sábado, 2 de maio de 2026

O VINHO E AS MISSÕES JESUÍTICAS NO RIO GRANDE DO SUL

Neste ano, 2026, o Rio Grande do Sul celebra os 400 anos das Missões Jesuíticas Guaranis (1626–2026). Porém, antes de mencionar a relação do vinho com as Missões Jesuíticas no estado, vamos recordar um pouco da história dos Sete Povos das Missões.

A primeira fase das reduções jesuíticas ocorreu no período de 1626 a 1638-1639, com a fundação da redução de São Nicolau pelo padre Roque Gonzales de Santa Cruz, em 3 de maio de 1626. Este período inicial, focado na região do Tape (atual região Noroeste/Missões-RS) foi marcado pela criação de 18 reduções. Os constantes conflitos com bandeirantes paulistas e disputas de fronteira entre Portugal e Espanha destruíram essa primeira fase, levando a uma migração temporária dos jesuítas para o lado argentino do rio Uruguai.


Antes de passarmos a segunda fase das reduções jesuíticas, vale lembrar um pouco da história do Rio Grande do Sul. Desde o descobrimento do Brasil e, no período das missões jesuíticas, praticamente toda a região Sul do Brasil não pertencia a coroa portuguesa e sim, as terras conquistadas pela Espanha na América do Sul, como resultado do tratado de Tordesilhas (1494). Firmado entre Portugal e Espanha este dividiu as terras "descobertas e por descobrir" fora da Europa por um meridiano a 370 léguas a oeste de Cabo Verde (África). Terras a Leste seriam de Portugal e a Oeste, da Espanha, garantindo a Portugal a posse de parte do Brasil, mas não a parte onde se estabeleceram as Missões Jesuíticas (espanholas), localizadas no Sul do país (Vejam o mapa que segue).

Apenas em 1777, com o Tratado de Santo Ildefonso todo o território do Rio Grande do Sul foi incorporado ao Brasil de forma definitiva.

 


A segunda fase das reduções jesuíticas (como eram chamadas as aldeias indígenas cristãs) teve início a partir de 1682 (século XVII) quando os padres jesuítas da Companhia de Jesus começaram a retornar para as suas antigas terras, retomando as atividades jesuíticas no Noroeste do estado, originando sete reduções.  Os Sete Povos das Missões também são conhecidos como Missões Orientais, por estarem localizados a Leste do rio Uruguai.

Neste mesmo ano foi fundado o primeiro dos Sete Povos, São Francisco de Borja (atual município de São Borja), que contava com quase 3.000 habitantes.  Posteriormente foram estabelecidas mais seis reduções no território gaúcho:

  • São Nicolau (1626-1638) foi a primeira redução no estado e posteriormente refundada em 1687, na fase dos Sete Povos das Missões. É considerada o Berço das Missões e onde foi encontrada uma adega preservada;
  • São Luiz Gonzaga (1687), localizada no município de mesmo nome;
  • São Miguel Arcanjo (1687), localizada no município de São Miguel das Missões, onde se encontra o Sitio Arqueológico das Missões, conhecido como Ruinas de São Miguel. É o sítio arqueológico mais conhecido e vestígios mais notáveis das reduções jesuíticas guarani, tendo recebido o título de Patrimônio Mundial da UNESCO em 1983. O local abriga a fachada da igreja, ruínas do colégio, cemitério e o Museu das Missões, onde estão expostas imagens de santos esculpidas em madeira pelos jesuítas; 


  • São Lourenço Mártir (1691), localizada entre os municípios de São Luiz Gonzaga e São Miguel. Exibe remanescentes da igreja, adegas e escola;
  • São João Batista (1697), situada no município de Entre-Ijuis, onde ocorreu a primeira fundição de ferro e aço da América Latina;
  • Santo Ângelo Custódio (1707) localizada no município de Santo Ângelo, cuja atual Catedral Angelopolitana, construída no local da antiga igreja missioneira, tem traços arquitetônicos semelhantes à da igreja das Ruinas de São Miguel.

A denominação Sete Povos das Missões, foi dada ao conjunto de sete aldeamentos indígenas fundada por jesuítas espanhóis na “Região do Rio Grande do Sul e de São Pedro”, atual estado do Rio Grande do Sul.

Os padres da Companhia de Jesus (Jesuítas) buscavam converter os índios guaranis ao catolicismo, organizando-os em vilas chamadas "reduções" para protegê-los da escravidão. Estas funcionavam como centros urbanos com igreja, escola, oficinas, horta e cemitério. Os guaranis aprenderam técnicas agrícolas, pecuária e artes.

Mas,  tenho certeza de que os leitores devem estar se perguntando qual a relação dessas Missões Jesuíticas e o vinho. Simples, os jesuítas é uma ordem religiosa católica e no ritual da missa católica o vinho é utilizado na Liturgia Eucarística, especificamente no momento da Consagração, representando o sangue de Cristo. O vinho também era para consumo nas refeições. Assim, em todas as reduções jesuíticas havia a presença do vinho e, nas ruinas da redução de São Nicolau, no município de mesmo nome é possível visitar a sua adega, que está preservada.

Essa adega é construída em pedra de arenito, muito comum na região, sendo única entre todos os povos da margem oriental do Rio Uruguai, ela impressiona pela sua beleza e preservação. Impressiona também pelo fato de que ao descer as escadas originais, o visitante vai sentir a temperatura cair à medida que se aproxima dos 8 metros de profundidade, é um ambiente perfeito para armazenar vinhos, repleto de história e mistério.

Mas além de toda esta riqueza histórica a região das Missões abriga também a mais recente região vitivinícola do estado do Rio Grande do Sul. O Terroir NoMi (abreviação de Noroeste/Missões). É uma promissora e nova região vitivinícola localizada no Noroeste do Rio Grande do Sul e na região das Missões, que teve sua marca adotada e o lançamento do projeto realizado por produtores locais em março de 2024. 

A associação conta com a participação de oito vinícolas da região, sendo que algumas delas eu tive o prazer de visitar e degustar excelentes vinhos:

  • Malgarim Vinhos, de São Borja;
  • Don Carlos, de Santo Ângelo;
  • Novos Caminhos Wine, de Ijuí;
  • Weber, de Crissiumal;
  • Fin, de Entre-Ijuís;
  • Azienda Agrícola Bortolini, de Ijuí;
  • Tertúlia, de Três de Maio; e,
  • Família WF, também de Ijuí.

O padre jesuíta Roque González de Santa Cruz, em 1619, cultivou as primeiras vinhas na região, cujas castas seriam as espanholas Criolla e Criolla Chica e, também as chamadas de País e Mission. Hoje as vinícolas da região além de cultivarem as tradicionais cepas internacionais como a Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay, Viognier e Pinot Bianco, investem também em variedades ainda pouco conhecidas no país, mas que atraem a atenção do consumidor. Entre elas estão a grega Xinomavro, a georgiana Saperavi, a montenegrina e sérvia Vranac, a tcheca Palava (todas do Leste Europeu), assim como as italianas Casavecchia e Nero D’Avola.

As vinícolas do Terroir NoMi apresentam em seus vinhos rótulos que remetem a tradição missioneira, sendo alguns deles verdadeiras obras de arte. A vinícola Dom Carlos, em Santo Ângelo, há quatro anos desenvolveu um projeto de rótulos para seus vinhos de conteúdo missioneiro, com o arquiteto Antônio Warpechowski, criador do conteúdo visual das garrafas.  


Na mesma época a vinícola Malgarim também desenvolveu um projeto de rótulos com referências missioneiras, como pode ser observado na figura.  Atualmente, os vinhos tintos têm rótulos que remetem a origem missioneira da região como o Tempranillo Arapysandú, Tempranillo Inácio Paicá, ou o Cabernet Sauvignon com a figura da vinícola em estilo missioneiro e o Merlot com a cruz missioneira em seu rótulo. O próprio estilo do prédio da vinícola remete a arquitetura da igreja missioneira.  

 


O grupo NoMi trabalha para obter o reconhecimento de Indicação de Procedência (IP) junto ao INPI, buscando valorizar castas menos comuns e impulsionar o enoturismo na região missioneira. Vale a pena visitar as vinícolas e degustar essas castas novas que estão sendo introduzidas por elas.

 Se beber, não dirija!

Referencias:

 https://saonicolau.rs.gov.br/site/conteudos/6565-padega-jesuiacuteticap

https://brasildevinhos.com.br/terroir-nomi-nasce-uma-nova-e-promissora-regiao-vitivinicola-gaucha/

https://www.malgarimvinhos.com.br/categoria-produto/tempranillo/

www.brasildevinhos.com.br

https://www.portaldasmissoes.com.br/rolador/noticias/sete-povos-das-missoes-uma-das-mais-notaveis-utopias-da-historia-1028

https://www.penaestrada.blog.br/ruinas-de-sao-miguel-das-missoes/

http://penta2.ufrgs.br/rgs/historia/setePovosMissoes.html

https://www.instagram.com/vinicoladoncarlos/

 

 




 








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