terça-feira, 8 de outubro de 2024

OS INCÊNDIOS FLORESTAIS, AS QUEIMADAS E A VITIVINICULTURA

 

No último mês de setembro vimos, na maioria dos noticiários, o Brasil literalmente ardendo em chamas em todas as latitudes devido as queimadas e incêndios florestais que em vários estados atingiram proporções quase que apocalípticas. Infelizmente esse fenômeno não ocorreu apenas no nosso país, mas em vários outros países vizinhos da América do Sul que, devido à proximidade territorial e a ação dos ventos, acabaram contribuindo para que as densas nuvens de fumaças atingissem o Brasil praticamente de Norte a Sul.

No mapa que segue a região praticamente sem ocorrência de queimadas é a região Sul do Brasil onde estão concentradas a grande maioria das áreas vitivinícolas do país.

Os incêndios florestais e as queimadas pioram a qualidade do ar e a poluição causada por eles pode atingir o nível de risco máximo para a saúde humana nas regiões onde a fumaça chega.

O Índice de Qualidade do Ar (Air Quality Index-AQI) foi considerado insalubre ou perigoso, no mês de setembro, em várias cidades brasileiras. Esse índice é um número utilizado para transmitir a qualidade do ar pelos governos ao público em geral, a qualidade do ar se deteriora à medida que aumenta a concentração de poluentes.

Esse índice se baseia nos níveis de cinco poluentes regulamentados pela Agência de Proteção Ambiental dos EUA, em conformidade com a Lei do Ar Puro (“Clean Air Act”), que são ozônio, material particulado, monóxido de carbono, dióxido de enxofre e dióxido de nitrogênio, todos prejudiciais a saúde e ao meio ambiente. A qualidade do ar é classificada em cinco faixas de valores conforme tabela que segue.



De modo geral, os incêndios florestais e as queimadas geram a destruição do meio ambiente, dos biomas, empobrecem os solos e afetam a vida das espécies vegetais e animais. As áreas afetadas por eles, emitem gases poluentes e fumaça, que contribuem para o efeito estufa e que causam mal à saúde do ser humano e de animais, quando inalados imediatamente.

A esta altura do texto, o leitor deve estar se perguntando qual a relação de tudo isso com o vinho nosso de cada dia? Muita. Creio que vocês lembram de eventos de incêndios florestais que ocorreram na Califórnia e Austrália em 2019/2020, onde a fumaça gerada por eles chegou as regiões vitivinícolas e os vinhos da safra daquele ano apresentaram odor de queimado, o que é um defeito significativo.

Os incêndios florestais de 2020 que assolaram a Califórnia e o Oregon custaram à indústria vinícola americana cerca de 3,7 mil milhões de dólares em perdas. A fumaça chegou aos vinhedos justamente quando as uvas estavam em seu estágio de crescimento e, de acordo com os vititinicultores, elas cheiravam a bacon e plástico e realmente não valia a pena fazer vinho com elas.  Nesse mesmo ano, os incêndios florestais resultaram na perda de cerca de 4% das uvas para vinho, na Austrália, devido ao odor de fumaça.

Esse odor é decorrente do fato de os vinhedos estarem expostos a fumaça dos incêndios florestais ou queimadas, sendo um defeito na bebida que pode ocorrer quando as bagas em maturação absorvem fenóis voláteis. O odor de fumaça ocorre porque os compostos voláteis presentes na fumaça chega aos vinhedos e permanece por períodos prolongados de tempo, sendo absorvidos pelas uvas. Pode alterar muito a composição e as propriedades sensoriais do vinho, levando a aromas e sabores desagradáveis ​​de fumaça, de medicamentos e borracha queimada - e um sabor seco e acinzentado.

Os incêndios florestais, além de darem ao vinho aromas de fumaça, eles contribuem para o aumento do efeito estufa, que afeta consideravelmente a vitivinicultura. A fumaça pode viajar vários quilômetros, com os incêndios ocorrendo em uma região, mas a poluição que eles causam na atmosfera pode ser percebida a milhares de quilômetros de distância do seu ponto de origem, levada pelas correntes de ar.

 

Assim, seus efeitos podem ser percebidos nos vinhedos mesmo que eles não tenham nenhuma proximidade com as áreas queimadas, mesmo que estejam a milhares de quilômetros de distância do ponto de origem dos incêndios.

Nas imagens que seguem, é possível ver que uma grande área da América do Sul foi tomada pela fumaça no dia 9 de setembro de 2024, com os índices de qualidade do ar estando entre ruim a péssima. A origem dos incêndios está no Peru e no Sul da Amazônia, próximo a linha do Equador, mais ou menos a 1° de Latitude Sul, mas devido às correntes de vento Norte-Sul que formam um corredor de vento no continente, essa fumaça consegue chegar até o Rio Grande do Sul e ao Uruguai (31°S), percorrendo, em linha reta, mais ou menos 4.000 km de distância entre o ponto de origem dos incêndios e a região vitivinícola da Campanha Gaúcha.


Na figura que segue é possível ver toda área do território nacional atingida pela fumaça dos incêndios florestais e queimadas que ocorreram no dia 09 de setembro de 2024. Nela se pode observar que os focos de incêndios estão distribuídos pelas regiões Norte, Centro-Oeste e parte do Sudeste.  Porém, na região Sul - onde o costume das queimadas é pouco difundido - e, em parte da região Sudeste, estão localizados vários municípios vitivinícolas, que foram fortemente atingidos pela fumaça das queimadas com origem nas outras regiões do país.


Quando as vinhas e as uvas são expostas a fumaça, isso pode resultar em vinhos com características sensoriais indesejáveis como odor enfumaçado, queimado, bacon, odor a cinza ou medicinal, geralmente descritos como “contaminados pelo fumo”. Os compostos da fumaça principais responsáveis ​​pelo odor, são os fenóis voláteis livres produzidos quando a madeira é queimada. Estes podem ser absorvidos diretamente pelas uvas e podem ligar-se aos açúcares  para formar glicosídeos que não possuem aroma de fumaça.

É natural que os consumidores respondam negativamente aos vinhos contaminados pela fumaça, pois ela mascara e se sobrepõe aos aromas naturais da uva com a qual o vinho foi elaborado. O odor de fumaça nas uvas irá depender do estágio de  crescimento, de desenvolvimento e da variedade da videira exposta, da concentração e composição da fumaça, da concentração de fenol volátil e da duração da exposição a fumaça.

A figuras mostradas até o momento referem-se a eventos de incêndios florestais e queimadas ocorridas no Brasil no mês de setembro. Vale lembrar que o mês de setembro é quando se inicia o período de brotação, na região Sul e de florescimento nas outras regiões do país onde é realizado o cultivo em dupla poda.

Inicialmente  acreditava-se que a exposição a fumaça, no início do período vegetativo da videira, representava um risco menor do que a exposição perto da colheita. No entanto, os dados dos eventos de incêndios na Austrália em 2019/20 mostraram que existe um risco significativo de caracteres da fumaça perceptíveis no vinho, mesmo quando a exposição a ela ocorre antes do pintor.

Há uma série de medidas que podem ser tomadas no vinhedo e na adega para minimizar os impactos sensoriais da exposição a fumaça, tais como,  colheita manual, exclusão de folhas, manutenção de frutas frescas, separação de frações de prensagem, limitar a duração do tempo de contato com a pele, colagem e tratamento de osmose reversa, moderando a extração dos compostos não desejáveis e melhorando a percepção sensorial final. 

Uma outra medida adotada pelas vinícolas no vinhedo é o uso de sacos de carvão ativado (AC) como cobertura protetora, para evitar a absorção da fumaça pelas uvas. Professores da Escola de Agricultura, Alimentos e Vinho da Universidade de Adelaide da Austrália, realizaram um estudo onde constataram que o uso de sacos de tecido com carvão ativado impediu que mais de 95% dos compostos aromáticos responsáveis pelos sabores desagradáveis de fumaça e cinza associados ao odor de fumaça, penetrassem nas uvas durante a exposição a ela. 

Os pesquisadores chegaram as seguintes conclusões nesse estudo:  

  • Os tecidos AC estudados eram propensos a rasgar e precisavam ser manuseados com cuidado para evitar danos;
  • O custo de mão-de-obra da aplicação de sacos de tecido AC em cachos de uva individuais em escala comercial é proibitivamente caro e provavelmente viável apenas para uvas ultra-premium neste estágio;
  • Os resultados demonstram uma prova de conceito e agora eles esperam desenvolver uma aplicação mais funcional e econômica para uso em vinhedos comerciais;
  • Uma opção plausível poderia ser uma rede baseada em AC mais durável que pudesse ser aplicada na zona dos frutos da videira. Isto seria muito mais econômico e ofereceria dupla proteção contra as aves.

 Fontes:

https://www.awri.com.au/wp-content/uploads/2012/04/smoke-taint-entry-into-grapes-and-vineyard-risk-factors.pdf

https://www.awri.com.au/industry_support/winemaking_resources/smoke-taint/#:~:text=Whenvineyardsandgrapesare,negativelytosmoketaintedwines.

https://www.absrs.com.br/post/incendios-florestais-danos-aos-vinhedos-podem-ser-revertidos-nos-vinhos?utm_campaign=4e3fc1ad-6eeb-467a-8ce4-7f987f010344&utm_source=so&utm_medium=mail&cid=e22f9cfa-8de3-49eb-bd64-

https://www.fastcompany.com/91039579/it-smelled-like-burnt-plastic-how-wildfires-are-running-billions-of-dollars-of-wine-and-the-creative-ways-vineyards-are-fighting-back

https://www.adelaide.edu.au/newsroom/news/list/2022/03/08/when-smoke-gets-in-your-vines

https://www.adelaide.edu.au/newsroom/news/list/2022/03/08/when-smoke-gets-in-your-vines

https://www.absrs.com.br/post/incendios-florestais-danos-aos-vinhedos-podem-ser-revertidos-nos-vinhos?utm_campaign=4e3fc1ad-6eeb-467a-8ce4-7f987f010344&utm_source=so&utm_medium=mail&cid=e22f9cfa-8de3-49eb-bd64-ef13e2ad449a

 









segunda-feira, 2 de setembro de 2024

LANÇAMENTO DO LIVRO  DESBRAVANDO VINHOS E VINHEDOS - Enologia e Viticultura

No período de 29 a 31 de agosto de 2024, foi realizado no Boulevard Convention, em Garibaldi, RS, o 1° EnoMeeting by ConceptWine, um congresso focado no mundo do vinho, enologia e viticultura, onde foram abordados diversos temas relacionados à enologia, com foco nas mudanças climáticas, compartilhando uma nova visão dos enólogos sobre a produção da uva e do vinho diante deste fenômeno. 


Estiveram presentes neste evento 100 participantes interessados em aprender mais sobre o universo do venho e o estado atual da produção vitivinícola, em diferentes países, como profissionais da área, enólogos, sommeliers e público em geral. Durante o evento foram ministradas aulas temáticas, seguidas por degustações guiadas relacionadas ao tema abordado em cada uma delas. As aulas foram ministradas por professores brasileiros e vários professores de diferentes partes do mundo incluindo Argentina, Chile, Espanha, França, Itália, Portugal e Uruguai.

Maiores informações sobre o evento podem ser encontradas em:

Durante este evento foi lançado o livro "Desbravando Vinhos e Vinhedos - Enologia e Viticultura" de autoria de Edegar Scortegagna e Andre Malmann.


O lançamento ocorreu na noite do primeiro dia do evento bem como a sessão de autógrafos dos dois sócios da Escola de Vinhos ConceptWine e autores do livro. Este é o primeiro livro sobre enologia escrito por eles, sendo fruto de anos de pesquisas sobre o tema. Eles apresentam uma obra única e inspiradora, voltada a quem deseja aprofundar seus conhecimentos no mundo dos vinhos.

O livro é dividido em dois capítulos principais: Viticultura e Enologia, e aborda todas as etapas essenciais na produção de vinhos, com base em estudos e consultas a materiais técnicos, conforme pode ser visto na figura do índice que segue. 


O livro é um bíblia sobre o assunto e um primor de editoração e cuidados na publicação, vale a pena adquiri-lo. 

Fui convidada pelos autores para escrever o Capítulo Extra para este livro, intitulado "O clima, os elementos climáticos, os fatores geográficos e a vitivinicultura".


Nele eu abordo os seguintes tópicos:

A influência dos elementos climáticos na vitivinicultura: 
  • Radiação solar;
  • Temperatura;
  • Precipitações e Umidade;
  • Ventos
A influência dos fatores geográficos na vitivinicultura
  • A Latitude e os aspectos climáticos da Terra;
  • Altitude e pressão atmosférica;
  • Relevo;
  • Continentalidade e maritimidade.


Estes são alguns dos tópicos que eu a abordo na aula que eu ministro todos os anos no Curso  4 - Degustação técnicas de bagas - Terroir & Assemblages,  da ConceptWine, que trata de degustação  técnicas de bagas, tipicidade, clima/solo e assemblages.

Se beber, não dirija!














terça-feira, 23 de julho de 2024

A IMIGRAÇÃO ALEMÃ, O VINHO E O DIA DO COLONO NO SUL DO BRASIL

 

Quadro do pintor alemão Ernst Zeuner retratando a chegada dos primeiros 39 imigrantes alemães a São Leopoldo-RS. Fonte: https://cortinadopassado.com.br/2019/07/25/195-anos-da-imigracao-alemao-no-brasil/

No dia 18 de julho de 1824 chegaram a Porto Alegre-RS os primeiros colonos alemães, vindos do porto de Hamburgo. Por ordem do Presidente da Província, o Visconde de São Leopoldo, foram encaminhados para um vilarejo conhecido como Feitoria do Linho-Cânhamo, desativada, à margem esquerda do Rio dos Sinos.

Nessa viagem, rio acima, desde Porto Alegre, essas primeiras 9 famílias de imigrantes alemães (38 adultos + 1 bebê que nasceu na viagem ao Brasil) seguramente se defrontaram com uma paisagem exuberante totalmente diferente de seu país de origem. Uma curiosidade, desses 39 imigrante, 6 eram católicos e 33 eram evangélicos Luteranos, algo até então totalmente desconhecido por aqui.

Do rio, os imigrantes foram levados em carretas de boi até a Feitoria, na então recém criada Colônia Alemã de São Leopoldo, no dia 25 de julho de 1824, um domingo, data da fundação do primeiro núcleo de colonização alemã no sul do Brasil e que viria a transformar-se em uma das cidades de origem alemã no Estado, o atual município de São Leopoldo.

Ou seja, esse ano estamos comemorando 200 anos da chegada dos primeiros imigrantes alemães ao Sul do país. Essa data é festejada em todos os quadrantes da região Sul do Brasil, em especial no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, onde a influência dos imigrantes alemães ainda é notada e onde se encontram seu descendentes, como o Dia do Colono.

 A definição desta data comemorativa deu-se em 1924, em meio às comemorações do centenário da chegada da primeira leva de imigrantes alemães à cidade de São Leopoldo. No dia 5 de setembro de 1968 foi sancionada, pelo então presidente Artur da Costa e Silva, a Lei nº 5.496, que instituiu oficialmente o “Dia do Colono”. Apesar de não ser um feriado nacional, muitos municípios do Sul do país adotaram a data comemorativa para celebrar as suas origens.

Até a metade do século XIX a região Sul do Brasil ainda continuava com vários territórios inabitados, o que despertava a cobiça dos vizinhos castelhanos. Assim, o governo imperial, movido pela fartura de terras no pais, pelo desejo de povoar a região e garantir a posse do território, aliado aos frequentes problemas sociais que ocorriam na Europa criou um projeto colonizador de larga escala e longa duração, trazendo para o país vários imigrantes alemães.

Esse movimento migratório teve início em 1824, com a chegada dos primeiros imigrantes e se manteve relativamente constante até a década de 1960.  Entre 1824 e 1972, cerca de 260.000 alemães entraram no Brasil, a quinta nacionalidade que mais imigrou para o país, após os portugueses, italianos, espanhóis e japoneses. 

No Rio Grande do Sul, esses imigrantes foram assentados principalmente, nos médios e baixos cursos das bacias hidrográficas dos rios Jacuí, Pardo e Pardinho, Taquari, Caí e Sinos, todos componentes da Bacia Hidrográfica do Guaíba, conforme apresentado no mapa que segue.  


Em Santa Catarina, os primeiros colonos alemães chegaram em 1829, ocupando o que é hoje a cidade de São Pedro de Alcântara. Mas o fluxo de imigrantes cresceu apenas após 1850 e, a atual cidade de Joinville é fruto de uma fase de ocupação de outra região da província a partir de 1851, quando a imigração alemã se expandiu para todo o norte do estado.

O legado dessa imigração alemã, pode ser notada na influência cultural, em diferentes áreas, como na diversificação da agricultura brasileira, na implantação de um “novo modelo agrícola” com base em pequenas propriedades rurais e na agricultura familiar, e que mais tarde também foi adotada pelos imigrantes italianos. Influenciaram também, no processo de urbanização e de industrialização do Brasil, bem como na introdução e modificações na arquitetura das cidades e na paisagem físico-social brasileira.

Os imigrantes alemães trouxeram também o processo de construção de casas em estilo enxaimel - típico alemão - que consiste em vigas de madeira verticais, horizontais e diagonais, que são encaixadas e os espaços entre si preenchidos por pedras ou tijolos, e que ainda hoje pode ser visto em muitas casas das cidades do interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. 

Casa construída no estilo enxaimel, na cidade de Ivoti, RS

https://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g2572696-d10200608-i246243373-Buraco_do_Diabo-Ivoti_State_of_Rio_Grande_do_Sul.html

Mas há também, uma atividade que se evidenciou nas colônias de imigrantes alemães no Rio Grande do Sul, que a grande maioria das pessoas desconhecem. É o interesse pela viticultura de quintal, uma vez que muitos conheciam e apreciavam o vinho e a vitivinicultura praticada em sua terra natal. Parte deles eram procedentes das regiões do Reno e Mosel (principais regiões vitivinícolas da Alemanha) e dedicaram-se à produção de videiras. Os alemães não tomam só chopp ou cerveja, eles tomam muito vinho.

Em função disso em 1825, foi enviado para o Rio Grande do Sul, por Dom Pedro I, o técnico italiano João Batista Orsi, com a finalidade de incentivar a cultura da videira e em sua bagagem ele trouxe uma boa quantidade de bacelos. Paralelamente, os alemães também aproveitaram as cepas lusitanas que já estavam presentes pelas redondezas, trazidas pelos açorianos e as propagaram pelos seus lotes coloniais. Foi na Linha São Jacob, no município de São Sebastião do Caí que Orsi aportou e dedicou seu tempo incentivando a viticultura na região de colonização alemã.

Dal Pizzol e Sousa, mencionam em sua trilogia “Memórias do Vinho Gaúcho-Vol.1” (2014), que em 1839, a viticultura baseada na casta americana Isabel enfrentava bem as condições climáticas e de solo locais, oferecendo copiosas colheitas nas pérgolas dos quintais. Foi a partir de Porto Alegre que a uva Isabel seguiu rumo aos afluentes do Guaíba (mostrado na mapa) e, levada principalmente pelos imigrantes alemães, alastrou-se numa escalada pelos povoamentos dos vales dos rios dos Sinos, Taquari e Caí.

Com a fundação da Colônia de Feliz (atual munícipio de Feliz), em 1845, iniciou-se a produção de vinho não apenas para o consumo próprio mas também para o mercado, uma vez que as características do solo da região e a maior altitude (120m) se prestavam especialmente para o cultivo da uva. Esse vinho era vendido, inicialmente, nas redondezas para comerciantes e particulares e, claro consumido nos Kerbs (festa com baile, exclusiva da comunidade alemã), casamentos e outras comemorações familiares (Werle, 2021).

A viticultura dos imigrantes alemães não prosperou como se desejava, ficando limitada a produzir vinhos para consumo próprio. Desde o início da colonização alemã até o ano de 1875, quando chegaram os primeiros imigrantes italianos ao Rio Grande do Sul, a uva foi cultivada na região dos municípios de São Leopoldo e, depois levada até Montenegro, São Sebastião do Caí, Bom Princípio, Feliz e outros povoados.

Não podemos esquecer que essa região onde foram instaladas as colônias alemãs, ao longo dos rios (que eram as estradas da época), devido a sua alta umidade, alta precipitação e também facilidade de ocorrência de inundações, não eram as ideais para a viticultura. Sabe-se que a videira não prospera de forma adequada em lugares com altos índices de umidade, em especial a Vitis Vinífera, por essa razão os vinhos da época, eram essencialmente feitos com uvas Vitis Labrusca, como a variedade Isabel, mais resistentes as características climáticas da região.  Com o tempo e o progresso da vitivinicultura no país, os produtores foram aprendendo a enfrentar e a driblar as adversidades do clima da região e com isso a Vitis Vinifera prosperou. 

Dal Pizzol e Sousa (2014), mencionam que no início da colonização italiana na Serra Gaúcha, quando os imigrantes subiam para essa região, em Feliz havia um ponto de parada onde eles se supriam de suas necessidades básicas. Essa era uma das rotas principais utilizada por eles de subida para a Serra. 

Estes, ao colonizarem essa região, desempenharam papel fundamental no surgimento da vitivinicultura brasileira, quando conseguiram suas primeiras mudas de Isabel. Os imigrantes alemães do Vale do Cai fizeram a transferência de mudas de videiras para os imigrantes italianos da Serra, que deram origem a seus pequenos vinhedos nos terrenos limpos de cultura ou em novas áreas desmatadas marcando, assim, o momento histórico do nascedouro da vitivinicultura da Serra Gaúcha (Dal Pizzol e Sousa, 2014).

Durante 50 anos os imigrantes alemães foram os pioneiros na produção de vinho na região sul do Brasil. Entre 1824 e 1875, eles detinham o monopólio da produção. Porém os alemães não tinham pendor para as lides de vinhateiros. Seus interesses estavam mais voltados para a pequena manufatura doméstica e a industrialização de produtos bovinos e suínos, na qual se destacaram.  Mas, com a chegada dos colonos italianos houve uma maior difusão da vitivinicultura e, o intercâmbio de mudas e de conhecimentos entre ambas as culturas, favoreceram a implantação da vitivinicultura na Serra Gaúcha.

Veja no mapa que segue a distribuição dos imigrantes alemães e italianos no Rio Grande do Sul em 1924.

 



Infelizmente não consegui encontrar nenhuma foto referente aos vinhedos ou de qualquer atividade vitivinícola praticada pelos alemães.


Se beber, não dirija!

Fontes:

https://www.correiodopovo.com.br/especial/imigraçaõ-alemã-colonização-se-da-em-diferentes-municípios-do-rio-grande-do-sul-1.1469027

https://i.pinimg.com/originals/64/97/d0/6497d0c524dee941863f55e5e44c62ed.jpg

https://www.vinicolacampestre.com.br/blog/voce-conhece-a-historia-do-vinho-durante-a-colonizacao/#

Alemães e vinho: eles estão entre os pioneiros na produção da bebida no RS https://ilovevinhos.com.br/alemaes-e-vinho-eles-entre-os-pioneiros-na-producao-da-bebida-no-rs/

Os primeiros imigrantes alemães no Rio Grande do Sul

https://familia.dienstmann.com.br/primeira-leva-imigrantes-alemaes/

 

https://cortinadopassado.com.br/2019/07/25/195-anos-da-imigracao-alemao-no-brasil/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Imigração_alemã_no_Brasil

BARROS, H.T.de; De Frankenthal ao Badensertol: uma viagem pelos nomes alemães dos vales do Caí e seus afluentes, Rio Grande do Sul; Onomástica desde América Latina, v.4, jan - dez, 2023, p. 1 – 31. ISSN 2675-2719;

https://e-revista.unioeste.br/index.php/onomastica/issue/view/13924

PIZZOL, R.D.; SOUSA, S.I.de; Memórias do Vinho Gaúcho, Vol. 1, 1.ed, Porto Alegre; RS; AGE, 2014. 1.vol.; 280 p.; 


quinta-feira, 27 de junho de 2024

Espanha descobre duas variedades de uva que se adaptam às mudanças climáticas

 

Ambas, relativamente desconhecidas, estão relacionadas com a variedade Tempranillo, a mais difundida na Espanha, e mostraram resultados promissores em pesquisas que visam ajudar os produtores de vinho espanhóis a se adaptarem às mudanças climáticas.

A Tempranillo é a casta tinta mais cultivada na Espanha, representando 42% do número total de castas tintas e 21% da área total de vinhedos, o que equivale a mais de 201.000 hectares. É a uva mais importante da Península Ibérica, que atinge o status de nobreza internacional. Esta variedade é reconhecida internacionalmente pela sua contribuição para os grandes vinhos tintos da Espanha, é a quarta variedade mais plantada no mundo e é considerada uma das nove uvas tintas mais importantes da Europa. 

No entanto, nas últimas décadas, as alterações climáticas têm afetado cada vez mais a sua produção. Isso ficou comprovado em muitas zonas vitivinícolas do Sul da Espanha, onde a sua produção está sendo gravemente afetada pelas alterações climáticas, razão pela qual é urgente procurar alternativas, devido a sua importância econômica na vitivinicultura do país.

Existe uma preocupação especial de que a viabilidade do futuro cultivo desta casta na Espanha seja comprometida pelos efeitos das mudanças climáticas. Essa preocupação ocorre especialmente em algumas zonas onde ela é tradicionalmente cultivada, e as mais famosas, que incluem a Rioja, Ribera del Duero, Toro e La Mancha, salientadas no mapa que segue.


Um estudo desenvolvido recentemente chamou atenção de que cerca de 90% das regiões vitivinícolas tradicionais nas regiões costeiras e baixas da Espanha podem correr o risco de desaparecer até o final do século, devido à seca excessiva e às ondas de calor mais frequentes. 

À medida que a Espanha se vê confrontada, ano após ano, com calor e condições meteorológicas extremas, a necessidade do país encontrar formas de se adaptar a um clima em mudança, tem ficado mais presente e, tem havido avisos de que a situação pode piorar.

Em um estudo realizado pelo Instituto da Vinha e do Vinho de Castilla-La Mancha (IVICAM) e pelo Instituto Regional de Pesquisas e Desenvolvimento Agroalimentar (IRIAF), no âmbito do projeto “Avaliação do comportamento de diferentes castas cultivadas em condições de seca”, desenvolvido no contexto da tese de doutorado de Sergio Serrano Parra, foram identificas duas variedades de videira alternativas à uva Tempranillo para adaptar-se às mudanças climáticas: Benedicto e Moribel. 

Para tal, foi utilizado um vinhedo experimental localizado em Tomelloso, província de Ciudad Real, na região de Castilla-La Mancha, no centro da Espanha, onde o clima é Temperado Mediterrâneo, com invernos rigorosos, verões quente, chuvas irregulares com estiagem no verão, fortes oscilações térmicas e notável aridez e a altitude está em torno de 660m. Veja a localização no mapa da área onde os estudos foram realizados.


As variedades Benecito, Tempranillo e Moribel, foram cultivadas e monitoradas durante duas temporadas consecutivas, sendo a variedade Benedicto, a principal variedade, e em menor a Moribel. Ambas são aparentadas com a Tempranillo e poderiam se tornar futuras alternativas para a variedade tinta mais difundida na Espanha. As videiras foram cultivadas sob dois regimes diferentes de déficit hídrico (seco e úmido, respectivamente).


Os resultados sugerem que as variedades Benedicto e Moribel, pai e descendente da uva Tempranillo respectivamente, são capazes de ter um desempenho relativamente bom em condições de estresse térmico e seca. Estas variedades, relativamente desconhecidas, mostraram resultados promissores em pesquisas que visam ajudar os produtores espanhóis a se adaptarem às mudanças climáticas.

Os resultados obtidos mostram que: 

  • A uva Benedicto apresenta características qualitativas superiores às da Tempranillo, posicionando-se como uma excelente alternativa para o futuro. É uma uva que atualmente é cultivada de forma residual em Aragón;
  • Em menor proporção, a Moribel também supera a Tempranillo em atributos como acidez e pH, agregando valor significativo;
  • Os pesquisadores do IRIAF descobriram que a Benedicto superou a Tempranillo em algumas análises qualitativas, colocando-a em posição de ser uma excelente alternativa de uva para vinificação futura;
  • A pesquisa mostrou que a Moribel possui acidez superior à da Tempranillo, o que também pode ser fundamental para a elaboração dos vinhos equilibrados no futuro;
  • Tanto a Benedicto como a Moribel tiveram rendimentos maiores e frutos menores que a Tempranillo, favorecendo a qualidade;
  • Os parâmetros de qualidade das uvas foram comparáveis na Moribel e Tempranillo, mas inferiores aos da Benedicto;
  • Os resultados obtidos sugerem que quando cultivadas em condições hídricas restritivas, tanto a Benedicto quanto a Moribel se comportam melhor que a Tempranillo. Portanto, num futuro próximo é provável que o cultivo destas variedades, até então desconhecidas, aumente nas zonas semiáridas, em detrimento da Tempranillo;
  • Embora os vinhos elaborados com estas duas castas compartilhem um perfil organoléptico semelhante ao da Tempranillo, e tiveram um desempenho igualmente bom na sala de degustação, os pesquisadores descobriram que os provadores manifestaram uma clara preferência pelos vinhos Benedicto e Moribel, aos elaborados com a uva Tempranillo;
  • Isso sugere que a incorporação destas castas alternativas poderia ajudar os produtores de vinho não apenas a preservar, mas até mesmo melhorar os vinhos produzidos com a uva Tempranillo, sob condições cada vez mais adversas de um clima cada vez mais quente. 

Fontes:

https://www.diariosur.es/antropia/descubren-dos-variedades-uva-adaptan-cambio-climatico-20240609123453-ntrc.html; 

https://content.paodeacucar.com/vinhos/uva-tempranillo

https://www.decanter.com/wine-news/tempranillo-grape-relatives-show-promise-in-climate-study-532894/

https://ives-openscience.eu/33829/

https://blogriojaalavesa.eus/uva-benedicto/

https://laprensadelrioja.com/vinos-y-bodegas-2/benedicto-progenitor-del-tempranillo-hace-mas-de-500-anos-aparece-en-el-vinedo-riojano-i/

https://www.agroclm.com/2022/02/17/hallan-varias-cepas-de-la-variedad-de-uva-considerada-madre-del-tempranillo/

https://www.ptvino.com/es/cepas-de-benedicto-la-madre-del-tempranillo-encontradas-en-dominio-de-cair-ribera-del-duero/

Se beber, não dirija!



quarta-feira, 29 de maio de 2024

GEOGRAFIA DO VINHO - O VINHO E OS DESASTRES NATURAIS OCORRIDOS NO RIO GRANDO DO SUL

Creio que alguns de vocês sabem que além de sommelière e grande apreciadora de vinhos, sou graduada  e doutora em Geografia e, sou gaúcha. Quem acompanha as minhas publicações já deve ter se acostumado com o toque geográfico que gosto de abordar o mundo do vinho. Sabe também que sou autora do livro Geografia do Vinho: As grandes regiões vitivinícolas brasileiras, publicado pela Editora Idesf e escrito em parceria com dois colegas, o Dr. Marco Antonio Fontoura Hansen-UNIPAMPA e o Físico e Winemaker Antônio Pedro Coco-ABW. 

Por alguns anos coordenei  um grupo de pesquisas sobre desastres naturais-GEODESASTRES-SUL/INPE e participei de várias atividades nacionais e internacionais da UN-SPIDER, grupo das Nações Unidas que trata do tema. 

Região do interior  de Bento Gonçalves, RS, foi atingida por deslizamentos de terra. A previsão de chuva acende o alerta para risco de novos episódios. Neimar De Cesero / Agencia RBShttps://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/geral/noticia/2024/05/prefeitura-de-bento-goncalves-estima-que-150-pessoas-devam-deixar-faria-lemos-e-tuiuty-clvy48u1r003a01am3yt3iib5.html

Nesse momento em que o Rio Grande do Sul, o maior estado produtor de vinhos no país, está passando por eventos desastrosos que afetam profundamente a sua economia e a vida de toda sua população, eu não poderia deixar de escrever um artigo, do ponto de vista geográfico, sobre os eventos severos que afetaram todo o estado neste mês de maio e suas consequências nos municípios vitivinícolas 

Como amplamente divulgado na imprensa nacional e internacional e vivenciado de forma dramática pelo povo gaúcho, o Rio Grande do Sul foi assolado por chuvas pesadas e constantes que afetaram 464 (93%) municípios dos 497 existentes no estado. 

Nunca antes - nem mesmo na inundação ocorrida em1941, que até o momento era o marco mas excepcional de inundações no estado e na capital gaúcha - o Rio Grande do Sul  foi assolado por uma tragédia sem precedentes que teve seu início no final de abril, e que até o momento seus efeitos ainda são sentidos de  forma tão dramática. 

A combinação de imagens dos satélites Amazonia-1 e CBERS-4, do INPE, que segue,  dá uma ideia da área atingida pelos desastres em toda bacia hidrográfica do Guaíba e de seus respectivos afluentes, onde está salientada a bacia do Taquari-Antas, onde se localiza região vitivinícola da Serra Gaúcha.


Vocês devem estar se perguntando "a região vitivinícola da Serra Gaúcha atingida pelos desastres conforme amplamente divulgado nos últimos dias, pelos meios de comunicação, pode ser visitada e ainda por cima degustarmos bons vinhos?" 

A resposta é sim, os vinhedos e as vinícolas não foram atingidos (com exceção de duas) e os consumidores podem visitá-las e comprar os seus vinhos, que também não foram atingidos. A safra de 2024 está garantida. Essa informação é verdadeira. 

Para sorte dos produtores de vinho e de  nós consumidores, agora, no momento em que ocorreram os desastres no Rio Grande do Sul, as videiras já perderam as folhas e estão se encaminhando para o seu período de dormência. A colheita aqui no estado em geral é finalizada na segunda quinzena de março o que significa que quando as chuvas começaram, na ultima semana de abril, toda a safra já estava colhida e as uvas processadas. 

Mas isso não significa que os municípios vitivinícolas não estejam enfrentando dificuldades, ao contrário, principalmente os da Serra Gaúcha, em especial Bento Gonçalves, onde ocorreram vários deslizamentos, muitas estradas seguem interditadas ou com restrições de acesso. Isso seguramente, deverá impactar,  por um tempo, o enoturismo na região e o transporte dos vinhos até o consumidor final.  

Nessa carta imagem, cada ponto na cor amarela é uma área de deslizamento. Esse meandro do rio das Antas que aparece na carta imagem, é bastante conhecido por todos que visitam Bento Gonçalves. 

O Núcleo de Risco Geológico de Bento Gonçalves, que realiza o detalhamento das áreas afetadas, registrou 84 bloqueios em estradas do município, entre elas tem-se as nacionais, estaduais e municipais. 

As áreas de serra são as mais propicias para deslizamentos, principalmente em períodos de chuva excessiva e, muitos vinhedos do estado estão localizados em regiões  de serra. A Emater-RS estima que pelo menos 500 hectares de vinhedos foram danificados, do total de 44 mil existentes no Rio Grande do Sul, sendo que 2% deles estariam comprometidos. Este total ainda pode crescer, conforme os técnicos forem acessando as propriedades. 

O mapa que segue mostra os municípios afetados em vermelho, são os que decretaram Estado de Calamidade Pública ou Situação de Emergência. Do total de 464 afetados, 78 decretaram Estado de Calamidade Publica e destes, 14 são municípios vitivinícolas, sendo que a maioria deles estão localizado na região da Serra Gaúcha. Os municípios apontados no mapa são produtores de vinho.  

 


De acordo com a Defesa Civil, o Estado de Calamidade Pública, é o reconhecimento legal pelo poder público de situação anormal, provocada por desastres, causando sérios danos à comunidade afetada, inclusive a incolumidade (isenção de perigo, de dano; segurança) ou à vida de seus integrantes.  Essa medida é tomada quando ocorrem situações emergenciais que fogem à normalidade e demandam investimentos de recursos extraordinários. 

Como exemplo tem-se Bento Gonçalves, onde ocorreram 150  deslizamentos e 84 bloqueios de estradas. Os deslizamentos destruíram casas,  lavouras e os bloqueios de estrada  dificultam alguns acessos, o que poderá afetar o enoturismo na região (https://globoplay.globo.com/v/12631940/). Esta atividade é importante para as vinícolas, uma vez que ao redor de 50% de suas vendas é fruto das visitas dos consumidores as suas instalações, ou seja, do enoturismo. Mas os órgãos encarregados da manutenção de estradas estão atuando fortemente para restabelecer todos os acessos na região, principalmente porque ela é um importante polo industrial do estado que exporta vários produtos, não apenas vinho,  para vários países. 

O mapa que segue mostra a localização de alguns dos 69 municípios vitivinícolas, dentre os 385 que  decretaram  Situação de Emergência, em todo o estado. 
De acordo com a Defesa Civil, Situação de Emergência, é o reconhecimento legal pelo poder público de situação anormal, provocada por desastres, causando danos superáveis (suportáveis) pela comunidade afetada. O comprometimento é parcial,  a crise é menos grave e ainda não afetou a população. Assim, os esforços de recuperação deste municípios vitivinícolas do Rio Grande do Sul, não demandarão tantos esforços como os que foram afetados na Serra Gaúcha  e estão em Estado de Calamidade Pública. Sendo assim, todos os municípios vitivinícolas que se encontram nessa situação, continuam com suas atividades normalmente, em todo o estado. 

No recorte da região vitivinícola da Serra Gaucha, que eu fiz utilizando dados do topographic-map.com em preto estão identificados os municípios que decretaram estado de Calamidade Publica e em azul os que decretaram Situação de Emergência. 


Ironicamente, no momento é mais fácil para um amante do vinho que mora em outro estado do Brasil chegar a Bento Gonçalves, para tomar o seu vinho tranquilamente, do que eu que moro em Porto Alegre. Com as inundações a cidade ficou isolada por alguns dias, pois todos os acessos de saída ou entrada estavam cobertos por água. Na última semana foram criados dois corredores emergenciais que nos permitem sair-entrar na cidade e ontem foi criado mais um que dá acesso a Freeway.  

Já as pessoas de outros estados que se dirigem para Bento Gonçalves, por avião, tem a sua disposição o aeroporto de Caxias do Sul, que fica a poucos quilômetros de distância. O aeroporto de Porto Alegre, o maior do estado, continuada inundado. O acesso por rodovia, pelo norte do estado, também está mais facilitado,  do que de Porto Alegre para Bento Gonçalves. É essa rota, pelo norte do estado, fronteira com Santa Catariana,  que é utilizada por caminhos com doações vindas de todos os cantos do país.  

Nada é mais importante em um momento como esse, onde muitos perderam praticamente tudo o que tinham, do que contar com o apoio de bons amigos. Um exemplo  disso, foi o apoio recebido pelo proprietário da Valparaiso Vinhos e Vinhedo, localizada no município de  Barão, na Serra Gaúcha. 

Arnaldo Antônio Argenta teve parte de sua vinícola destruída pelas chuvas. Apesar disso, ele e sua filha Naiana Argenta, seguem acreditando na vinícola, sem perder a essência do que fazem. Porém, Lucas Foppa, sócio-propietário da Vinícola Tenuta Foppa e Ambrosi de Garibaldi e Felipe Bebber, enólogo da Vinícola Familia Bebber, que já havia passado por situação semelhante em novembro de 2023, ao saberem do ocorrido mobilizaram suas equipes para auxiliar na limpeza pesada para que a Valparaiso pudesse começar a se reerguer. 


Uma coisa é certa, apesar de todas as dificuldades pelas quais o Rio Grande do Sul está passando nesse momento, das várias tragédias ocorridas, os amantes do vinho não precisam ficar temerosos de que esse precioso líquido possa faltar. Ele está lá nas vinícolas esperando por nós.

Talvez, por problemas de logística causados pelo atual estado precário de algumas estradas ou pela limitação de voos para o Rio Grande do Sul por causa dos danos causados ao nosso principal aeroporto, o vinho possa demorar um pouquinho mais para chegar as suas mãos. Mas acreditem, ele chegará e não faltará. 

Assim, continuem comprando e bebendo vinho gaúcho, a safra de 2024 está esperando por vocês!


Se beber, não dirija!

Fontes: 
https://bentogoncalves.atende.net/cidadao/noticia/nucleo-de-riscos-geologicos-84-bloqueios-em-estradas-do-municipio-foram-registrados
https://disasterscharter.org/
https://pt-br.topographic-map.com/

https://www.canalrural.com.br/agricultura/vinhedos-sao-devastados-por-enchente-no-rs-e-setor-luta-pela-recuperacao/







GEOGRAFIA DO VINHO - OS EFEITOS DO SUPER EL NIÑO 2026-2027 NO PANORAMA MUNDIAL DO VINHO

Cientistas estão anunciando a configuração de um poderoso El Niño, com o aquecimento do Pacífico Equatorial entre agosto e outubro-2026, int...