terça-feira, 23 de julho de 2024

A IMIGRAÇÃO ALEMÃ, O VINHO E O DIA DO COLONO NO SUL DO BRASIL

 

Quadro do pintor alemão Ernst Zeuner retratando a chegada dos primeiros 39 imigrantes alemães a São Leopoldo-RS. Fonte: https://cortinadopassado.com.br/2019/07/25/195-anos-da-imigracao-alemao-no-brasil/

No dia 18 de julho de 1824 chegaram a Porto Alegre-RS os primeiros colonos alemães, vindos do porto de Hamburgo. Por ordem do Presidente da Província, o Visconde de São Leopoldo, foram encaminhados para um vilarejo conhecido como Feitoria do Linho-Cânhamo, desativada, à margem esquerda do Rio dos Sinos.

Nessa viagem, rio acima, desde Porto Alegre, essas primeiras 9 famílias de imigrantes alemães (38 adultos + 1 bebê que nasceu na viagem ao Brasil) seguramente se defrontaram com uma paisagem exuberante totalmente diferente de seu país de origem. Uma curiosidade, desses 39 imigrante, 6 eram católicos e 33 eram evangélicos Luteranos, algo até então totalmente desconhecido por aqui.

Do rio, os imigrantes foram levados em carretas de boi até a Feitoria, na então recém criada Colônia Alemã de São Leopoldo, no dia 25 de julho de 1824, um domingo, data da fundação do primeiro núcleo de colonização alemã no sul do Brasil e que viria a transformar-se em uma das cidades de origem alemã no Estado, o atual município de São Leopoldo.

Ou seja, esse ano estamos comemorando 200 anos da chegada dos primeiros imigrantes alemães ao Sul do país. Essa data é festejada em todos os quadrantes da região Sul do Brasil, em especial no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, onde a influência dos imigrantes alemães ainda é notada e onde se encontram seu descendentes, como o Dia do Colono.

 A definição desta data comemorativa deu-se em 1924, em meio às comemorações do centenário da chegada da primeira leva de imigrantes alemães à cidade de São Leopoldo. No dia 5 de setembro de 1968 foi sancionada, pelo então presidente Artur da Costa e Silva, a Lei nº 5.496, que instituiu oficialmente o “Dia do Colono”. Apesar de não ser um feriado nacional, muitos municípios do Sul do país adotaram a data comemorativa para celebrar as suas origens.

Até a metade do século XIX a região Sul do Brasil ainda continuava com vários territórios inabitados, o que despertava a cobiça dos vizinhos castelhanos. Assim, o governo imperial, movido pela fartura de terras no pais, pelo desejo de povoar a região e garantir a posse do território, aliado aos frequentes problemas sociais que ocorriam na Europa criou um projeto colonizador de larga escala e longa duração, trazendo para o país vários imigrantes alemães.

Esse movimento migratório teve início em 1824, com a chegada dos primeiros imigrantes e se manteve relativamente constante até a década de 1960.  Entre 1824 e 1972, cerca de 260.000 alemães entraram no Brasil, a quinta nacionalidade que mais imigrou para o país, após os portugueses, italianos, espanhóis e japoneses. 

No Rio Grande do Sul, esses imigrantes foram assentados principalmente, nos médios e baixos cursos das bacias hidrográficas dos rios Jacuí, Pardo e Pardinho, Taquari, Caí e Sinos, todos componentes da Bacia Hidrográfica do Guaíba, conforme apresentado no mapa que segue.  


Em Santa Catarina, os primeiros colonos alemães chegaram em 1829, ocupando o que é hoje a cidade de São Pedro de Alcântara. Mas o fluxo de imigrantes cresceu apenas após 1850 e, a atual cidade de Joinville é fruto de uma fase de ocupação de outra região da província a partir de 1851, quando a imigração alemã se expandiu para todo o norte do estado.

O legado dessa imigração alemã, pode ser notada na influência cultural, em diferentes áreas, como na diversificação da agricultura brasileira, na implantação de um “novo modelo agrícola” com base em pequenas propriedades rurais e na agricultura familiar, e que mais tarde também foi adotada pelos imigrantes italianos. Influenciaram também, no processo de urbanização e de industrialização do Brasil, bem como na introdução e modificações na arquitetura das cidades e na paisagem físico-social brasileira.

Os imigrantes alemães trouxeram também o processo de construção de casas em estilo enxaimel - típico alemão - que consiste em vigas de madeira verticais, horizontais e diagonais, que são encaixadas e os espaços entre si preenchidos por pedras ou tijolos, e que ainda hoje pode ser visto em muitas casas das cidades do interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. 

Casa construída no estilo enxaimel, na cidade de Ivoti, RS

https://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotoDirectLink-g2572696-d10200608-i246243373-Buraco_do_Diabo-Ivoti_State_of_Rio_Grande_do_Sul.html

Mas há também, uma atividade que se evidenciou nas colônias de imigrantes alemães no Rio Grande do Sul, que a grande maioria das pessoas desconhecem. É o interesse pela viticultura de quintal, uma vez que muitos conheciam e apreciavam o vinho e a vitivinicultura praticada em sua terra natal. Parte deles eram procedentes das regiões do Reno e Mosel (principais regiões vitivinícolas da Alemanha) e dedicaram-se à produção de videiras. Os alemães não tomam só chopp ou cerveja, eles tomam muito vinho.

Em função disso em 1825, foi enviado para o Rio Grande do Sul, por Dom Pedro I, o técnico italiano João Batista Orsi, com a finalidade de incentivar a cultura da videira e em sua bagagem ele trouxe uma boa quantidade de bacelos. Paralelamente, os alemães também aproveitaram as cepas lusitanas que já estavam presentes pelas redondezas, trazidas pelos açorianos e as propagaram pelos seus lotes coloniais. Foi na Linha São Jacob, no município de São Sebastião do Caí que Orsi aportou e dedicou seu tempo incentivando a viticultura na região de colonização alemã.

Dal Pizzol e Sousa, mencionam em sua trilogia “Memórias do Vinho Gaúcho-Vol.1” (2014), que em 1839, a viticultura baseada na casta americana Isabel enfrentava bem as condições climáticas e de solo locais, oferecendo copiosas colheitas nas pérgolas dos quintais. Foi a partir de Porto Alegre que a uva Isabel seguiu rumo aos afluentes do Guaíba (mostrado na mapa) e, levada principalmente pelos imigrantes alemães, alastrou-se numa escalada pelos povoamentos dos vales dos rios dos Sinos, Taquari e Caí.

Com a fundação da Colônia de Feliz (atual munícipio de Feliz), em 1845, iniciou-se a produção de vinho não apenas para o consumo próprio mas também para o mercado, uma vez que as características do solo da região e a maior altitude (120m) se prestavam especialmente para o cultivo da uva. Esse vinho era vendido, inicialmente, nas redondezas para comerciantes e particulares e, claro consumido nos Kerbs (festa com baile, exclusiva da comunidade alemã), casamentos e outras comemorações familiares (Werle, 2021).

A viticultura dos imigrantes alemães não prosperou como se desejava, ficando limitada a produzir vinhos para consumo próprio. Desde o início da colonização alemã até o ano de 1875, quando chegaram os primeiros imigrantes italianos ao Rio Grande do Sul, a uva foi cultivada na região dos municípios de São Leopoldo e, depois levada até Montenegro, São Sebastião do Caí, Bom Princípio, Feliz e outros povoados.

Não podemos esquecer que essa região onde foram instaladas as colônias alemãs, ao longo dos rios (que eram as estradas da época), devido a sua alta umidade, alta precipitação e também facilidade de ocorrência de inundações, não eram as ideais para a viticultura. Sabe-se que a videira não prospera de forma adequada em lugares com altos índices de umidade, em especial a Vitis Vinífera, por essa razão os vinhos da época, eram essencialmente feitos com uvas Vitis Labrusca, como a variedade Isabel, mais resistentes as características climáticas da região.  Com o tempo e o progresso da vitivinicultura no país, os produtores foram aprendendo a enfrentar e a driblar as adversidades do clima da região e com isso a Vitis Vinifera prosperou. 

Dal Pizzol e Sousa (2014), mencionam que no início da colonização italiana na Serra Gaúcha, quando os imigrantes subiam para essa região, em Feliz havia um ponto de parada onde eles se supriam de suas necessidades básicas. Essa era uma das rotas principais utilizada por eles de subida para a Serra. 

Estes, ao colonizarem essa região, desempenharam papel fundamental no surgimento da vitivinicultura brasileira, quando conseguiram suas primeiras mudas de Isabel. Os imigrantes alemães do Vale do Cai fizeram a transferência de mudas de videiras para os imigrantes italianos da Serra, que deram origem a seus pequenos vinhedos nos terrenos limpos de cultura ou em novas áreas desmatadas marcando, assim, o momento histórico do nascedouro da vitivinicultura da Serra Gaúcha (Dal Pizzol e Sousa, 2014).

Durante 50 anos os imigrantes alemães foram os pioneiros na produção de vinho na região sul do Brasil. Entre 1824 e 1875, eles detinham o monopólio da produção. Porém os alemães não tinham pendor para as lides de vinhateiros. Seus interesses estavam mais voltados para a pequena manufatura doméstica e a industrialização de produtos bovinos e suínos, na qual se destacaram.  Mas, com a chegada dos colonos italianos houve uma maior difusão da vitivinicultura e, o intercâmbio de mudas e de conhecimentos entre ambas as culturas, favoreceram a implantação da vitivinicultura na Serra Gaúcha.

Veja no mapa que segue a distribuição dos imigrantes alemães e italianos no Rio Grande do Sul em 1924.

 



Infelizmente não consegui encontrar nenhuma foto referente aos vinhedos ou de qualquer atividade vitivinícola praticada pelos alemães.


Se beber, não dirija!

Fontes:

https://www.correiodopovo.com.br/especial/imigraçaõ-alemã-colonização-se-da-em-diferentes-municípios-do-rio-grande-do-sul-1.1469027

https://i.pinimg.com/originals/64/97/d0/6497d0c524dee941863f55e5e44c62ed.jpg

https://www.vinicolacampestre.com.br/blog/voce-conhece-a-historia-do-vinho-durante-a-colonizacao/#

Alemães e vinho: eles estão entre os pioneiros na produção da bebida no RS https://ilovevinhos.com.br/alemaes-e-vinho-eles-entre-os-pioneiros-na-producao-da-bebida-no-rs/

Os primeiros imigrantes alemães no Rio Grande do Sul

https://familia.dienstmann.com.br/primeira-leva-imigrantes-alemaes/

 

https://cortinadopassado.com.br/2019/07/25/195-anos-da-imigracao-alemao-no-brasil/

https://pt.wikipedia.org/wiki/Imigração_alemã_no_Brasil

BARROS, H.T.de; De Frankenthal ao Badensertol: uma viagem pelos nomes alemães dos vales do Caí e seus afluentes, Rio Grande do Sul; Onomástica desde América Latina, v.4, jan - dez, 2023, p. 1 – 31. ISSN 2675-2719;

https://e-revista.unioeste.br/index.php/onomastica/issue/view/13924

PIZZOL, R.D.; SOUSA, S.I.de; Memórias do Vinho Gaúcho, Vol. 1, 1.ed, Porto Alegre; RS; AGE, 2014. 1.vol.; 280 p.; 


quinta-feira, 27 de junho de 2024

Espanha descobre duas variedades de uva que se adaptam às mudanças climáticas

 

Ambas, relativamente desconhecidas, estão relacionadas com a variedade Tempranillo, a mais difundida na Espanha, e mostraram resultados promissores em pesquisas que visam ajudar os produtores de vinho espanhóis a se adaptarem às mudanças climáticas.

A Tempranillo é a casta tinta mais cultivada na Espanha, representando 42% do número total de castas tintas e 21% da área total de vinhedos, o que equivale a mais de 201.000 hectares. É a uva mais importante da Península Ibérica, que atinge o status de nobreza internacional. Esta variedade é reconhecida internacionalmente pela sua contribuição para os grandes vinhos tintos da Espanha, é a quarta variedade mais plantada no mundo e é considerada uma das nove uvas tintas mais importantes da Europa. 

No entanto, nas últimas décadas, as alterações climáticas têm afetado cada vez mais a sua produção. Isso ficou comprovado em muitas zonas vitivinícolas do Sul da Espanha, onde a sua produção está sendo gravemente afetada pelas alterações climáticas, razão pela qual é urgente procurar alternativas, devido a sua importância econômica na vitivinicultura do país.

Existe uma preocupação especial de que a viabilidade do futuro cultivo desta casta na Espanha seja comprometida pelos efeitos das mudanças climáticas. Essa preocupação ocorre especialmente em algumas zonas onde ela é tradicionalmente cultivada, e as mais famosas, que incluem a Rioja, Ribera del Duero, Toro e La Mancha, salientadas no mapa que segue.


Um estudo desenvolvido recentemente chamou atenção de que cerca de 90% das regiões vitivinícolas tradicionais nas regiões costeiras e baixas da Espanha podem correr o risco de desaparecer até o final do século, devido à seca excessiva e às ondas de calor mais frequentes. 

À medida que a Espanha se vê confrontada, ano após ano, com calor e condições meteorológicas extremas, a necessidade do país encontrar formas de se adaptar a um clima em mudança, tem ficado mais presente e, tem havido avisos de que a situação pode piorar.

Em um estudo realizado pelo Instituto da Vinha e do Vinho de Castilla-La Mancha (IVICAM) e pelo Instituto Regional de Pesquisas e Desenvolvimento Agroalimentar (IRIAF), no âmbito do projeto “Avaliação do comportamento de diferentes castas cultivadas em condições de seca”, desenvolvido no contexto da tese de doutorado de Sergio Serrano Parra, foram identificas duas variedades de videira alternativas à uva Tempranillo para adaptar-se às mudanças climáticas: Benedicto e Moribel. 

Para tal, foi utilizado um vinhedo experimental localizado em Tomelloso, província de Ciudad Real, na região de Castilla-La Mancha, no centro da Espanha, onde o clima é Temperado Mediterrâneo, com invernos rigorosos, verões quente, chuvas irregulares com estiagem no verão, fortes oscilações térmicas e notável aridez e a altitude está em torno de 660m. Veja a localização no mapa da área onde os estudos foram realizados.


As variedades Benecito, Tempranillo e Moribel, foram cultivadas e monitoradas durante duas temporadas consecutivas, sendo a variedade Benedicto, a principal variedade, e em menor a Moribel. Ambas são aparentadas com a Tempranillo e poderiam se tornar futuras alternativas para a variedade tinta mais difundida na Espanha. As videiras foram cultivadas sob dois regimes diferentes de déficit hídrico (seco e úmido, respectivamente).


Os resultados sugerem que as variedades Benedicto e Moribel, pai e descendente da uva Tempranillo respectivamente, são capazes de ter um desempenho relativamente bom em condições de estresse térmico e seca. Estas variedades, relativamente desconhecidas, mostraram resultados promissores em pesquisas que visam ajudar os produtores espanhóis a se adaptarem às mudanças climáticas.

Os resultados obtidos mostram que: 

  • A uva Benedicto apresenta características qualitativas superiores às da Tempranillo, posicionando-se como uma excelente alternativa para o futuro. É uma uva que atualmente é cultivada de forma residual em Aragón;
  • Em menor proporção, a Moribel também supera a Tempranillo em atributos como acidez e pH, agregando valor significativo;
  • Os pesquisadores do IRIAF descobriram que a Benedicto superou a Tempranillo em algumas análises qualitativas, colocando-a em posição de ser uma excelente alternativa de uva para vinificação futura;
  • A pesquisa mostrou que a Moribel possui acidez superior à da Tempranillo, o que também pode ser fundamental para a elaboração dos vinhos equilibrados no futuro;
  • Tanto a Benedicto como a Moribel tiveram rendimentos maiores e frutos menores que a Tempranillo, favorecendo a qualidade;
  • Os parâmetros de qualidade das uvas foram comparáveis na Moribel e Tempranillo, mas inferiores aos da Benedicto;
  • Os resultados obtidos sugerem que quando cultivadas em condições hídricas restritivas, tanto a Benedicto quanto a Moribel se comportam melhor que a Tempranillo. Portanto, num futuro próximo é provável que o cultivo destas variedades, até então desconhecidas, aumente nas zonas semiáridas, em detrimento da Tempranillo;
  • Embora os vinhos elaborados com estas duas castas compartilhem um perfil organoléptico semelhante ao da Tempranillo, e tiveram um desempenho igualmente bom na sala de degustação, os pesquisadores descobriram que os provadores manifestaram uma clara preferência pelos vinhos Benedicto e Moribel, aos elaborados com a uva Tempranillo;
  • Isso sugere que a incorporação destas castas alternativas poderia ajudar os produtores de vinho não apenas a preservar, mas até mesmo melhorar os vinhos produzidos com a uva Tempranillo, sob condições cada vez mais adversas de um clima cada vez mais quente. 

Fontes:

https://www.diariosur.es/antropia/descubren-dos-variedades-uva-adaptan-cambio-climatico-20240609123453-ntrc.html; 

https://content.paodeacucar.com/vinhos/uva-tempranillo

https://www.decanter.com/wine-news/tempranillo-grape-relatives-show-promise-in-climate-study-532894/

https://ives-openscience.eu/33829/

https://blogriojaalavesa.eus/uva-benedicto/

https://laprensadelrioja.com/vinos-y-bodegas-2/benedicto-progenitor-del-tempranillo-hace-mas-de-500-anos-aparece-en-el-vinedo-riojano-i/

https://www.agroclm.com/2022/02/17/hallan-varias-cepas-de-la-variedad-de-uva-considerada-madre-del-tempranillo/

https://www.ptvino.com/es/cepas-de-benedicto-la-madre-del-tempranillo-encontradas-en-dominio-de-cair-ribera-del-duero/

Se beber, não dirija!



quarta-feira, 29 de maio de 2024

GEOGRAFIA DO VINHO - O VINHO E OS DESASTRES NATURAIS OCORRIDOS NO RIO GRANDO DO SUL

Creio que alguns de vocês sabem que além de sommelière e grande apreciadora de vinhos, sou graduada  e doutora em Geografia e, sou gaúcha. Quem acompanha as minhas publicações já deve ter se acostumado com o toque geográfico que gosto de abordar o mundo do vinho. Sabe também que sou autora do livro Geografia do Vinho: As grandes regiões vitivinícolas brasileiras, publicado pela Editora Idesf e escrito em parceria com dois colegas, o Dr. Marco Antonio Fontoura Hansen-UNIPAMPA e o Físico e Winemaker Antônio Pedro Coco-ABW. 

Por alguns anos coordenei  um grupo de pesquisas sobre desastres naturais-GEODESASTRES-SUL/INPE e participei de várias atividades nacionais e internacionais da UN-SPIDER, grupo das Nações Unidas que trata do tema. 

Região do interior  de Bento Gonçalves, RS, foi atingida por deslizamentos de terra. A previsão de chuva acende o alerta para risco de novos episódios. Neimar De Cesero / Agencia RBShttps://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/geral/noticia/2024/05/prefeitura-de-bento-goncalves-estima-que-150-pessoas-devam-deixar-faria-lemos-e-tuiuty-clvy48u1r003a01am3yt3iib5.html

Nesse momento em que o Rio Grande do Sul, o maior estado produtor de vinhos no país, está passando por eventos desastrosos que afetam profundamente a sua economia e a vida de toda sua população, eu não poderia deixar de escrever um artigo, do ponto de vista geográfico, sobre os eventos severos que afetaram todo o estado neste mês de maio e suas consequências nos municípios vitivinícolas 

Como amplamente divulgado na imprensa nacional e internacional e vivenciado de forma dramática pelo povo gaúcho, o Rio Grande do Sul foi assolado por chuvas pesadas e constantes que afetaram 464 (93%) municípios dos 497 existentes no estado. 

Nunca antes - nem mesmo na inundação ocorrida em1941, que até o momento era o marco mas excepcional de inundações no estado e na capital gaúcha - o Rio Grande do Sul  foi assolado por uma tragédia sem precedentes que teve seu início no final de abril, e que até o momento seus efeitos ainda são sentidos de  forma tão dramática. 

A combinação de imagens dos satélites Amazonia-1 e CBERS-4, do INPE, que segue,  dá uma ideia da área atingida pelos desastres em toda bacia hidrográfica do Guaíba e de seus respectivos afluentes, onde está salientada a bacia do Taquari-Antas, onde se localiza região vitivinícola da Serra Gaúcha.


Vocês devem estar se perguntando "a região vitivinícola da Serra Gaúcha atingida pelos desastres conforme amplamente divulgado nos últimos dias, pelos meios de comunicação, pode ser visitada e ainda por cima degustarmos bons vinhos?" 

A resposta é sim, os vinhedos e as vinícolas não foram atingidos (com exceção de duas) e os consumidores podem visitá-las e comprar os seus vinhos, que também não foram atingidos. A safra de 2024 está garantida. Essa informação é verdadeira. 

Para sorte dos produtores de vinho e de  nós consumidores, agora, no momento em que ocorreram os desastres no Rio Grande do Sul, as videiras já perderam as folhas e estão se encaminhando para o seu período de dormência. A colheita aqui no estado em geral é finalizada na segunda quinzena de março o que significa que quando as chuvas começaram, na ultima semana de abril, toda a safra já estava colhida e as uvas processadas. 

Mas isso não significa que os municípios vitivinícolas não estejam enfrentando dificuldades, ao contrário, principalmente os da Serra Gaúcha, em especial Bento Gonçalves, onde ocorreram vários deslizamentos, muitas estradas seguem interditadas ou com restrições de acesso. Isso seguramente, deverá impactar,  por um tempo, o enoturismo na região e o transporte dos vinhos até o consumidor final.  

Nessa carta imagem, cada ponto na cor amarela é uma área de deslizamento. Esse meandro do rio das Antas que aparece na carta imagem, é bastante conhecido por todos que visitam Bento Gonçalves. 

O Núcleo de Risco Geológico de Bento Gonçalves, que realiza o detalhamento das áreas afetadas, registrou 84 bloqueios em estradas do município, entre elas tem-se as nacionais, estaduais e municipais. 

As áreas de serra são as mais propicias para deslizamentos, principalmente em períodos de chuva excessiva e, muitos vinhedos do estado estão localizados em regiões  de serra. A Emater-RS estima que pelo menos 500 hectares de vinhedos foram danificados, do total de 44 mil existentes no Rio Grande do Sul, sendo que 2% deles estariam comprometidos. Este total ainda pode crescer, conforme os técnicos forem acessando as propriedades. 

O mapa que segue mostra os municípios afetados em vermelho, são os que decretaram Estado de Calamidade Pública ou Situação de Emergência. Do total de 464 afetados, 78 decretaram Estado de Calamidade Publica e destes, 14 são municípios vitivinícolas, sendo que a maioria deles estão localizado na região da Serra Gaúcha. Os municípios apontados no mapa são produtores de vinho.  

 


De acordo com a Defesa Civil, o Estado de Calamidade Pública, é o reconhecimento legal pelo poder público de situação anormal, provocada por desastres, causando sérios danos à comunidade afetada, inclusive a incolumidade (isenção de perigo, de dano; segurança) ou à vida de seus integrantes.  Essa medida é tomada quando ocorrem situações emergenciais que fogem à normalidade e demandam investimentos de recursos extraordinários. 

Como exemplo tem-se Bento Gonçalves, onde ocorreram 150  deslizamentos e 84 bloqueios de estradas. Os deslizamentos destruíram casas,  lavouras e os bloqueios de estrada  dificultam alguns acessos, o que poderá afetar o enoturismo na região (https://globoplay.globo.com/v/12631940/). Esta atividade é importante para as vinícolas, uma vez que ao redor de 50% de suas vendas é fruto das visitas dos consumidores as suas instalações, ou seja, do enoturismo. Mas os órgãos encarregados da manutenção de estradas estão atuando fortemente para restabelecer todos os acessos na região, principalmente porque ela é um importante polo industrial do estado que exporta vários produtos, não apenas vinho,  para vários países. 

O mapa que segue mostra a localização de alguns dos 69 municípios vitivinícolas, dentre os 385 que  decretaram  Situação de Emergência, em todo o estado. 
De acordo com a Defesa Civil, Situação de Emergência, é o reconhecimento legal pelo poder público de situação anormal, provocada por desastres, causando danos superáveis (suportáveis) pela comunidade afetada. O comprometimento é parcial,  a crise é menos grave e ainda não afetou a população. Assim, os esforços de recuperação deste municípios vitivinícolas do Rio Grande do Sul, não demandarão tantos esforços como os que foram afetados na Serra Gaúcha  e estão em Estado de Calamidade Pública. Sendo assim, todos os municípios vitivinícolas que se encontram nessa situação, continuam com suas atividades normalmente, em todo o estado. 

No recorte da região vitivinícola da Serra Gaucha, que eu fiz utilizando dados do topographic-map.com em preto estão identificados os municípios que decretaram estado de Calamidade Publica e em azul os que decretaram Situação de Emergência. 


Ironicamente, no momento é mais fácil para um amante do vinho que mora em outro estado do Brasil chegar a Bento Gonçalves, para tomar o seu vinho tranquilamente, do que eu que moro em Porto Alegre. Com as inundações a cidade ficou isolada por alguns dias, pois todos os acessos de saída ou entrada estavam cobertos por água. Na última semana foram criados dois corredores emergenciais que nos permitem sair-entrar na cidade e ontem foi criado mais um que dá acesso a Freeway.  

Já as pessoas de outros estados que se dirigem para Bento Gonçalves, por avião, tem a sua disposição o aeroporto de Caxias do Sul, que fica a poucos quilômetros de distância. O aeroporto de Porto Alegre, o maior do estado, continuada inundado. O acesso por rodovia, pelo norte do estado, também está mais facilitado,  do que de Porto Alegre para Bento Gonçalves. É essa rota, pelo norte do estado, fronteira com Santa Catariana,  que é utilizada por caminhos com doações vindas de todos os cantos do país.  

Nada é mais importante em um momento como esse, onde muitos perderam praticamente tudo o que tinham, do que contar com o apoio de bons amigos. Um exemplo  disso, foi o apoio recebido pelo proprietário da Valparaiso Vinhos e Vinhedo, localizada no município de  Barão, na Serra Gaúcha. 

Arnaldo Antônio Argenta teve parte de sua vinícola destruída pelas chuvas. Apesar disso, ele e sua filha Naiana Argenta, seguem acreditando na vinícola, sem perder a essência do que fazem. Porém, Lucas Foppa, sócio-propietário da Vinícola Tenuta Foppa e Ambrosi de Garibaldi e Felipe Bebber, enólogo da Vinícola Familia Bebber, que já havia passado por situação semelhante em novembro de 2023, ao saberem do ocorrido mobilizaram suas equipes para auxiliar na limpeza pesada para que a Valparaiso pudesse começar a se reerguer. 


Uma coisa é certa, apesar de todas as dificuldades pelas quais o Rio Grande do Sul está passando nesse momento, das várias tragédias ocorridas, os amantes do vinho não precisam ficar temerosos de que esse precioso líquido possa faltar. Ele está lá nas vinícolas esperando por nós.

Talvez, por problemas de logística causados pelo atual estado precário de algumas estradas ou pela limitação de voos para o Rio Grande do Sul por causa dos danos causados ao nosso principal aeroporto, o vinho possa demorar um pouquinho mais para chegar as suas mãos. Mas acreditem, ele chegará e não faltará. 

Assim, continuem comprando e bebendo vinho gaúcho, a safra de 2024 está esperando por vocês!


Se beber, não dirija!

Fontes: 
https://bentogoncalves.atende.net/cidadao/noticia/nucleo-de-riscos-geologicos-84-bloqueios-em-estradas-do-municipio-foram-registrados
https://disasterscharter.org/
https://pt-br.topographic-map.com/

https://www.canalrural.com.br/agricultura/vinhedos-sao-devastados-por-enchente-no-rs-e-setor-luta-pela-recuperacao/







sábado, 27 de abril de 2024

GEOGRAFIA DO VINHO - MUDANÇAS CLIMÁTICAS: COMO ELAS ESTÃO AFETANDO A VITIVINICULTURA NOS QUATRO CANTOS DO MUNDO

 

Mudança climática se refere as transformações de longo prazo nos padrões de temperatura e clima. Essas alterações podem ser naturais, porém, desde o século 18 as atividades humanas têm sido sua principal causa, notadamente devido a queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás), que produzem gases que retêm o calor.

A queima desses combustíveis gera emissões de gases de efeito estufa que agem como um grande cobertor em torno da Terra, retendo o calor do sol e aumentando as temperaturas, como demonstrado na figura que segue.


Pequenas mudanças na temperatura média global podem causar mudanças importantes e perigosas no tempo e no clima. Se ela acontecerem regularmente por meses em uma dada região que depende de um ciclo natural de acumulação de neve no inverno e de precipitação na primavera, ou, ocorrerem em áreas tradicionais de vitivinicultura que dependem do ciclo natural das quatro estações para o bom desenvolvimento dos vinhedos, isso pode promover uma grande mudança na dinâmica do lugar, alterando a vida cotidiana e até mesmo as fontes de renda das pessoas, como por exemplo a produção de uvas para vinho. 

Compreender a influência das mudanças climáticas no potencial de produção de vinhos é uma grande preocupação científica. Pelo menos uma centena de trabalhos científicos e reportagens sobre o tema já foram publicados, mostrando os efeitos importantes  na vitivinicultura e no nosso vinho de cada dia.  

A história mostra que as estreitas zonas climáticas (30° a 50° N e S) para o cultivo de uvas para vinho são especialmente propensas as variações do clima e as mudanças climáticas de longo prazo. As uvas viníferas são sensíveis às condições climáticas, como temperatura, excesso de chuva e seca extrema. 

Em geral os efeitos das mudanças climáticas tem chamado mais atenção em vinhedos localizados em países do hemisfério Norte que, por ter maior quantidade de terras emersas  do que o hemisfério Sul  e, de regiões vitivinícolas  localizadas principalmente em  áreas  com maior continentalidade (salientadas no mapa que segue), já sofrem de maneira mais acentuada os efeitos dessas mudanças. 


 

Mas, tais efeitos já são visíveis em todo o mundo, mesmo aqui no Brasil e nas regiões vitivinícolas da América do Sul, África, Austrália e Nova Zelândia, onde as áreas emersas são menores. Eles afetam no rendimento dos vinhedos, na composição das uvas e na qualidade dos vinhos, com consequências já e a serem observadas em breve na geografia da produção do vinho. 

O tipo de clima de uma região influencia decisivamente no tipo de uva e de vinho que irá produzir. As alterações climáticas podem criar mudanças dramáticas nos locais de produção do vinho, como por exemplo tornando os vinhedos insustentáveis em algumas regiões, mas abrindo novas oportunidades em outras. Um exemplo disso é o que se observa no Sul da Inglaterra, país com pouca tradição de vitivinicultura, mas que atualmente, vem sendo uma nova opção de terroir para a produção de espumantes.

Porém, essa adaptação as novas regiões vitivinícolas não significa, necessariamente,  que nelas poderão ser  produzidas as mesmas variedades de uvas,  para vinhos ou espumantes,  que tradicionalmente são produzidas na França, Itália e California,  por exemplo. 

As atuais e mais tradicionais regiões vitivinícolas estão localizadas principalmente em latitudes médias (30° a 50° N  e S), tais como a Califórnia nos Estados Unidos, Sul da França; Norte da Espanha e Itália; Vale do Barossa na Austrália; Stellenboch na África do Sul; Mendoza na Argentina; Vale Central no Chile; Campanha Gaucha e Serra do Sudeste no  Brasil. Nelas é onde o clima é quente o suficiente para permitir o amadurecimento das uvas, sem calor excessivo e relativamente seco para evitar forte pressão de doenças. 

Em março deste ano, pesquisadores da Université de Bordeaux e Université de Bourgogne publicaram um artigo na renomada revista Nature Reviews Earth and Environment, com os resultados de um estudo cientifico  onde eles  analisaram as tendências futuras nas regiões vitivinícolas atuais e em desenvolvimento em todo o mundo para adaptar a produção de vinho às mudanças climáticas

Nesse estudo eles abordaram as consequências das alterações de temperatura, precipitação, umidade, radiação solar e CO2 na produção global de vinho, bem como exploraram estratégias de adaptação. Os pesquisadores  mapearam como  a distribuição global dos vinhedos provavelmente mudará, em função do aquecimento global. Como resultado,  concluíram que a geografia da produção do vinho  no mundo está mudando, conforme demonstrado no mapa que segue, elaborado pelos autores do artigo



Nessa figura a adequação atual nas regiões continentais é notada pelo sombreado verde dos hexágonos, desde menos adequado (verde claro) até mais adequado (verde mais escuro). A variação das cores em tons de rosa dos hexágonos, expressa o potencial de adequação das novas áreas vitivinícolas, com grande ênfase para os países mais ao norte da Europa. 

A mudança futura de adequação nessas regiões é notada pela cor dos pontos dentro dos hexágonos de acordo com a chave (níveis de adequação de mudanças): o ponto da esquerda representa a mudança para um cenário em que há aquecimento global de até 2 °C; o ponto da direita a mudança para um aquecimento de 2-4 °C; o tamanho do ponto (maior ou menor) representa a confiança da avaliação.

Os resultados do estudo, mostram que cerca de 90% das regiões vitivinícolas tradicionais costeiras e de baixas altitudes do sul da Europa (Espanha, Itália e Grécia) e Sul da Califórnia poderão já não ser capazes de produzir bons vinhos em condições economicamente sustentáveis ​​até o final do século, se o aquecimento global exceder +2°C. Devido as alterações climáticas, elas estariam sujeitas à seca excessiva e às ondas de calor  mais frequentes, o que já vem ocorrendo atualmente. 

Por outro lado, as temperaturas mais elevadas  poderiam aumentar a aptidão de outras regiões para a produção de vinhos de qualidade (legenda em azul no mapa), como por exemplo o Norte da França, os estados de Washington e Oregon nos Estados Unidos, a província  Colúmbia Britânica no Canadá e a Tasmânia na Austrália. Adicionalmente poderia impulsionar o surgimento de novas regiões vitivinícolas, como já vem ocorrendo no Sul da Inglaterra (50°N) ou de países localizados em  latitudes maiores ainda como  os Países Baixos (52° N), a Dinamarca (55° N) e a Suécia (59°N) onde já existem algumas áreas de vitivinicultura. 



O grau destas alterações na adequação das zonas vitivinícolas depende fortemente do nível de aumento da temperatura. Adicionalmente, os estudos  descobriram que o surgimento de novas doenças e pragas, e um aumento na frequência de eventos extremos (geadas, nevascas, temporais, secas extremas), também desafiarão os vitivinicultores.

Os produtores de vinho das regiões que já estão sendo afetadas pelas mudanças climáticas, podem adaptar-se a um determinado nível de aquecimento alterando, por exemplo,  o material vegetal como variedades de uva e porta enxertos, os sistemas de condução e a gestão das vinhas. Porém, tais adaptações podem não ser suficientes para manter a produção de vinho economicamente viável em todas elas. 

É importante para a vitivinicultura mundial, que estudos futuros tenham como objetivo avaliar o impacto econômico das estratégias de adaptação às alterações climáticas aplicadas em grande escala. 


Fontes: 

https://www.nature.com/articles/s43017-024-00521-5

https://www.beveragedaily.com/Article/2024/04/03/Climate-change

https://www.preventionweb.net/news/global-map-how-climate-change-changing-winegrowing-regions

https://www.cbsnews.com/news/wine-regions-threat-climate-change/
https://www.climaemcurso.com.br/blog/category/mudancas-climaticas-2/
https://brasil.un.org/pt-br/175180-o-que-são-mudanças-climáticas

Se beber, não dirija!

segunda-feira, 11 de março de 2024

VINHOS ESPUMANTES, JÁ É UMA TENDENCIA SEU CONSUMO EM QUALQUER MOMENTO E NÃO APENAS NAS CELEBRAÇÕES

Até bem pouco tempo, tradicionalmente o consumo de vinhos espumantes em todo o mundo estava atrelado a ocasiões festivas, principalmente as comemorações do Ano Novo e as festas de casamento. Nestas ocasiões o champagne era mais que a bebida preferida, era praticamente impossível celebra-las sem degustar este líquido tão desejado.


Porém, a expansão em nível internacional do Prosecco (espumante feito na Itália), bem como do francês, do espanhol e do restante dos vinhos espumantes de qualquer ponto do mundo, possibilitou o aparecimento de uma nova tendência, que é o consumo deste tipo de vinho em qualquer momento do ano e em lugares diferentes, independente das festividades de fim de ano, casamentos ou de qualquer outra data. 


Com isso, o espumante deixou de ser aquela bebida quase inacessível e consumida única e exclusivamente, em ocasiões muito, muito, muito especiais. Na última década se observa uma nova tendência, em todo o mundo e cada vez mais forte, de que qualquer momento do ano, não importa onde, é um bom momento para o consumo deste tipo de vinho.

Graças a Deus, porque eu sou uma fã incondicional de espumantes e, qualquer coisa, é um belo motivo para tomar essa bebida dos deuses.

Pode-se dizer que o consumo de espumantes se generalizou na última década e já é bastante habitual os apreciadores de vinho acudirem a vinotecas, restaurantes e bares e poder pedir uma taça de espumante. Aliás, já existem formatos de cálices que se pode fincar na areia e desfrutar de um belo espumante na beira da praia, como eu já vi mais de uma vez. 

Essa bebida maravilhosa recebe diferentes nomes de acordo com o seu país de origem e o método de fabricação. Assim, tem-se:

  • Asti (Itália) – elaborado com uva Moscato, por meio do método Asti — o processo de fermentação é suspenso por resfriamento assim que se chega a um determinado nível de álcool e açúcar. O mais conhecido é o tradicional Moscato D’Asti, aqui no Brasil conhecemos por Moscatel;
  • Champagne – elaborado pelo método tradicional (champenoise), com as variedades Pinot Noir, Pinot Meunier (tintas) e Chardonnay (branca) e produzido exclusivamente na região de Champagne (IG) na França;
  • Cremant e Mousseaux – produzidos em toda a França, com exceção da região de Champagne. Recebe o nome de Cremant quando elaborado pelo método tradicional (champenoise) e Mousseaux, quando pelo método Charmat, principalmente com as uvas, Chenin Blanc, Pinot Blanc, Ugni Blanc, Semillon e Cabernet Franc;
  • Cava (Espanha) - elaborado pelo método tradicional (champenoise), é produzido a partir de várias cepas, as mais tradicionais são as uvas nativas da região onde é elaborado, como Maccabeo, Parellada e Xarel-lo;
  • Prosecco (Itália) - originário do Vêneto, é elaborado com a uva Glera por meio do método Martinotti-Charmat. O Brasil produz bons exemplares de Prosecco;
  • Sekt (Alemanha) - famoso pelo seu aroma agradável e forte acidez, elaborado pelo método tradicional (champenoise), especialmente com uvas Riesling, Pinot Blanc (Weissgurgunder) e Pinot Grigio (Rülander).

A denominação Sparkling Wine, literalmente “vinho espumante” é utilizado nos países de língua inglesa para este tipo de vinho, no Brasil utilizamos a palavra Espumante, e em países de língua espanhola como Argentina e Chile, eles utilizam a palavra Espumoso.   

 Produção:

A Organização Internacional da Vinha e do Vinho – OIV, publicou em Abril de 2020 o Relatório OIV Focus - The Global Sparkling Wine Market, que tem como objetivo fornecer uma visão geral da evolução recente do mercado global de vinhos espumantes. Nele foi analisada a produção e o consumo deste vinho em nível mundial e nacional e estudada a dinâmica do comércio internacional. Para tal foram coletados dados em 82 países durante o período de 2002-2018 (https://www.oiv.int/public/medias/7291/oiv-sparkling-focus-2020.pdf).

Uma das motivações para o estudo é que nos últimos vinte anos, o mercado de vinhos espumantes expandiu-se a um ritmo acelerado em resposta à elevada procura global. Em 2018, a produção mundial atingiu pela primeira vez os 20 milhões de hectolitros, com um aumento global de +57% desde 2002, isto é, em média, +3% ao ano (OIV, 2022). 

A produção de espumantes é distribuída por todo o mundo. No entanto, a maior concentração de países produtores está dentro da União Europeia, com quatro países se destacando.


Fora da União Europeia, os Estados Unidos se destaca com 6% (1,3 mhl em 2018) do total da produção mundial. A maior parte da produção vem do Vale do Napa, na Califórnia, onde o volume de produção em 2018 correspondeu a 77% (1 mhl) do total nacional.

O mapa apresenta a distribuição, por países, da produção de vinho espumante por 1.000 hl, em 2018.


Embora a produção de vinhos espumantes permaneça concentrada nesses cinco países,  novos países produtores estão surgindo no cenário mundial nos últimos anos, entre eles o Brasil. Quatro registaram aumentos significativos na sua produção de vinho espumante durante o período 2008-2018.

Por ordem da taxa média de crescimento anual, tem-se: Reino Unido (+33%/ano), Portugal (+18%/ano), Brasil (+7%/ano) e Austrália (+3%/ano).  No Reino Unido os vinhos espumantes representam mais de 70% da produção total de vinho nacional.

Consumo:

A partir do início deste século (2000) o consumo mundial de vinhos espumantes aumentou significativamente. O gráfico que segue para o período de 2002 a 2018 apresenta este aumento de forma consistente, com uma taxa média anual de 3% com exceção dos anos de 2009-2010, quando a crise econômica global impactou negativamente nas vendas.

 

No consumo global de vinho em 2002, o de  espumantes foi de 5 % e em 2018 eles já representavam 8% do consumo total. Um dos fatores para esse sucesso global é a dessazonalização do consumo, isto é, já não está mais ligado às celebrações de fim de ano, casamento, formaturas, etc., aliado  a uma oferta mais diversificada  de marcas e preços bem mais acessíveis que no passado recente.

Como consequência o consumo de vinho espumante, nos dias de hoje, tende a ser mais regular. Ninguém mais espera por uma ocasião super especial para consumi-los, o que leva a uma maior proporção de consumidores,  de todas as faixas etárias e poder aquisitivo, com especial atenção as mulheres e jovens.  

Em 2018, 62% do consumo de vinho espumantes era representado por cinco países, conforme apresentado na tabela. 


A rápida expansão do mercado para vinho espumante no  Reino Unido, que registrou uma média de 7% ao ano, desde 2008, coloca-o em sexto lugar em termos de consumo  desde 2018, com 1,5 mhl.

O mapa apresenta o consumo de vinho espumantes, por países, em 2018 em 1.000 hl. 


A porcentagem dos seis maiores países consumidores diminui de 76% em 2008 para 70% em 2018. Ao mesmo tempo, parte do consumo representado por outro países, entre eles o Brasil, aumentou 1,7 milhões de hectolitros. Essa variação pode ser atribuída, em grande parte, ao aumento do consumo nos países emergentes.

Neste estudo da OIV, no item referente ao consumo de vinho espumante nos países emergentes, foram considerados apenas os países com volumes de consumo em 2018 iguais ou superiores a 100 khl e um crescimento médio anual igual ou superior a 3%, assim tem-se: México (+13%), Suécia (+11%), Canadá (+8%), Brasil (+8%), Japão (+5%), Austrália (5%), Suíça (4%) e Argentina (3%).

Brasil:

De acordo com a Ideal Consulting, empresa de inteligência de mercado referência no segmento, o espumante caiu no gosto dos brasileiros. Quando se compara seu consumo  nos anos de 2021 e 2022, o espumante nacional apresentou um crescimento de 2% nas vendas  em 2022 e os importados registraram um acréscimo de 28% se comparados a 2021.

O consumo de vinho espumante no Brasil tem se tornado cada vez mais popular. Mesmo ainda sendo tradicionalmente associado a celebrações e ocasiões especiais, observa-se uma tendência de desmisitificação dessa bebida, sendo consumida cada vez mais no dia a dia pelos apreciadores e em casas noturnas (Danilo Bianculli, Jornal de Uberaba, 2022).

Os dados referentes ao consumo apontam um crescimento rápido no país. Os números passaram de 25,9 milhões de litros em 2019 para 30,6 milhões em 2022, correspondendo a uma alta de 18,1%.

Durante o período da pandemia houve uma queda devido as restrições a eventos e celebrações, impostas pelos cuidados sanitários adotados pelos países. Mas, com a pandemia sobre controle e o consequente término das restrições, o consumo de vinho espumante passou a apresentar uma subida no consumo.

De acordo com a Embrapa/Uvibra (2022), os espumantes brasileiros alcançaram 30,3 milhões de litros comercializados no país entres os meses de janeiro e dezembro de 2021, correspondendo a um aumento de 40% a mais se comparado com o mesmo período de 2020. A exportação de espumantes brasileiros ultrapassou 930 mil litros em 2021, 21% a mais do que em 2020. E, nesse mesmo ano 85% dos espumantes comercializados no Brasil eram nacionais, mostrando que o produto nacional tem qualidade e caiu no gosto do consumidor brasileiro, sendo uma grande aposta dos produtores nacionais.

Segundo a Associação Brasileira de Enologia (ABE), em 2021, o Brasil recebeu o número recorde de 414 medalhas e, dessas, 303 foram para espumantes. Os prêmios vieram de 18 concursos realizados na Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Espanha, França, Grécia, Hungria, Inglaterra, Luxemburgo e Portugal.

A taça criada especialmente para degustar os espumantes brasileiros foi desenvolvida artesanalmente com a melhor tecnologia em cristaleira, sendo relançada em 2021 e patenteada em 2022. Com seu formato cônico e sua textura porosa ampliam a produção e a duração da perlage, resultando numa explosão de frescor, aromas e sabores. Ela foi criada a partir de uma parceria entre a Embrapa Uva e Vinho, a Associação Brasileira de Enologia (ABE) e a Strauss de Santa Catarina. Maiores informações em https://strauss.com.br/taca-oficial-do-espumante-brasileiro/.


O espumante brasileiro é produzido principalmente na Serra Gaúcha, estando entre os vinhos mais premiados do Brasil. Porém, na grande maioria das vinícolas brasileiras, distribuídas em onze estados e quatro regiões fisiográficas, é produzido uma grande variedade de vinho espumante. Mesmo sem figurar entre os grandes produtores mundiais em volume, o país reúne condições ideais para a produção de espumantes que, além da qualidade, chega ao mercado com preço competitivo.

Bibliografia:

https://www.vinhosdomundostore.com/post/crémant-um-champagne-mais-acessível

https://exame.com/casual/champagne-e-cremant-qual-a-diferenca-entre-os-dois-vinhos-espumantes/

https://www.oiv.int/the-boom-of-sparkling-wine-on-focus

https://g1.globo.com/economia/noticia/2023/10/29/vinhos-por-que-o-mercado-aposta-em-espumantes-e-brancos-para-reverter-consumo-em-queda.ghtml

 

https://www.nexojornal.com.br/grafico/2022/12/26/espumante-brasileiro-corresponde-a-855-do-mercado-nacional

https://www.embrapa.br/busca-de-noticias/-/noticia/68396017/exportacao-de-espumantes-brasileiros-ultrapassa-930-mil-litros-em-2021

http://www.uvibra.com.br/noticias/04-04-2022-mercado-interno-vinhos-finos-espumantes-e-suco-comecam-2022-em-alta


Se beber, não dirija!

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