Cientistas estão anunciando a configuração de um poderoso El Niño, com o aquecimento do Pacífico Equatorial entre agosto e outubro-2026, intensificação esperada entre a primavera e o verão-2026/2027 e, podendo prolongar seus impactos até o segundo semestre de 2027. De acordo com o serviço Meteorológico do Reino Unido (Met Office) este será o El Niño mais intenso do século e alerta que é "muito provável" que 2027 seja o ano mais quente já registrado.
O El Niño é um
fenômeno natural que se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas do
oceano Pacífico próximo a linha do Equador, na região intertropical. Ele ocorre
em intervalos irregulares de cinco a sete anos e tem duração média que pode
variar entre um e um ano e meio, com início nos últimos meses do ano.
Com a modificação do
padrão da circulação atmosférica sobre o Pacífico, o El Niño é responsável por
alterar a distribuição da umidade, das chuvas e das temperaturas em várias
áreas do planeta, entre elas o Brasil.
De acordo com o Centro
de Previsão Climática da NOAA, a chance de formação de um novo El Niño a partir
de setembro de 2026 supera os 90%. Já o CEMADEM prevê que a probabilidade de
ocorrência que era de 60% entre maio e julho, salte para mais de 90% entre
setembro e outubro, podendo ser de grande intensidade, com temperaturas até 2°C
acima da média no segundo semestre.
O El Niño mais intenso já registrado, ocorrido entre 1877 e 1878, intensificou condições que levaram a uma fome global, causando a morte de mais de 50 milhões de pessoas na Índia, na China, no Brasil e em outras regiões. Esse número representava de 3% a 4% da população mundial estimada na época, o que equivaleria a pelo menos 250 milhões de pessoas se o evento ocorresse hoje.
Na ocasião, essa alteração climática devastou plantações levantando a
questão de saber se uma perturbação semelhante, como está previsto para
2026-2027, poderia ameaçar novamente a
segurança alimentar global.
Para dar uma ideia ao
leitor da dimensão que está sendo projetado, nos três maiores Super El Niño que
ocorreram na era moderna a temperatura da água do oceano atingiu picos de 2,3°C
(1997/1998), 2,6°C (1982/1983) e 3°C (2015/2016). Para esse El Niño os modelos
da NOAA projetam média acima de 4°C para o final de 2026 e nas versões
corrigidas a temperatura ficaria em torno de 3°C a 3,5°C. E, ainda assim, seria
um evento de intensidade extraordinária, uma vez que tudo pode se tornar ainda
pior, pois esse El Niño irá atingir um planeta mais quente e mais habitado que
qualquer outro ocorrido anteriormente.
Em eventos de El Niño um dos setores
econômicos mais afetados é a produção agrícola, entre elas a vitivinicultura. Vale lembrar que “o vinho se faz no
vinhedo”, portanto eventos climáticos tem interferência direta na produção
e na qualidade da uva que será, posteriormente, transformada em vinho.
Além da variedade de uva não se pode
esquecer que os elementos climáticos (radiação solar, temperatura,
precipitação, umidade, nebulosidade, ventos, pressão atmosférica) são
fortemente afetados pelo El Niño, podendo interferir sobremaneira nas características
do vinho tais como perfil de aromas e sabores.
Impactos do El NIño no vinhedo
O fenômeno El Niño
impacta de forma significativa a vitivinicultura global, uma vez que altera os
padrões de temperatura e a distribuição das chuvas. O impacto final sobre as
áreas vitivinícolas depende da intensidade do evento (e o atual está previsto
para ser o mais intenso), da localização geográfica do vinhedo (hemisfério Norte
e Sul) e do estágio em que a planta se encontra (da dormência a colheita).
Em regiões específicas ou quando o fenômeno é moderado, o El Niño pode favorecer a produção. Como fatores positivos que trariam benefício ao vinhedo pode-se mencionar:
- Invernos
mais amenos: O que reduz
o risco de geadas tardias que destroem os primeiros brotos da videira;
- Aumento da umidade no solo: Em regiões historicamente áridas
(como partes do Chile e Austrália), as chuvas extras realimentam os
lençóis freáticos e reduzem os custos com a irrigação;
- Aceleração do amadurecimento: Com o aumento de temperatura em
certas áreas a colheita pode ser antecipada, resultando em uvas com maior
concentração de açúcares.
Infelizmente, na maioria das vezes, o El Niño traz grandes desafios para os produtores de vinho, entre eles tem-se:
- Excesso de chuvas durante a floração: Pode diluir os componentes das uvas, prejudicar a fecundação das flores e consequentemente reduzir o volume de uvas produzidas;
- Ocorrência de doenças fúngicas: A combinação de calor extremo e
alta umidade, na fase de maturação e colheita, pode favorecer o
aparecimento de fungos como o míldio e a podridão cinzenta (Botrytis);
- Excesso de chuvas no período da colheita: Água em excesso no período final
dilui os açúcares e sabores da uva, gerando vinhos de menor qualidade;
- Eventos climáticos extremos: Aumento na incidência de
tempestades de granizo e ventos fortes, que quebram os ramos e, consequentemente,
quebram a produção do ano;
- Secas severas em outras regiões: Enquanto algumas áreas sofrem
com excesso de água, regiões como a Austrália e o Nordeste do Brasil
enfrentam secas extremas que estressam a planta e reduzem o rendimento.
Regiões do mundo que
serão afetadas
O artigo “‘Super’ El Niño could cause global food price shock lasting into 2028, analysts say” publicado no The Guardian, em 12/jul/2026 apresenta um mapa mundial com os efeitos típicos do fenômeno El Niño. Nesse mapa, em vermelho eu salientei as regiões vitivinícolas ao redor do mundo que deverão sofrer impactos (seca ou excesso de chuva) provocados por El Niño.
Algumas delas estão
localizadas no hemisfério Norte (setembro a março-outono/inverno, período de
dormência). Outras no hemisfério Sul (setembro a março-primavera/verão, períodos
de brotação, floração, amadurecimento e vindima).
De acordo com o mapa a Ásia
e a Oceania seriam impactadas com condições mais secas (cor marrom) e
o maior risco seria nos países produtores de vinho como segue.
Na Ásia, as áreas vitivinícolas estão localizadas entre o Trópico de Câncer (23°27’N) e a linha do Equador (0°). Três países se destacam: a Índia (Vale do Nashik 18°33’- 20°53’N), a Tailândia (Chiang Mai-18°47′N), e o Vietnam (11° 45′ N). Todos utilizam o sistema de dupla poda, com o El Niño estarão sujeitas a mais seca entre julho e janeiro.
Na Oceania, há dois importantes países
vitivinícolas a Austrália e a Nova Zelândia. Na Austrália (15°
a 40° S), as províncias vitivinícolas estão localizadas em sua porção
Leste/Sul. Estas podem enfrentar um risco severo de secas prolongadas, ondas de
calor extremas e alertas e incêndios florestais. Aliás, não apenas essas
províncias vitivinícolas localizadas mais ao Sul, mas todo a porção leste do país,
inclusive províncias que não produzem vinho.
A Nova Zelândia, uma região
vinícola importante na Oceania, não será afetada nem pela estiagem nem pelo
excesso de chuvas.
Na África, a África do Sul, maior
produtora de vinho no continente, terá todo o seu território afetado pela seca,
entre novembro de março. Está previsto para a partir de setembro, início do
ciclo da uva, altíssima probabilidade de temperaturas acima da média e escassez
de precipitação nos próximos meses.
Na América do Norte, na Costa do Pacífico, na
fronteira entre Estados Unidos e Canadá, onde estão localizados a província
Columbia Britânica (Canadá) e o estado de Washington (USA) está previsto mais
seca, alterando o regime normal de chuvas e neve. É nessa região que é produzido o Ice Wine, no
Vale do Okanagan, no Canadá. Na California, a mais importante região
vitivinícola dos Estados Unidos, localizada no Sudoeste do país, El Niño,
poderá trazer invernos mais quentes com precipitações acima da média, riscos de
temporais e de inundações no estado.
Na América do Sul, os quatro países produtores de vinho do continente (Argentina, Chile, Brasil e Uruguai) serão afetados pelo El Niño 2026-2027, em diferentes períodos do ano e de diferentes formas, como pode ser visto no mapa que segue.
As principais regiões
produtoras de vinho da Argentina não serão afetadas pelo fenômeno, mas o
Uruguai será atingido por ele no período de dezembro a fevereiro
(amadurecimento e vindima), que se caracterizará por ser bastante chuvoso, o
que pode prejudicar a qualidade das uvas.
Das 16 regiões do Chile
10 terão impactos severos provocados pelo Super El Niño, entre junho e agosto,
desde o norte árido até o sul do país. O Super El Niño de 2026 deve causar
efeitos extremos no Chile, dividindo o país entre a falta de água no Norte e
temporais severos no Centro-Sul, como pode ser visto no mapa. Todas essas
regiões são importantes produtoras de vinho.
Com relação ao Brasil haverá um
contraste entre as regiões vitivinícolas, dependendo da sua localização
geográfica. O mês de setembro marca a transição do período mais seco para o
começo da estação chuvosa em boa parte do Brasil (Tropical). A primavera começa
no dia 22, mas setembro ainda pode ter características típicas do inverno,
como novas entradas de ar frio, quedas acentuadas de temperatura e
até episódios de geada na região Sul do país.
De acordo com as
previsões o El Niño tem 90% de probabilidade de se configurar como muito forte
no trimestre de setembro-outubro-novembro, período de brotação e floração da
videira na região Sul, o que pode comprometer a próxima safra. Este é, também,
o período da colheita e da poda de formação no sistema dupla poda.
É esperado que El Niño traga
eventos climáticos extremos ao Brasil, com chuvas intensas no Sul (principal
região vitivinícola do país) e secas severas no Nordeste (viticultura
irrigada). Já nas regiões vitivinícolas localizadas em partes do Brasil Central
e do Sudeste, especialmente Mato Grosso, Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo, onde
é utilizado o sistema duplo poda, também há maior probabilidade de chuva abaixo
do normal, de acordo com alertas reunidos pelo INMET e que pode ser observado
no mapa para o mês de setembro 2026.
“Se beber, não dirija”
Bibliografia:
https://i0.wp.com/blogdopedlowski.com/wp-content/uploads/2026/07/el-nino-impactos-tipicos.jpg?ssl=1
https://portalunico.com/veja-como-podera-ser-o-impacto-do-el-nino-na-regiao-norte/
https://boca.com.br/agricultura/el-nino-preocupacao-viticultores-chuvas-excessivas
https://conexrs.com.br/vitivinicultura-setor-vitivinicola-reforca-manejo-preventivo-super-el/
https://sulavineyards.com/sula-winemaking.php
https://www.greenpeace.org/brasil/blog/super-el-nino-2026/
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