No mês de abril ministrei uma aula/degustação sobre “O Vinho e a Geografia – O Sauvignon Blanc e o Pinot Noir pelo Mundo” na Wine & Food Emporium, onde foram degustados cinco vinhos, dois Sauvignon Blanc e três Pinot Noirs, todos eles oriundos de diferentes regiões vitivinícolas.
Quando estava preparando a aula
me deparei com artigos bem interessantes, publicados recentemente, mencionando que
vinhos Pinot Noir são alguns dos mais antigos do mundo. Cinquenta e quatro (54)
sementes de uva de 600 anos, identificadas
como geneticamente idênticas à Pinot Noir moderna, foram encontradas em uma
fossa de latrina de um hospital medieval da cidade
de Valenciennes, na região de Hauts-de-France, norte da França.
Na Idade Média as latrinas dos hospitais eram sanitários básicos com
estruturas mais rústicas, sendo utilizadas
também como poço de lixo para os restos da cozinha e detritos do dia a dia. Foi
a acumulação desse material que
involuntariamente preservou essa matéria orgnânica que, de outro modo,
já teria apodrecido há muito.
A descoberta, divulgada inicialmente pela CBS/AFP e um novo estudo
publicado na Nature Communications (Março 2026), sugerem que o cultivo da Pinot Noir na França
remonta pelo menos ao século XV (1401-1500). Isso confirma a
continuidade genética da casta, indicando que a Pinot Noir é cultivada há
séculos oferecendo uma visão rara
sobre a longevidade de uma das variedades de uva mais populares do mundo.
O estudo analisou os genomas de 54 sementes de uva que abrangem desde a
Idade do Bronze (por volta de 2300 a.C.) até a Idade Média. Os pesquisadores
sequenciaram seu DNA e encontraram uma correspondência genética direta com a Pinot Noir atual. Os resultados
confirmam que os viticultores já adotavam técnicas de propagação clonal —
preservação e replantio de mudas de videiras específicas — há pelo menos 600
anos.
https://vinsel.com.br/blogs/novidades/o-que-voce-precisa-saber-sobre-a-pinot-noir?
Essas 54 sementes, que conservaram-se nesse ambiente úmido e pobre em oxigênio, foi
identificado que provêm de épocas
distintas: da Idade do Bronze, por volta de 2.300 a.C., até o século XV (1401 a 1500). Entre as sementes analisadas uma da
fase tardia da Idade Média (por volta de
1450) destacou-se de modo particular - geneticamente, corresponde quase
exatamente ao Pinot Noir que hoje cresce em vinhas de todo o mundo.
“Não é possível afirmar se a fruta
era consumida como uva de mesa ou se as pessoas faziam vinho com ela na época”,
menciona o coautor do estudo, Laurent Bouby, do Instituto de Ciência Evolutiva
de Montpellier. Porém, a descoberta estabelece uma clara conexão entre a
indústria vinícola francesa moderna e suas raízes medievais. Como referência
histórica, ao leitor, Joana d’Arc
poderia ter comido as mesmas uvas que nós, como mencionado por Ludovic Orlando,
paleogeneticista da Universidade de Toulouse e coautor do estudo.
A propagação clonal, baseada no
plantio por meio da técnica de estaquia (um pedaço do ramo é plantado para
criar raízes e formar uma nova planta) em vez de sementes, permitiu copiar
indefinidamente videiras selecionadas, mantendo o mesmo conjunto de
características desejadas. Dessa forma, um mesmo “indivíduo” vegetal pôde ser
multiplicado por séculos em diferentes regiões vitívinicolas. Essa técnica
explica por que uma semente medieval pode ser virtualmente idêntica à Pinot Noir
atual.
Com isso, para nossa sorte, a Pinot
Noir chegou aos nossos dias com suas características preservadas, sendo uma das
uvas mais reverenciadas no mundo do vinho, conhecida por produzir rótulos
elegantes, delicados e cheios de complexidade.
Em Valenciennes o clima é Temperado
Oceânico (Cfb) de acordo com a escala climática de Köppen-Geiger, o que indica
temperaturas amenas, verão curto, agradável. O inverno é muito frio (latitude
50° 21’N), de ventos fortes e de céu parcialmente encoberto, as temperaturas
podem chegar a -6°C. As chuvas são bem distribuídas (810mm/ano) ao
longo de todo o ano, e as quatro estações são bem definidas.
Os vinhos apresentados na
aula/degustação foram escolhidos juntamente com a Wine & Food Emporium,
entre vários analisados. Os eleitos foram selecionados porque as suas regiões vitivinícolas
apresentavam características climáticas diferentes, que podiam ser observadas
em cada cálice, em cada gole de vinho.
Os exemplares de Pinot Noir degustados
eram de três regiões vitivinícolas Austrália, Brasil e Moldávia. Porém, o da Moldávia,
é de uma região vitivinícola com o mesmo tipo climático que de Valencienne, na França.
Dois eram de regiões vitivinícolas
do Hemisfério Sul e um do Hemisfério Norte, localizadas em latitudes diferentes,
em áreas com maior ou menor continentalidade/maritimidade e com maior ou menor
altitude, conforme pode ser visto no mapa que segue.
Os vinhos degustados foram:
· Austrália - lindemans Bin 99 Pinot Noir, safra 2021, Hunter Valley;
· Brasil - Aracuri Pinot Noir, safra 2022, Vinícola Aracuri, Muitos Capões, RS;
· Moldávia - Daos Pinot Noir Bostavan, Safra 2022, área vinícola Etulia, região Valul Lui Traian.
A ordem da degustação foi primeiro
o vinho de maior latitude no Hemisfério Sul – Australia- depois o vinho do Rio
Grande do Sul e, por último o exemplar do Hemisfério Norte-Moldávia - o de
maior continentalidade e, também, maior latitude.
1° Vinho - O australiano lindemans Bin 99 Pinot
Noir, safra 2021, a vinícola está localizada no Hunter Valley (32°46′ S
- 151°17′ L), no Sudeste da Austrália, na província de Nova Gales do
Sul. Esta é uma das principais regiões
vitivinícolas do país. Está a 160 km ao
norte de Sydney e das três regiões analisadas na degustação, é a que apresenta
a maior maritimidade. A Australian
Geographical Indication (AGI-1966) do vale tem 19.578 km² e um total de
2.605 hectares de vinhedos.
2° Vinho – O brasileiro Aracuri
Pinot Noir, safra 2022, da Vinícola Aracuri, localizada no município
de Muitos Capões (28° 18′ S - 51° 10′ O), na região dos Campos de Cima
da Serra, no extremo Nordeste do estado, na borda do Planalto Médio. É a região mais fria do Rio Grande do Sul é
nela que está localizado também o município de São José dos Ausentes, que
juntamente com o município de Urupema-SC apresentam as menores temperaturas no
inverno.
3° Vinho – O vinho da Moldávia
era o Daos Pinot Noir Bostavan, safra 2022, área vinícola Etulia, região
Valul Lui Traian (45° 32’ N – 28° 15’ L). Os vinhedos da Moldávia formam
uma das regiões vinícolas mais antigas e densas do Leste Europeu. O nome DAOS é
uma homenagem aos antigos Dácios ("Daoi"), povo indo-europeu que
habitava a região da Moldávia e Romênia (Sec.I a.C. e o séc.II d.C.). A Etulia
está Inserida dentro da Indicação Geográfica Protegida (IGP) Valul lui
Traian.
Se beber, não dirija!
Referencias bibliográficas:
https://www.thedrinksbusiness.com/2026/03/medieval-grape-seed-reveals-600-year-lineage-of-pinot-noir/
https://oantagonista.com.br/mundo/semente-de-uva-encontrada-em-vaso-sanitario-de-hospital-medieval-revela-que-a-variedade-pinot-noir-ja-existia-ha-600-anos/
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