sexta-feira, 22 de novembro de 2024

GEOGRAFIA DO VINHO - IRLANDA, UM PAÍS TRADICIONALMENTE CONHECIDO POR SUA CERVEJA E WISKEY, AGORA TAMBÉM PRODUZ VINHOS.

Desde que iniciei a publicação deste blog já abordei vários artigos que tratam da Geografia do Vinho em diferentes cantos do mundo, entre eles as regiões vitivinícolas brasileiras, o vale do Mosel na Alemanha, os vinhos da Croácia, da África do Sul, da Eslovênia, da Espanha, da Áustria, do Uruguai, das Ilhas Canárias. Em todos eles, eu procurei mostrar como as características de uma região influenciam de forma marcante o tipo e o perfil dos vinhos nelas produzidos.

Nestes artigos, cada vez mais eu procuro abordar regiões vitivinícolas que não estejam inseridas na tradicional rota do vinho como Europa, Américas e África do Sul. Com a melhoria das técnicas de vitivinicultura e o avanço das mudanças climáticas nas regiões mais tradicionais do vinho,  mais países que apenas consumiam vinho agora estão também se dedicando ao cultivo da Vitis Vinífera e produzindo vinhos de boa qualidade.

O exemplo mais emblemático dessa mudança, são as uvas cultivadas e os vinhos produzidos no Sul da Inglaterra. Em 1993-1994, no período em que passei na Inglaterra para um Post-doctoral Training Research Program na Universidade de Leicester, tomei vinhos de vários lugares do mundo, mas nenhum deles da Inglaterra.  Hoje em dia empresas francesas tem vinhedos no Sul do país para produzir espumante, como a vinícola francesa Pommery que firmou parceria com a casa britânica Hattingley e, teve seu primeiro vinho à venda em 2019.

No artigo de hoje irei abordar os vinhos e as vinícolas da Irlanda, que é muito mais conhecida pelas celebrações do Hallowen, pela cerveja e pelo whiskey do que pela produção de vinhos.

A República da Irlanda é um país independente da Europa do Norte, localizado entre as latitudes de 51°N e 55°N. Trata-se da maior nação pertencente à ilha da Irlanda, uma das ilhas Britânicas banhadas pelo Atlântico Norte. Não possui fronteiras físicas com a Europa Continental, sendo que sua única fronteira terrestre é a estabelecida com a Irlanda do Norte, que pertence ao reino Unido.  É banhada pelo Atlântico Norte e se separa da Grã-Bretanha pelo mar da Irlanda.

Tem uma extensão territorial de 69.797 km², um pouco maior que o estado de Santa Catarina. No país vivem ao redor de 4.938.000 habitantes, sendo que sua maior cidade e capital é Dublin, que concentra 1,2 milhão de pessoas.

 A Irlanda é muito mais conhecida por suas belezas naturais do que pela produção de vinhos. É comum ver-se em filmes, cuja história se passa nesse país, a natureza como um cartão-postal onde suas falésias servem de cenário para encontros e desencontros de apaixonados. Ceio que a maioria de nós quando vê uma paisagem como a que segue, imediatamente lembra das falésias irlandesas, açoitadas pelas ondas do mar e pelo vento frio vindo do oceano. 

Falésias de Moher (Cliffs of Moher), formação rochosa íngreme, localizada no lado oeste da Irlanda e aos pés do Oceano Atlântico, formada a mais de 300 milhões de anos, esculpida pela lenta e constante ação da água do mar.

Além das falésias e da cerveja irlandesa, muitos de nós lembra da Irlanda todos os anos, entre os dias 31 de outubro e 1º de novembro, quando boa parte do mundo ocidental celebra o Halloween (ou Dia das Bruxas) que teve início na Irlanda (e demais ilhas Britânicas) há dois mil anos. Essa era a data em que se celebrava o Samhain na cultura celta, quando se  acreditava que essa noite era mágica e que o véu que separava o mundo material do espiritual, estaria mais fino e os dois mundos se fundiam conforme a luz do Sol abaixava e o crepúsculo chegava. 

Os irlandeses comemoram tomando cerveja, mas nos últimos anos, como boa amante do vinho eu participei em variações destas celebrações aqui no Brasil, o Hallowine, tomando excelentes vinhos. Sinal dos novos tempos, inclusive na tradicional Irlanda onde as vinícolas estão prosperando e cada vez mais aumentado a sua presença em diferentes regiões do país, com preferência para a região Leste-Sudeste, junto ao Mar da Irlanda.

A tendência irlandesa de produzir vinho é nova, porém cada vez mais ela está se tornando uma realidade concreta, já que é possível encontrar várias áreas produtoras deste precioso líquido, em diferentes regiões do país, como Munster (Sul), Leinster (Leste) e Connacht (Oeste), conforme pode ser observado no mapa que segue onde estão salientadas algumas áreas vitivinícolas. 

À medida que o mundo aquece, a produção de vinho europeia fica mais ameaçada o que também traz novas oportunidades para produção de vinhos em latitudes antes desprezadas, ou consideradas impróprias, notadamente aquelas acima de 50°N, que é o caso da Irlanda. O país produz vinhos em várias regiões entre as latitudes de 52°N a 55°N, fora da tradicional região do zona do vinho na Europa (30°N a 50°N) porém, ainda não é um grande produtor.

Não podemos esquecer que a Irlanda e a Irlanda do Norte, tem seu território em uma ilha, cuja definição é “porção de terra rodeada por água por todos os lados”, o que, sem a menor dúvida define o clima do país e, lembrem-se, a uva detesta umidade excessiva.

O clima predominante na Irlanda é o temperado oceânico, bastante influenciado pela atuação da corrente marítima do Atlântico Norte. Os invernos são frios, com temperatura média de 4 ºC a 7 ºC podendo nevar no inverno, enquanto os verões são amenos com máximas de até 16 ºC.

As chuvas são bem distribuídas entre as estações do ano e acumulam volume anual de cerca de 1.650 mm.  Um dos maiores desafios para a vitivinicultura irlandesa é esse excesso de chuva e a falta de sol, uma vez que os índices pluviométricos são elevados durante todo o ano, como podem ser vistos nos gráficos, referentes a cidade de Cork na porção Sudeste e de Dublin na porção Centro-Leste do país. Como sabemos, as uvas não gostam de grandes acumulados de precipitação. 

Além da precipitação outro grande desafio para a vitivinicultura é a nebulosidade intensa durante a maior parte do ano, um aspecto característico do clima irlandês, justamente devido a proximidade com o mar.

À medida que as temperaturas aumentam a nível mundial, o clima da ilha torna-se cada vez mais propício à viticultura, fato inimaginável alguns anos atrás. Com os verões mais quentes e secos, especialmente ao longo das costas Sudeste e Leste, cria-se um ambiente onde as vinhas podem florescer, desencadeando uma indústria vinícola nascente num país mais habituado à produção de cerveja do que à produção de vinho.

James McWalter, autor do ensaio sobre a viabilidade da Irlanda se tornar um produtor de vinhos, identificou  Wexford e Waterford como os condados com maior potencial. Embora saliente que a Irlanda está protegida de geadas destrutivas graças à influência da Corrente do Golfo do Atlântico Norte, ele também conclui que “a Irlanda atualmente não tem GDDs  (Graus Dias de Crescimento) suficientes para a viticultura”… ainda.

Como mencionado a  Irlanda é um dos países produtores de vinho localizado mais ao norte, em latitudes maiores, fora da zona tradicional do vinho.  Além disso o fato de ser uma ilha seu clima é predominantemente  frio e úmido. Para que o cultivo da uva seja um sucesso neste clima elas precisam ser escolhidas e cultivadas com muito cuidado.

As  condições mais úmidas e frias na Irlanda significam que a maioria das variedades europeias teriam dificuldade em crescer com sucesso, por essa razão, muitos  produtores plantam variedades de uvas híbridas obtidas pelo cruzamento de Vitis Vinifera com outras variedades mais resistentes a doenças. No passado, estes cruzamentos não eram muito respeitados pelas regiões vitivinícolas estabelecidas, mas com as alterações climáticas, os produtores de climas quentes estão olhando de outra forma para os híbridos.

Algumas uvas que crescem bem na Irlanda, são a Rondo, a  Regent, a Solaris, a Phoenix e a Madeleine Angevine. Muitas delas são cultivadas também em outros páises europeus, como a Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Estados Unidos, Hungria, Inglaterra, Noruega, Quirguistão, República Tcheca, Romênia, Suiça e Suécia. Elas tem grandes chances de sucesso quando cultivadas também na Irlanda já que todos esses países compartilham climas semelhantes, uma vez alguns deles tem parte ou todo o seu território localizados fora da zona tradicional do vinho (30°N-50°N).

Muitas uvas que crescem com sucesso na Alemanha, na Inglaterra terão grandes chances de sucesso quando cultivadas também na Irlanda, já que todas compartilham climas semelhantes. Por mais improvável que pareça, variedades de uvas conhecidas também crescem tais como Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Müller-Thurgau, Pinot Blanc, Pinot Noir e Reichensteiner. 

A produção de vinho irlandesa irá certamente aumentar nos próximos 50 anos, embora o aumento das chuvas possa causar problemas. Existem mais de uma dúzia de vinícolas espalhadas pelo país, algumas com pequenas operações dirigidas por entusiastas, outras bastante substanciais. As vinícolas estão crescendo em Cork, Waterford, Wexford, Condado de Westmeath, Tipperary, Condado de Mayo, Kilkenny, Louth, Dublin e provavelmente em outros lugares.

A Irlanda tem mais de uma dezena de vinícolas, entre elas:

  • Ballydrehid House Estate: Localizada em Cahir, Condad de Tipperary
  • Blackwater Valley Vineyard: Localizada em Mallow
  •  Longueville House: Localizada em Mallow
  • The Watergrasshill Vineyard: Localizada em Bartlemy

  • Thomas Walk Vineyard: Localizada em Kinsale 

  • West Waterford Vineyard: Localizada em Cappoquin, Condado de Waterford

Um fato pouco conhecido dos apreciadores de vinho é que a Irlanda está listada como país oficial produtor de vinho pela Comissão Europeia. A posição da ilha, um pouco mais ao norte do Equador terrestre, torna as condições de cultivo do vinho muito mais difíceis do que na Europa Continental, onde se encontram as regiões tradicionais produtoras de vinhos. 

Os vinhos irlandeses têm menos álcool e maior acidez. Eles tendem a produzir vinhos brancos, mas também produzem alguns tintos. Eles têm um conjunto diferente de sabores, mas podem ser muito bons. E, a medida que as vinhas envelhecem e os produtores aprendem mais como cultivá-las em condições tão adversas, os vinhos resultantes só podem melhorar.

Uma informação que eu creio que a maioria de vocês não sabe o vinho é confortavelmente a segunda bebida alcoólica mais popular do país. Em 2019 representou 29,3% da bebida  consumida, sendo superada apenas pela tradicional cerveja irlandesa que representou 40,2%. Já em 2020 o vinho representou 32,2% e a cerveja 38,9%. Este último ano correspondeu ao período da pandemia, quando as pessoas ficavam mais em casa devido as restrições de interação social. Passado esse período a cerveja voltou a ter a liderança, seguida pelo vinho.

Acessem esses vídeos sobre produção de vinhos na Irlanda, são muito interessantes

https://www.facebook.com/watch/?v=969879397955839

https://youtu.be/JR9n4a8U-jY

Se beber, não dirija!







terça-feira, 8 de outubro de 2024

OS INCÊNDIOS FLORESTAIS, AS QUEIMADAS E A VITIVINICULTURA

 

No último mês de setembro vimos, na maioria dos noticiários, o Brasil literalmente ardendo em chamas em todas as latitudes devido as queimadas e incêndios florestais que em vários estados atingiram proporções quase que apocalípticas. Infelizmente esse fenômeno não ocorreu apenas no nosso país, mas em vários outros países vizinhos da América do Sul que, devido à proximidade territorial e a ação dos ventos, acabaram contribuindo para que as densas nuvens de fumaças atingissem o Brasil praticamente de Norte a Sul.

No mapa que segue a região praticamente sem ocorrência de queimadas é a região Sul do Brasil onde estão concentradas a grande maioria das áreas vitivinícolas do país.

Os incêndios florestais e as queimadas pioram a qualidade do ar e a poluição causada por eles pode atingir o nível de risco máximo para a saúde humana nas regiões onde a fumaça chega.

O Índice de Qualidade do Ar (Air Quality Index-AQI) foi considerado insalubre ou perigoso, no mês de setembro, em várias cidades brasileiras. Esse índice é um número utilizado para transmitir a qualidade do ar pelos governos ao público em geral, a qualidade do ar se deteriora à medida que aumenta a concentração de poluentes.

Esse índice se baseia nos níveis de cinco poluentes regulamentados pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA, em conformidade com a Lei do Ar Puro (“Clean Air Act”), que são ozônio, material particulado, monóxido de carbono, dióxido de enxofre e dióxido de nitrogênio, todos prejudiciais a saúde e ao meio ambiente. A qualidade do ar é classificada em cinco faixas de valores conforme tabela que segue.



De modo geral, os incêndios florestais e as queimadas geram a destruição do meio ambiente, dos biomas, empobrecem os solos e afetam a vida das espécies vegetais e animais. As áreas afetadas por eles, emitem gases poluentes e fumaça, que contribuem para o efeito estufa e que causam mal à saúde do ser humano e de animais, quando inalados imediatamente.

A esta altura do texto, o leitor deve estar se perguntando qual a relação de tudo isso com o vinho nosso de cada dia? Muita. Creio que vocês lembram de eventos de incêndios florestais que ocorreram na Califórnia e Austrália em 2019/2020, onde a fumaça gerada por eles chegou as regiões vitivinícolas e os vinhos da safra daquele ano apresentaram odor de queimado, o que é um defeito significativo.

Os incêndios florestais de 2020 que assolaram a Califórnia e o Oregon custaram à indústria vinícola americana cerca de 3,7 mil milhões de dólares em perdas. A fumaça chegou aos vinhedos justamente quando as uvas estavam em seu estágio de crescimento e, de acordo com os vititinicultores, elas cheiravam a bacon e plástico e realmente não valia a pena fazer vinho com elas.  Nesse mesmo ano, os incêndios florestais resultaram na perda de cerca de 4% das uvas para vinho, na Austrália, devido ao odor de fumaça.

Esse odor é decorrente do fato de os vinhedos estarem expostos a fumaça dos incêndios florestais ou queimadas, sendo um defeito na bebida que pode ocorrer quando as bagas em maturação absorvem fenóis voláteis. O odor de fumaça ocorre porque os compostos voláteis presentes na fumaça chega aos vinhedos e permanece por períodos prolongados de tempo, sendo absorvidos pelas uvas. Pode alterar muito a composição e as propriedades sensoriais do vinho, levando a aromas e sabores desagradáveis ​​de fumaça, de medicamentos e borracha queimada - e um sabor seco e acinzentado.

Os incêndios florestais, além de darem ao vinho aromas de fumaça, eles contribuem para o aumento do efeito estufa, que afeta consideravelmente a vitivinicultura. A fumaça pode viajar vários quilômetros, com os incêndios ocorrendo em uma região, mas a poluição que eles causam na atmosfera pode ser percebida a milhares de quilômetros de distância do seu ponto de origem, levada pelas correntes de ar.

 

Assim, seus efeitos podem ser percebidos nos vinhedos mesmo que eles não tenham nenhuma proximidade com as áreas queimadas, mesmo que estejam a milhares de quilômetros de distância do ponto de origem dos incêndios.

Nas imagens que seguem, é possível ver que uma grande área da América do Sul foi tomada pela fumaça no dia 9 de setembro de 2024, com os índices de qualidade do ar estando entre ruim a péssima. A origem dos incêndios está no Peru e no Sul da Amazônia, próximo a linha do Equador, mais ou menos a 1° de Latitude Sul, mas devido às correntes de vento Norte-Sul que formam um corredor de vento no continente, essa fumaça consegue chegar até o Rio Grande do Sul e ao Uruguai (31°S), percorrendo, em linha reta, mais ou menos 4.000 km de distância entre o ponto de origem dos incêndios e a região vitivinícola da Campanha Gaúcha.


Na figura que segue é possível ver toda área do território nacional atingida pela fumaça dos incêndios florestais e queimadas que ocorreram no dia 09 de setembro de 2024. Nela se pode observar que os focos de incêndios estão distribuídos pelas regiões Norte, Centro-Oeste e parte do Sudeste.  Porém, na região Sul - onde o costume das queimadas é pouco difundido - e, em parte da região Sudeste, estão localizados vários municípios vitivinícolas, que foram fortemente atingidos pela fumaça das queimadas com origem nas outras regiões do país.


Quando as vinhas e as uvas são expostas a fumaça, isso pode resultar em vinhos com características sensoriais indesejáveis como odor enfumaçado, queimado, bacon, odor a cinza ou medicinal, geralmente descritos como “contaminados pelo fumo”. Os compostos da fumaça principais responsáveis ​​pelo odor, são os fenóis voláteis livres produzidos quando a madeira é queimada. Estes podem ser absorvidos diretamente pelas uvas e podem ligar-se aos açúcares  para formar glicosídeos que não possuem aroma de fumaça.

É natural que os consumidores respondam negativamente aos vinhos contaminados pela fumaça, pois ela mascara e se sobrepõe aos aromas naturais da uva com a qual o vinho foi elaborado. O odor de fumaça nas uvas irá depender do estágio de  crescimento, de desenvolvimento e da variedade da videira exposta, da concentração e composição da fumaça, da concentração de fenol volátil e da duração da exposição a fumaça.

A figuras mostradas até o momento referem-se a eventos de incêndios florestais e queimadas ocorridas no Brasil no mês de setembro. Vale lembrar que o mês de setembro é quando se inicia o período de brotação, na região Sul e de florescimento nas outras regiões do país onde é realizado o cultivo em dupla poda.

Inicialmente  acreditava-se que a exposição a fumaça, no início do período vegetativo da videira, representava um risco menor do que a exposição perto da colheita. No entanto, os dados dos eventos de incêndios na Austrália em 2019/20 mostraram que existe um risco significativo de caracteres da fumaça perceptíveis no vinho, mesmo quando a exposição a ela ocorre antes do pintor.

Há uma série de medidas que podem ser tomadas no vinhedo e na adega para minimizar os impactos sensoriais da exposição a fumaça, tais como,  colheita manual, exclusão de folhas, manutenção de frutas frescas, separação de frações de prensagem, limitar a duração do tempo de contato com a pele, colagem e tratamento de osmose reversa, moderando a extração dos compostos não desejáveis e melhorando a percepção sensorial final. 

Uma outra medida adotada pelas vinícolas no vinhedo é o uso de sacos de carvão ativado (AC) como cobertura protetora, para evitar a absorção da fumaça pelas uvas. Professores da Escola de Agricultura, Alimentos e Vinho da Universidade de Adelaide da Austrália, realizaram um estudo onde constataram que o uso de sacos de tecido com carvão ativado impediu que mais de 95% dos compostos aromáticos responsáveis pelos sabores desagradáveis de fumaça e cinza associados ao odor de fumaça, penetrassem nas uvas durante a exposição a ela. 

Os pesquisadores chegaram as seguintes conclusões nesse estudo:  

  • Os tecidos AC estudados eram propensos a rasgar e precisavam ser manuseados com cuidado para evitar danos;
  • O custo de mão-de-obra da aplicação de sacos de tecido AC em cachos de uva individuais em escala comercial é proibitivamente caro e provavelmente viável apenas para uvas ultra-premium neste estágio;
  • Os resultados demonstram uma prova de conceito e agora eles esperam desenvolver uma aplicação mais funcional e econômica para uso em vinhedos comerciais;
  • Uma opção plausível poderia ser uma rede baseada em AC mais durável que pudesse ser aplicada na zona dos frutos da videira. Isto seria muito mais econômico e ofereceria dupla proteção contra as aves.

 Fontes:

https://www.awri.com.au/wp-content/uploads/2012/04/smoke-taint-entry-into-grapes-and-vineyard-risk-factors.pdf

https://www.awri.com.au/industry_support/winemaking_resources/smoke-taint/#:~:text=Whenvineyardsandgrapesare,negativelytosmoketaintedwines.

https://www.absrs.com.br/post/incendios-florestais-danos-aos-vinhedos-podem-ser-revertidos-nos-vinhos?utm_campaign=4e3fc1ad-6eeb-467a-8ce4-7f987f010344&utm_source=so&utm_medium=mail&cid=e22f9cfa-8de3-49eb-bd64-

https://www.fastcompany.com/91039579/it-smelled-like-burnt-plastic-how-wildfires-are-running-billions-of-dollars-of-wine-and-the-creative-ways-vineyards-are-fighting-back

https://www.adelaide.edu.au/newsroom/news/list/2022/03/08/when-smoke-gets-in-your-vines

https://www.adelaide.edu.au/newsroom/news/list/2022/03/08/when-smoke-gets-in-your-vines

https://www.absrs.com.br/post/incendios-florestais-danos-aos-vinhedos-podem-ser-revertidos-nos-vinhos?utm_campaign=4e3fc1ad-6eeb-467a-8ce4-7f987f010344&utm_source=so&utm_medium=mail&cid=e22f9cfa-8de3-49eb-bd64-ef13e2ad449a

 









segunda-feira, 2 de setembro de 2024

LANÇAMENTO DO LIVRO  DESBRAVANDO VINHOS E VINHEDOS - Enologia e Viticultura

No período de 29 a 31 de agosto de 2024, foi realizado no Boulevard Convention, em Garibaldi, RS, o 1° EnoMeeting by ConceptWine, um congresso focado no mundo do vinho, enologia e viticultura, onde foram abordados diversos temas relacionados à enologia, com foco nas mudanças climáticas, compartilhando uma nova visão dos enólogos sobre a produção da uva e do vinho diante deste fenômeno. 


Estiveram presentes neste evento 100 participantes interessados em aprender mais sobre o universo do venho e o estado atual da produção vitivinícola, em diferentes países, como profissionais da área, enólogos, sommeliers e público em geral. Durante o evento foram ministradas aulas temáticas, seguidas por degustações guiadas relacionadas ao tema abordado em cada uma delas. As aulas foram ministradas por professores brasileiros e vários professores de diferentes partes do mundo incluindo Argentina, Chile, Espanha, França, Itália, Portugal e Uruguai.

Maiores informações sobre o evento podem ser encontradas em:

Durante este evento foi lançado o livro "Desbravando Vinhos e Vinhedos - Enologia e Viticultura" de autoria de Edegar Scortegagna e Andre Malmann.


O lançamento ocorreu na noite do primeiro dia do evento bem como a sessão de autógrafos dos dois sócios da Escola de Vinhos ConceptWine e autores do livro. Este é o primeiro livro sobre enologia escrito por eles, sendo fruto de anos de pesquisas sobre o tema. Eles apresentam uma obra única e inspiradora, voltada a quem deseja aprofundar seus conhecimentos no mundo dos vinhos.

O livro é dividido em dois capítulos principais: Viticultura e Enologia, e aborda todas as etapas essenciais na produção de vinhos, com base em estudos e consultas a materiais técnicos, conforme pode ser visto na figura do índice que segue. 


O livro é um bíblia sobre o assunto e um primor de editoração e cuidados na publicação, vale a pena adquiri-lo. 

Fui convidada pelos autores para escrever o Capítulo Extra para este livro, intitulado "O clima, os elementos climáticos, os fatores geográficos e a vitivinicultura".


Nele eu abordo os seguintes tópicos:

A influência dos elementos climáticos na vitivinicultura: 
  • Radiação solar;
  • Temperatura;
  • Precipitações e Umidade;
  • Ventos
A influência dos fatores geográficos na vitivinicultura
  • A Latitude e os aspectos climáticos da Terra;
  • Altitude e pressão atmosférica;
  • Relevo;
  • Continentalidade e maritimidade.


Estes são alguns dos tópicos que eu a abordo na aula que eu ministro todos os anos no Curso  4 - Degustação técnicas de bagas - Terroir & Assemblages,  da ConceptWine, que trata de degustação  técnicas de bagas, tipicidade, clima/solo e assemblages.

Se beber, não dirija!














terça-feira, 23 de julho de 2024

A IMIGRAÇÃO ALEMÃ, O VINHO E O DIA DO COLONO NO SUL DO BRASIL

 

Quadro do pintor alemão Ernst Zeuner retratando a chegada dos primeiros 39 imigrantes alemães a São Leopoldo-RS. Fonte: https://cortinadopassado.com.br/2019/07/25/195-anos-da-imigracao-alemao-no-brasil/

No dia 18 de julho de 1824 chegaram a Porto Alegre-RS os primeiros colonos alemães, vindos do porto de Hamburgo. Por ordem do Presidente da Província, o Visconde de São Leopoldo, foram encaminhados para um vilarejo conhecido como Feitoria do Linho-Cânhamo, desativada, à margem esquerda do Rio dos Sinos.

Nessa viagem, rio acima, desde Porto Alegre, essas primeiras 9 famílias de imigrantes alemães (38 adultos + 1 bebê que nasceu na viagem ao Brasil) seguramente se defrontaram com uma paisagem exuberante totalmente diferente de seu país de origem. Uma curiosidade, desses 39 imigrante, 6 eram católicos e 33 eram evangélicos Luteranos, algo até então totalmente desconhecido por aqui.

Do rio, os imigrantes foram levados em carretas de boi até a Feitoria, na então recém criada Colônia Alemã de São Leopoldo, no dia 25 de julho de 1824, um domingo, data da fundação do primeiro núcleo de colonização alemã no sul do Brasil e que viria a transformar-se em uma das cidades de origem alemã no Estado, o atual município de São Leopoldo.

Ou seja, esse ano estamos comemorando 200 anos da chegada dos primeiros imigrantes alemães ao Sul do país. Essa data é festejada em todos os quadrantes da região Sul do Brasil, em especial no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, onde a influência dos imigrantes alemães ainda é notada e onde se encontram seu descendentes, como o Dia do Colono.

 A definição desta data comemorativa deu-se em 1924, em meio às comemorações do centenário da chegada da primeira leva de imigrantes alemães à cidade de São Leopoldo. No dia 5 de setembro de 1968 foi sancionada, pelo então presidente Artur da Costa e Silva, a Lei nº 5.496, que instituiu oficialmente o “Dia do Colono”. Apesar de não ser um feriado nacional, muitos municípios do Sul do país adotaram a data comemorativa para celebrar as suas origens.

Até a metade do século XIX a região Sul do Brasil ainda continuava com vários territórios inabitados, o que despertava a cobiça dos vizinhos castelhanos. Assim, o governo imperial, movido pela fartura de terras no pais, pelo desejo de povoar a região e garantir a posse do território, aliado aos frequentes problemas sociais que ocorriam na Europa criou um projeto colonizador de larga escala e longa duração, trazendo para o país vários imigrantes alemães.

Esse movimento migratório teve início em 1824, com a chegada dos primeiros imigrantes e se manteve relativamente constante até a década de 1960.  Entre 1824 e 1972, cerca de 260.000 alemães entraram no Brasil, a quinta nacionalidade que mais imigrou para o país, após os portugueses, italianos, espanhóis e japoneses. 

No Rio Grande do Sul, esses imigrantes foram assentados principalmente, nos médios e baixos cursos das bacias hidrográficas dos rios Jacuí, Pardo e Pardinho, Taquari, Caí e Sinos, todos componentes da Bacia Hidrográfica do Guaíba, conforme apresentado no mapa que segue.  


Em Santa Catarina, os primeiros colonos alemães chegaram em 1829, ocupando o que é hoje a cidade de São Pedro de Alcântara. Mas o fluxo de imigrantes cresceu apenas após 1850 e, a atual cidade de Joinville é fruto de uma fase de ocupação de outra região da província a partir de 1851, quando a imigração alemã se expandiu para todo o norte do estado.

O legado dessa imigração alemã, pode ser notada na influência cultural, em diferentes áreas, como na diversificação da agricultura brasileira, na implantação de um “novo modelo agrícola” com base em pequenas propriedades rurais e na agricultura familiar, e que mais tarde também foi adotada pelos imigrantes italianos. Influenciaram também, no processo de urbanização e de industrialização do Brasil, bem como na introdução e modificações na arquitetura das cidades e na paisagem físico-social brasileira.

Os imigrantes alemães trouxeram também o processo de construção de casas em estilo enxaimel - típico alemão - que consiste em vigas de madeira verticais, horizontais e diagonais, que são encaixadas e os espaços entre si preenchidos por pedras ou tijolos, e que ainda hoje pode ser visto em muitas casas das cidades do interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. 

Casa construída no estilo enxaimel, na cidade de Ivoti, RS

https://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g2572696-d10200608-i246243373-Buraco_do_Diabo-Ivoti_State_of_Rio_Grande_do_Sul.html

Mas há também, uma atividade que se evidenciou nas colônias de imigrantes alemães no Rio Grande do Sul, que a grande maioria das pessoas desconhecem. É o interesse pela viticultura de quintal, uma vez que muitos conheciam e apreciavam o vinho e a vitivinicultura praticada em sua terra natal. Parte deles eram procedentes das regiões do Reno e Mosel (principais regiões vitivinícolas da Alemanha) e dedicaram-se à produção de videiras. Os alemães não tomam só chopp ou cerveja, eles tomam muito vinho.

Em função disso em 1825, foi enviado para o Rio Grande do Sul, por Dom Pedro I, o técnico italiano João Batista Orsi, com a finalidade de incentivar a cultura da videira e em sua bagagem ele trouxe uma boa quantidade de bacelos. Paralelamente, os alemães também aproveitaram as cepas lusitanas que já estavam presentes pelas redondezas, trazidas pelos açorianos e as propagaram pelos seus lotes coloniais. Foi na Linha São Jacob, no município de São Sebastião do Caí que Orsi aportou e dedicou seu tempo incentivando a viticultura na região de colonização alemã.

Dal Pizzol e Sousa, mencionam em sua trilogia “Memórias do Vinho Gaúcho-Vol.1” (2014), que em 1839, a viticultura baseada na casta americana Isabel enfrentava bem as condições climáticas e de solo locais, oferecendo copiosas colheitas nas pérgolas dos quintais. Foi a partir de Porto Alegre que a uva Isabel seguiu rumo aos afluentes do Guaíba (mostrado na mapa) e, levada principalmente pelos imigrantes alemães, alastrou-se numa escalada pelos povoamentos dos vales dos rios dos Sinos, Taquari e Caí.

Com a fundação da Colônia de Feliz (atual munícipio de Feliz), em 1845, iniciou-se a produção de vinho não apenas para o consumo próprio mas também para o mercado, uma vez que as características do solo da região e a maior altitude (120m) se prestavam especialmente para o cultivo da uva. Esse vinho era vendido, inicialmente, nas redondezas para comerciantes e particulares e, claro consumido nos Kerbs (festa com baile, exclusiva da comunidade alemã), casamentos e outras comemorações familiares (Werle, 2021).

A viticultura dos imigrantes alemães não prosperou como se desejava, ficando limitada a produzir vinhos para consumo próprio. Desde o início da colonização alemã até o ano de 1875, quando chegaram os primeiros imigrantes italianos ao Rio Grande do Sul, a uva foi cultivada na região dos municípios de São Leopoldo e, depois levada até Montenegro, São Sebastião do Caí, Bom Princípio, Feliz e outros povoados.

Não podemos esquecer que essa região onde foram instaladas as colônias alemãs, ao longo dos rios (que eram as estradas da época), devido a sua alta umidade, alta precipitação e também facilidade de ocorrência de inundações, não eram as ideais para a viticultura. Sabe-se que a videira não prospera de forma adequada em lugares com altos índices de umidade, em especial a Vitis Vinífera, por essa razão os vinhos da época, eram essencialmente feitos com uvas Vitis Labrusca, como a variedade Isabel, mais resistentes as características climáticas da região.  Com o tempo e o progresso da vitivinicultura no país, os produtores foram aprendendo a enfrentar e a driblar as adversidades do clima da região e com isso a Vitis Vinifera prosperou. 

Dal Pizzol e Sousa (2014), mencionam que no início da colonização italiana na Serra Gaúcha, quando os imigrantes subiam para essa região, em Feliz havia um ponto de parada onde eles se supriam de suas necessidades básicas. Essa era uma das rotas principais utilizada por eles de subida para a Serra. 

Estes, ao colonizarem essa região, desempenharam papel fundamental no surgimento da vitivinicultura brasileira, quando conseguiram suas primeiras mudas de Isabel. Os imigrantes alemães do Vale do Cai fizeram a transferência de mudas de videiras para os imigrantes italianos da Serra, que deram origem a seus pequenos vinhedos nos terrenos limpos de cultura ou em novas áreas desmatadas marcando, assim, o momento histórico do nascedouro da vitivinicultura da Serra Gaúcha (Dal Pizzol e Sousa, 2014).

Durante 50 anos os imigrantes alemães foram os pioneiros na produção de vinho na região sul do Brasil. Entre 1824 e 1875, eles detinham o monopólio da produção. Porém os alemães não tinham pendor para as lides de vinhateiros. Seus interesses estavam mais voltados para a pequena manufatura doméstica e a industrialização de produtos bovinos e suínos, na qual se destacaram.  Mas, com a chegada dos colonos italianos houve uma maior difusão da vitivinicultura e, o intercâmbio de mudas e de conhecimentos entre ambas as culturas, favoreceram a implantação da vitivinicultura na Serra Gaúcha.

Veja no mapa que segue a distribuição dos imigrantes alemães e italianos no Rio Grande do Sul em 1924.

 



Infelizmente não consegui encontrar nenhuma foto referente aos vinhedos ou de qualquer atividade vitivinícola praticada pelos alemães.


Se beber, não dirija!

Fontes:

https://www.correiodopovo.com.br/especial/imigraçaõ-alemã-colonização-se-da-em-diferentes-municípios-do-rio-grande-do-sul-1.1469027

https://i.pinimg.com/originals/64/97/d0/6497d0c524dee941863f55e5e44c62ed.jpg

https://www.vinicolacampestre.com.br/blog/voce-conhece-a-historia-do-vinho-durante-a-colonizacao/#

Alemães e vinho: eles estão entre os pioneiros na produção da bebida no RS https://ilovevinhos.com.br/alemaes-e-vinho-eles-entre-os-pioneiros-na-producao-da-bebida-no-rs/

Os primeiros imigrantes alemães no Rio Grande do Sul

https://familia.dienstmann.com.br/primeira-leva-imigrantes-alemaes/

 

https://cortinadopassado.com.br/2019/07/25/195-anos-da-imigracao-alemao-no-brasil/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Imigração_alemã_no_Brasil

BARROS, H.T.de; De Frankenthal ao Badensertol: uma viagem pelos nomes alemães dos vales do Caí e seus afluentes, Rio Grande do Sul; Onomástica desde América Latina, v.4, jan - dez, 2023, p. 1 – 31. ISSN 2675-2719;

https://e-revista.unioeste.br/index.php/onomastica/issue/view/13924

PIZZOL, R.D.; SOUSA, S.I.de; Memórias do Vinho Gaúcho, Vol. 1, 1.ed, Porto Alegre; RS; AGE, 2014. 1.vol.; 280 p.; 


quinta-feira, 27 de junho de 2024

Espanha descobre duas variedades de uva que se adaptam às mudanças climáticas

 

Ambas, relativamente desconhecidas, estão relacionadas com a variedade Tempranillo, a mais difundida na Espanha, e mostraram resultados promissores em pesquisas que visam ajudar os produtores de vinho espanhóis a se adaptarem às mudanças climáticas.

A Tempranillo é a casta tinta mais cultivada na Espanha, representando 42% do número total de castas tintas e 21% da área total de vinhedos, o que equivale a mais de 201.000 hectares. É a uva mais importante da Península Ibérica, que atinge o status de nobreza internacional. Esta variedade é reconhecida internacionalmente pela sua contribuição para os grandes vinhos tintos da Espanha, é a quarta variedade mais plantada no mundo e é considerada uma das nove uvas tintas mais importantes da Europa. 

No entanto, nas últimas décadas, as alterações climáticas têm afetado cada vez mais a sua produção. Isso ficou comprovado em muitas zonas vitivinícolas do Sul da Espanha, onde a sua produção está sendo gravemente afetada pelas alterações climáticas, razão pela qual é urgente procurar alternativas, devido a sua importância econômica na vitivinicultura do país.

Existe uma preocupação especial de que a viabilidade do futuro cultivo desta casta na Espanha seja comprometida pelos efeitos das mudanças climáticas. Essa preocupação ocorre especialmente em algumas zonas onde ela é tradicionalmente cultivada, e as mais famosas, que incluem a Rioja, Ribera del Duero, Toro e La Mancha, salientadas no mapa que segue.


Um estudo desenvolvido recentemente chamou atenção de que cerca de 90% das regiões vitivinícolas tradicionais nas regiões costeiras e baixas da Espanha podem correr o risco de desaparecer até o final do século, devido à seca excessiva e às ondas de calor mais frequentes. 

À medida que a Espanha se vê confrontada, ano após ano, com calor e condições meteorológicas extremas, a necessidade do país encontrar formas de se adaptar a um clima em mudança, tem ficado mais presente e, tem havido avisos de que a situação pode piorar.

Em um estudo realizado pelo Instituto da Vinha e do Vinho de Castilla-La Mancha (IVICAM) e pelo Instituto Regional de Pesquisas e Desenvolvimento Agroalimentar (IRIAF), no âmbito do projeto “Avaliação do comportamento de diferentes castas cultivadas em condições de seca”, desenvolvido no contexto da tese de doutorado de Sergio Serrano Parra, foram identificas duas variedades de videira alternativas à uva Tempranillo para adaptar-se às mudanças climáticas: Benedicto e Moribel. 

Para tal, foi utilizado um vinhedo experimental localizado em Tomelloso, província de Ciudad Real, na região de Castilla-La Mancha, no centro da Espanha, onde o clima é Temperado Mediterrâneo, com invernos rigorosos, verões quente, chuvas irregulares com estiagem no verão, fortes oscilações térmicas e notável aridez e a altitude está em torno de 660m. Veja a localização no mapa da área onde os estudos foram realizados.


As variedades Benecito, Tempranillo e Moribel, foram cultivadas e monitoradas durante duas temporadas consecutivas, sendo a variedade Benedicto, a principal variedade, e em menor a Moribel. Ambas são aparentadas com a Tempranillo e poderiam se tornar futuras alternativas para a variedade tinta mais difundida na Espanha. As videiras foram cultivadas sob dois regimes diferentes de déficit hídrico (seco e úmido, respectivamente).


Os resultados sugerem que as variedades Benedicto e Moribel, pai e descendente da uva Tempranillo respectivamente, são capazes de ter um desempenho relativamente bom em condições de estresse térmico e seca. Estas variedades, relativamente desconhecidas, mostraram resultados promissores em pesquisas que visam ajudar os produtores espanhóis a se adaptarem às mudanças climáticas.

Os resultados obtidos mostram que: 

  • A uva Benedicto apresenta características qualitativas superiores às da Tempranillo, posicionando-se como uma excelente alternativa para o futuro. É uma uva que atualmente é cultivada de forma residual em Aragón;
  • Em menor proporção, a Moribel também supera a Tempranillo em atributos como acidez e pH, agregando valor significativo;
  • Os pesquisadores do IRIAF descobriram que a Benedicto superou a Tempranillo em algumas análises qualitativas, colocando-a em posição de ser uma excelente alternativa de uva para vinificação futura;
  • A pesquisa mostrou que a Moribel possui acidez superior à da Tempranillo, o que também pode ser fundamental para a elaboração dos vinhos equilibrados no futuro;
  • Tanto a Benedicto como a Moribel tiveram rendimentos maiores e frutos menores que a Tempranillo, favorecendo a qualidade;
  • Os parâmetros de qualidade das uvas foram comparáveis na Moribel e Tempranillo, mas inferiores aos da Benedicto;
  • Os resultados obtidos sugerem que quando cultivadas em condições hídricas restritivas, tanto a Benedicto quanto a Moribel se comportam melhor que a Tempranillo. Portanto, num futuro próximo é provável que o cultivo destas variedades, até então desconhecidas, aumente nas zonas semiáridas, em detrimento da Tempranillo;
  • Embora os vinhos elaborados com estas duas castas compartilhem um perfil organoléptico semelhante ao da Tempranillo, e tiveram um desempenho igualmente bom na sala de degustação, os pesquisadores descobriram que os provadores manifestaram uma clara preferência pelos vinhos Benedicto e Moribel, aos elaborados com a uva Tempranillo;
  • Isso sugere que a incorporação destas castas alternativas poderia ajudar os produtores de vinho não apenas a preservar, mas até mesmo melhorar os vinhos produzidos com a uva Tempranillo, sob condições cada vez mais adversas de um clima cada vez mais quente. 

Fontes:

https://www.diariosur.es/antropia/descubren-dos-variedades-uva-adaptan-cambio-climatico-20240609123453-ntrc.html; 

https://content.paodeacucar.com/vinhos/uva-tempranillo

https://www.decanter.com/wine-news/tempranillo-grape-relatives-show-promise-in-climate-study-532894/

https://ives-openscience.eu/33829/

https://blogriojaalavesa.eus/uva-benedicto/

https://laprensadelrioja.com/vinos-y-bodegas-2/benedicto-progenitor-del-tempranillo-hace-mas-de-500-anos-aparece-en-el-vinedo-riojano-i/

https://www.agroclm.com/2022/02/17/hallan-varias-cepas-de-la-variedad-de-uva-considerada-madre-del-tempranillo/

https://www.ptvino.com/es/cepas-de-benedicto-la-madre-del-tempranillo-encontradas-en-dominio-de-cair-ribera-del-duero/

Se beber, não dirija!



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