortam as videiras baixas ou dobram os ramos permitindo que a neve cubra a planta, mantendo a temperatura ao redor da videira por volta de -7°C, mesmo quando o ar atmosférico está muito mais frio, protegendo-a contra danos do congelamento.

Esse artigo nos mostra que, ao contrário dos vinhos de outras regiões vitivinícolas ao redor do mundo, a característica marcante  do vinho japonês é a "delicadeza". A culinária japonesa e o vinho japonês demonstram uma afinidade surpreendente nesse sentido, ambos se caracterizam pela sua delicadeza, diferente dos molhos vermelhos da comida italiana, do churrasco gaúcho e da comida calórica ou condimentada presente em muitos países. Ao saborear sushi, tempurá ou sukiyaki, o vinho japonês é a harmonização ideal.

Se beber, não dirija!

Bibliografia:

https://www.winetraveler.com/japan/japanese-wine/

https://japanhousesp.com.br/story/o-vinho-japones-e-as-principais-provincias-vinicolas-niponicas/

www.winefogg.com/japanese-wine

https://cluboenologique.com/story/introduction-japanese-wine/

https://gubi-gubi.nl/pages/fujimaru-winery

https://winesofhokkaido.com/en/

https://www.wineanorak.com/wineblog/uncategorized/tasting-some-japanese-wines-from-the-hokkaido-region


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