sábado, 16 de fevereiro de 2013

O VINHO DO PAPA



Com a renúncia do Papa Bento XVI o papa e todos os temas relacionados a ele entraram na moda. Ao invés de comentar sobre o rebuliço que esta notícia causou em todo o mundo, de questionar se ele deveria ou renunciar, ou como a igreja católica fará para viver com dois papas ao mesmo tempo, resolvi escrever sobre o Châteauneuf-du-Pape, o vinho do papa. 

Châteauneuf-du-Pape é uma Appellation d'Origine Contrôlée (AOC) de  vinho, nas imediações da localidade de Châteauneuf-du-Pape no Vale do Rhône meridional, no sudeste da França. Esta é a AOC mais notória das Côtes du Rhône Meridionales.
O vilarejo de Châteauneuf du Pape, com cerca de dois mil habitantes está situado em plena Provence e dá nome a uma das regiões produtoras de vinho mais reputadas da França. Este vilarejo já existia desde o século 10, mas sua história foi fortemente influenciada pela chegada dos papas na cidade de Avignon no início do século 14.

O rei da França, Felipe IV (1268-1314), quando foi excomungado pelo papa italiano Bonifácio VIII, mandou prende-lo e colocou em seu lugar um conterrâneo seu Bertrand de Goth, que era arcebispo de Bordeaux. Bertrand se tornou papa em 1305 com o nome de Clemente V, tendo sido o primeiro dos chamados Papas do Vinho. Em 1309 ele transferiu a corte de Roma para Avignon, no Sul da França, onde a sede do papado permaneceu por 70 anos.

Clemente V foi o fundador de um vinhedo em Bordeuax, o Château Pape Clement, portanto um conhecedor de vinhos que ordenou a plantação de parreirais na região de Châteauneuf. Mas foi o seu sucessor, João XXII, que foi papa no período de 1316 a 1334, e que também era apaixonado por vinhos, que deu impulso ao desenvolvimento dos vinhedos na região. Foi ele que construiu o lendário castelo Châteauneuf du Pape, hoje apenas uma ruína uma vez que ele  foi severamente danificado durante as guerras religiosas do século 16 e no final do século 18, na  Revolução Francesa. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi utilizado pelos alemães como um ponto de observação, tendo sido posteriormente abandonado e dinamitado com a chegada das tropas aliadas.  

Este castelo foi a residência de verão dos papas, até o ano de 1378, quando o papado voltou para Roma, e foi construído estrategicamente sobre um monte rochoso de onde é possível observar o Vale do Rhône e foram plantadas parreiras para a produção de vinho ao seu redor.

A vinicultura foi introduzida na região pelos romanos, que fundaram Orange (a 12 km de Châteauneuf) no final da era pré-cristã. Mas foi com a construção do castelo papal que o vinho ali produzido se desenvolveu, passando a ser conhecido como vin du pape (vinho do papa).
Mesmo após o retorno da corte papal para Roma e a decadência do castelo, a tradição da viticultura continuou forte e enraizada na região, sendo que os vinhos provenientes de Châteauneuf passaram a ser os mais célebres e conceituados dentre os vinhos produzidos no vale sul do Rhône. O curioso é que o nome Châteauneuf du Pape só passou a ser atribuído ao vinho, tinto ou branco, no século 19, sendo que ambos eram conhecidos até esta época como vinhos de Avignon.
Graças aos esforços e união dos vinicultores locais e como forma de se prevenir de fraude e falsificações, foi criada em 1905 uma comissão com o intuito de fiscalizar os vi­nhos comercializados com o nome. Em 1923 o barão Pierre Le Roy, que era formado em direito, presidiu a regulamentação da região que acabou sendo tomada como exemplo e seu modelo  copiado pelo país inteiro. Atualmente os produtores locais são orgulhosos das normas e controles da região, as mais rígidas do mundo e que deram origem à noção de terroir (conjunto de solo, clima e vegetação) e foi a base da lei de Appellation d'Origine Contrôlée (AOC) adotada em toda a França em 1935.
Esta AOC compreende três mil hectares de terreno relativamente planos, sendo o solo e o clima local muito privilegiados. O solo é profundo o que obriga a videira a descer para buscar nutrientes, dando riqueza de  aromas e sabores ao líquido. O clima mediterâneo, dominado pelo vento Mistral, que sopra forte e seco, elimina as umidade das chuvas, previnindo contra insetos de fungos. As amplitudes térmicas entre o dia e a noite são grandes.
A camada superior do  terreno onde se assenta a maiora dos vinhedos teria sido  no passado o leito do rio Rhône, sendo portanto formado por seixos, isto é por pedras arredondadas,  relativamente grandes, denominadas ovos de pata (galets), tipicas da região. Estas pedras aboservem o calor durante o dia e a noite irradiam para as parreiras aquecendo as vinhas, provocando assim a boa maturação das uvas.


Para a elaboração dos vinhos são permitidas treze uvas, sendo as tintas: Grenache, Syrah, Cinsaut, Mourvèdre, Counoise, Picpoul, Terre Noir, Vaccarèse, Picardan e Muscardin. Já as uvas brancas são: Bourboulenc, Roussanne, Clairette. São permitidas também as brancas Grenache Blanc e Picpoul Blanc, perfazendo um total de 15 uvas.  
Atualmente a região produz 94% de vinhos tintos e 6% de vinhos brancos, os vinhos rosés são proibidos, a graduação alcoólica deve ser de 12,5% ou superior e a colheita é feita manualmente. Os vinhos de Châteauneuf, principalmente os tintos, são capazes de suportar períodos de guarda de 15 a 20 anos (ou mais).

Embora a região produza grandes vinhos, ela é muito irregular e é possível encontrar-se vinhos medíocres, que acabam pegando carona no nome e não valem o que se paga por eles. Os de melhor qualidade são ricos, encorpados, bem equilibrados e com aromas de especiarias, terra molhada e frutas vermelhas maduras.



A maior garantia de qualidade dos vinho é nome do produtor, como o Château de Beaucastel, Château Rayas, Domaine Guigal, Château Mont-Redon, entre outros.








domingo, 3 de fevereiro de 2013

VINHO ROSÉ, ESTA DELICIA FREQUENTEMENTE ESQUECIDA





O vinho rosé nem sempre foi muito levado a sério, vinhos produzidos em larga escala nas últimas décadas acabram por dar má fama a este tipo de vinho. Nem mesmo o clima tropical que ocorre na maior parte do país, e nem os verões extremamente quentes, praias maravilhosas, piscinas espetaculares e jantares ao ar livre, todos locais e ocasiões adequadas para desfrutar de um vinho rosé, conseguiram convencer os brasileiros a saborear desta delicia com mais frequencia.
Lentamente este cenário está mudando no Brasil, mas na Europa, principalmente naqueles países banhados pelo Mar mediterrâneo, como a Espanha, França e Itália, bem como em Portugal, os vinhos rosés são bastante apreciados e largamente consumidos, principalmente no verão. Nestes paises ele é conhecido como rosato, na Itália, rosado, na Espanha, e claro rosé na França. Na Califórnia, onde também é produzido as vezes é chamado de blush wine.
Durante muito tempo (e ainda hoje em dia) ele foi considerado um vinho para as mulheres. Ainda bem, porque assim podemos desfrutar desta maravilha, em um belo dia de verão em reuniões descontraídas com amigos, sem culpa nenhuma. Além do mais 125ml de vinho rose tem apenas 93 calorias, enquanto que o vinho branco doce tem 173 calorias e o vinho branco seco e o tinto tem 107.
Olha ai meninas! Além de este vinho ter uma cor maravilhosa que pode variar de laranja pálido a púrpura vívido, dependendo do tipo de uva e da fermentação, não ser maturado no carvalho e por isto sempre ter uma textura refrescante, ainda não briga com o nosso biquíni.

O vinho rosé é feito a partir de castas de uvas tintas, que são maceradas delicamente junto com as cascas. A fabricação deste vinho é a mesma de um tinto, porém o  tempo de contato com as cascas das uvas é menor, apenas só para dar alguma cor à bebida, que então é vinificada como vinho branco. Ele  também pode ser obtido por corte que obtém-se pela mistura de um vinho branco com um vinho tinto.
Ele pode ser produzido com uma variedade de uvas como a Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Grenache, Merlot, Pinot Noir. Em geral devem ser consumidos ainda jovens, quanto mais jovens melhor, não devem ser guardados por mais de dois ou três anos.
Devem ter sabor intenso, bem definido  de frutas vermelhas maduras como morangos e framboesas, sabor frutado e fresco, médio teor alcoólico e equilibrada acidez e ser servidos bem resfriados, sendo mantidos assim até o fim de uma refeição. Por ser uma bebida de verão, harmoniza muito bem com pratos leves e com os mais estruturados com molhos e temperos apimentados; é excelente para acompanhar um churrasco com os amigos; vai bem com carnes frias e embutidos destacando seus sabores e aromas. Nada melhor do que um vinho rosé como um aperitivo para iniciar um almoço leve.


O distrito de Tavel, no Vale do Rhône, na França, produz apenas vinhos rosés.   Em meados do século 20 esta era a mais famosa região produtora de rosés no mundo. Os vinhos Tavel, feito principalmente com uva Grenache e Cinsault é sempre muito seco, encorpado, muito frutado, com boa persistência e excelente frescor, ainda hoje estão entre os melhores da França. Eles combinam perfeitamente com saladas, massa e pizzas e com comidas condimentadas.
Portugal tem dois vinhos rosés muito conhecidos o Mateus (cor rosa bem claro), produzido no norte do país principalmente nas regiões do Douro e da Bairrada, e o Lancers (cor rosa-profundo com tons de salmão), produzido na Península de Setúbal. Estes dois vinhos, a partir de 1950 representaram ao redor de 55% do volume total dos vinhos portugueses exportados. Eles se transformaram em marcas internacionais no último século.



O Mateus Rosé é o vinho rosé mais famoso no mundo, é produzido com a mistura de uvas Baga, Bastardo e Touriga Nacional. É levemente espumante, semidoce, aroma de frutas vermelhas com um toque de flores, vinhas e pêssego. É ideal como aperitivo, vai bem com pratos leves, peixes, mariscos, carnes brancas, churrascos e saladas. Deve ser servido entre 5 e 8°C. Recomenda-se que se sirva em flauta.

O Lancers Rosé é um vinho ligeiramente espumoso, muito versátil para ser bebido bem fresco. Tem aromas  levemente florais, de frutas vermelhas e tropicais, sabor agradável, leve,  pouco encorpado, ligeiramente doce. Deve ser servido a 5ºC. Harmoniza com comida Mexicana, Italiana, carne branca e saladas.





sábado, 2 de fevereiro de 2013

ANCELLOTA, UMA AGRADÁVEL SUREPRESA



Logo após o Natal combinei com a minha afilhada e o marido dela, de finalmente fazermos a inauguração da minha churrasqueira. Há pelo menos seis meses vínhamos falando nisso, mas nunca conseguíamos marcar uma data e, além de gostar muito da companhia deles eu precisava da larguíssima experiência do marido dela como churrasqueiro para fazer o churrasco, uma vez que eu sou especialista, única e exclusivamente, em desfrutar de um excelente assado, não sei nem acender o fogo.

Assim ficou combinado que eles cuidariam do churrasco e eu cuidaria da salada e principalmente do vinho.

Tratei de ver o que eu tinha na minha adega, que combinasse com a ocasião e mexe daqui, mexe dali, encontrei uma garrafa de Reserva Michele Ancellotta 2005, da vinícola Michele Carraro.

Eu comprei este vinho há quase dois anos atrás quando fui passar uma semana de férias em Bento Gonçalves, visitando as vinícolas do Vale dos Vinhedos. Confesso que havia esquecido ele no meio de outras tantas  garrafas. Comprei porque a uva Ancellota não é muito conhecida e porque eu nunca havia tomado um vinho produzido a partir dela, assim minha curiosidade me levou a compra.


Na ocasião, para que eu pudesse visitar várias vinícolas e degustar os seus vinhos sem ter problemas para dirigir ou ser pega pelo bafômetro, contratei um guia de turismo, que era técnico em enologia, e que me levou a várias vinícolas, começando pelas maiores e depois visitamos outras, menores, mas igualmente interessantes.


Neste percorrido chegamos a Reserva da Cantina, ou Vinícola Michele Carraro, localizada na Estrada do Vinho e que merece uma parada de quem visita a região. Antes que alguém faça alguma confusão esta vinícola não tem relação com a de Lidio Carraro, na realidade Michele não é mulher é Il signor Michele Carraro (Miguele em italiano) que chegou ao Brasil em 1875 e se instalou na Linha Leopoldina, em Bento Gonçalves, onde passou a produzir seus próprios vinhos, arte aprendida com seu pai. Atualmente a empresa “Vinhos Reserva da Cantina” é administrada pela quarta geração da família. Um dos atrativos da Reserva da Cantina é o prédio, em formato de pipa (barril de vinho), além da gentileza no atendimento a quem chega lá para provar seus vinhos.


Os vinhos desta vinícola são produzidos em vinhedos próprios (11,9 hectares) não tendo passagem pela madeira, o que permite manter e valorizar as características frutadas de cada variedade.

A  Ancellota é uma casta de uva tinta  cuja   produção em  maior escala é feita na Emilia-Romagna e na parte inferior do Trentino. Há indicações de que a região da Emilia-Romagna seja o núcleo de origem da casta. Não é uma casta muito conhecida no Brasil, na realidade ela não é desconhecida apenas para os brasileiros, até mesmo na Itália, seu país de origem, ela também é pouco conhecida. Ao procurar informações sobre ela nos livros que tratam sobre vinho que tenho em minha biblioteca ou mesmo na internet, não encontrei muita informação, para ser sincera praticamente não encontrei quase nada.
Seu nome provavelmente origina-se da família Lancelloti, ou Lacillotto, da região de Modena, que foram os primeiros a cultivar esta uva já no século 14. Às vezes a variedade é denominada Lacellota.
Na Itália é utilizada como uva secundária para tornar os vinhos Lambrusco levemente doces mais especificamente no Lambrusco Salamino di Santa Croce DOC, da provinicia de Modena, aonde chega a compor 10% da assemblage e no Lambrusco Reggiano DOC, da provincia de Reggio Emilia, aonde chega a compor 15%.
Fora da Itália ela é cultivada no Sul da Suiça, no Catão Ticino e distrito de Moesa do Catão de Grisons, onde é inlcuida na lista de variedades para produzir o vinho tinto Ticino DOC.
Suas carcaterísticas principais são: cor  muito rica e vibrante, um rubi muito escuro com refelxos violáceos, lindíssima, baixa acidez e graduação média de álcool,o vinho Reserva Michelle Ancellota tem uma graduação alcoólica de 12,8. É uma cepa que apesar de ser sensível as geadas, tem boa resistência ao vento e a seca.
O Reserva Michelle Ancellota 2005 se mostrou um vinho muito agradável, fácild e degustar, de aroma fechado levou certo tempo para se mostrar, para seus aromas aparecerem, bom corpo, elegante, seco e boa persistência.

É um vinho para ser servido a temperatura de 15°C. O que é marcente neste vinho e nos vinho produzidos com a uva Ancellota é a cor rubi, escuro, vibrante, chama atenção pela sua beleza.


Outras vinícolas do Rio Grande do Sul também produziram bons vinhos Ancellota, tais como o Gran Reserva Ancellotta 2007, da Don Guerino, amadurecido 14 meses em barricas francesas, de cor rubi muito escuro com reflexos violáceos.


O Milantino Ancellotta 2005, Vale dos Vinhedos-Brasil, com paladar encorpado, taninos presentes, finos, secos, bom volume de boca, boa acidez.

O Larentis Reserva Especial Ancellotta 2005, com bons aromas, frutos vermelhos maduros (ameixas e goiaba) e um toque de especiarias; o Don Laurindo Reserva Ancellotta 2006, da Dom Laurindo, Vale dos Vinhedos, na boca, bom corpo, acidez correta, taninos macios e final médio-longo.



O vinho Ancellota harmoniza com feijoada, massas com molhos vermelhos, carnes vermelhas, carnes de caça, churrasco, eisbein, pratos com molhos bem condimentados e queijos tipo Camembert, Brie, Provolone e Parmesão.

A uva Ancellota me surpreendeu agradavelmente, foi um excelente complemento para o churrasco, na realidade um entrecote grelhado, coberto com mostarda com estragão, um tempero típico da culinária francesa que é utilizado para realçar o sabor de certos ingrediente e alimentos.

Aqueles enófilos curiosos, que gostam de experimentar novos vinhos, castas de uvas diferentes, seguramente terão uma experiência interessante. Sugiro também que experimentem a Geléia Extra de Cabernet Sauvignon, elaborada com vinhos do Vale dos Vinhedos, produzida e embalada por Adega Casa de Madeira, simplesmente divina.







quinta-feira, 29 de novembro de 2012

A CIÊNCIA ESPACIAL E O VINHO


Há duas semanas estive no Chile participando do seminário organizado pela ONU sobre “Aplicações de tecnologias espaciais para benefícios socioeconômicos” e, para minha grata surpresa pude assistir a uma apresentação cujo titulo era “Desenvolvimento da ciência e tecnologia espacial aplicada ao país do vinho” feita por pesquisadores do Centro de Geomática da Universidade de Talca localizada na VII Região do Maule, cuja capital é a cidade de Talca. O Chile é dividido em 15 regiões sendo uma delas a Região Metropolitana de Santiago.

 A “Cartografia Digital do Vinhedo Chileno na Região do Maule” é um projeto financiado pelo Governo Regional do Maule por meio do Fundo de Inovação para a Competitividade (FIC), administrado e coordenado pela Fundação para a Inovação Agrária (FIA).  Este projeto foi realizado num período de dois anos, entre 2009 e 2011, e foi criado e executado pelo Centro de Geomática do Centro Tecnológico da Uva e do Vinho da Universidade de Talca. Este último Centro tem como objetivo colaborar com o desenvolvimento da indústria vitivinícola em nível regional e nacional e suas atividades está principalmente focada na pesquisa, transferência de tecnologia e serviços.
O objetivo do projeto era gerar um Sistema Integrado de Informação para o setor vitivinícola da Região do Maule, incorporando informação espacial, temática e técnica para a caracterização e gestão de áreas vitivinícolas, em uma plataforma SIG (Sistema de Informação Geográfica) Para fazer isto foram utilizadas imagens do satélite francês SPOT com resolução espacial de 2,5 metros dos anos de 2008 e 2009, onde foram identificadas as plantações de uva de acordo com o tipo, padrão, cor e textura apresentada por elas nas imagens. Foram coletados também dados de GPS no campo para a localização precisa dos vinhedos, viveiros e adegas, assim como informações de unidades produtivas.
Estas informações resultaram na cartografia da região em distintas escalas: para profissionais que trabalham no campo na escala 1:5.000, isto é, bastante detalhada; mapas na escala 1:10.000 para o nível local e cartografia na escala 1:30.000 para o nível de comunas, para o registro dos vinhedos.
Para poder gerar o Sistema Integrado de Informação foi necessário coletar informações adicionais tais como Dados do Censo Agropecuário de 2007, Dados do Cadastro Vitivinícola de 2007 e Declaração de Colheita de 2009. Foram coletadas ainda:
·         Informação do prédio vitivinícola-nome, endereço, localidade, superfície total do prédio, superfície plantada com vinhedos, lugar de vinificação;
·       Informação técnica para cada parcela vitivinícola: sistema de produção, variedade, superfície, ano de plantio, material vegetal, origem do material vegetal, número de plantas por hectares, orientação das fileiras, topografia, sistema de condução, sistema de formação/poda, regime hídrico, sistema de colheita, sistema de irrigação, origem da água para irrigação;
·         Informação técnica para viveiro de videiras: variedade produzida, origem do material de propagação, tipo de planta produzida, comercialização, certificação, destino da produção;
·         Informação técnica sobre as adegas de vinificação: título de propriedade da adega, tipo de tanques, volume dos tanques, tipo de vinho, variedade, quantidade em litros, denominação de origem, ano de fermentação e formato de comercialização.
Estas informações podem ser gerenciadas em uma base de dados e estão disponíveis aos usuários do setor em uma plataforma Web. Por meio desta ferramenta os produtores podem realizar consultas visuais e de tabelas sobre seus patrimônios e dados gerais da região, apresentar declarações de retificações de seus dados e atividades realizadas sobre seus patrimônios; gerar seus próprios registros de informação predial e gerenciar e manejar seu território.

Como resultado do projeto foi gerado a Base de Dados Espaciais com informações detalhadas das zonas vinícolas da Região do Maule, onde são encontradas a localização geográfica dos produtores e vinhedos, localização dos viveiros, centros de produção de vinho e adegas de vinificação. Para complementar foi realizado um amplo trabalho de difusão e transferência de tecnologia dos resultados do projeto para os produtores da região, por meio de seminários e cursos de capacitação. Foi feita também uma difusão por meio de participação em seminários científicos internacionais.
 Entre os resultados obtidos estão:
  •  Totais de produtores por provincia: Curico (605), Talca (430), Linares (446), Cauquenes (368) Total (1849)
  •  Variedades de uvas tintas (total regional): Cabernet Sauvignon (10.931,36ha), Pais (4.496,41ha), Merlot (3.011,78ha), Carmenere (2.691,03ha), Alicante Henri Bouschet(1.501.95), Syrah (1.370,65ha), Carignan (437,15ha), outras (2,450,7ha)
  •  Variedades de uvas brancas (total regional): Sauvignon Blanc (4.644,58ha), Chardonay (2.615,19ha), Sauvignon Vert (857,20ha), outras (1.1717,98ha)
  • Totais de adegas de vinificação por província: Cauquenes (22), Curico (57), Talca (55), Linares (92), Total (226)

Os benefícios deste projeto para o setor vinícola da região foram: apoio ao desenvolvimento regional em uma de suas áreas produtivas mais importantes; o setor público poderá focalizar melhor os investimentos setoriais a partir de uma base georeferenciada em nível de parcela de produção, maior precisão na elaboração de projetos de investimento do setor privado dos produtores da região, suporte técnico de acordo com as novas tecnologias e onde os produtores poderão consultar e atualizar informações de seus prédios, plataforma de promoção que fortalece as ações que levam a posicionar os produtos da área em diversos mercados (GEOMARKETING).

Depois de toda esta aula de geotencologia para o vinho à noite, quando fomos jantar no restaurante Gatopardo resolvemos experimentar um vinho da Região do Maule. Assim, pedimos um J.Bouchon, Reserva, Chicureo, Sauvignon Blanc, safra 2012. A J.Bouchon é uma vinícola familiar cujas origens remontam a 1892, quando Emile Bouchon, vindo de Bordeaux, na França, se instalou no Chile, com o sonho de criar vinhos de excelência no novo mundo.

Este vinho é produzido com uvas colhidas à mão em vinhedos próprios no Vale do Maule. Tem uma cor amarelo esverdeados suave, aromas intensos a pêssego, com toques de frutas cítricas e tropicais. Na boca podem-se sentir frutas maduras e notas minerais, é um vinho fresco e bem equilibrado, acompanha muito bem todo tipo de peixes e mariscos, peixes crus como ceviches ou sushi, assim como peixes grelhados o ao forno. Combinou perfeitamente com o atum com crosta de sésamo negro e branco, com purê de cebola morada, no molho de manga e cítricos que eu saboreei demoradamente, no jantar.
Se dirigir, não beba! 


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

CRUZEIRO PELA PATAGÔNIA E OS VINHOS CHILENOS





Em outubro deste ano, aproveitando as minhas férias decidi fazer um cruzeiro pela Patagônia. Há muito tempo desejava fazer esta viagem, navegar pelos confins do continente sul americano, explorando paisagens deslubrantes, acercar-me do Cabo Horn, lá aos 54° de latitude Sul, onde os Oceanos Atlântico e  Pacífico se encontram e local de difícil navegação. Assim, entrei em contato com uma empresa de turismo e lá me fui navegar pela Patagônia, região que abrange a parte mais meridional da América do Sul, localizada no extremo Sul da Argentina e Chile. É lá que está a cidade mais austral do mundo, Ushuaia, conhecida como o “Fim do Mundo”, na realidade uma cidade bastante simpática.  Lá estão também o estreito de Magalhães, o canal de Beagle e a grande ilha da Terra do Fogo.

A região é açoitada constantemente por ventos fortes que ocorrem em grande parte do ano. Eu que o diga, no cabo Horn enfrentamos ventos de 90km/h com rajadas de 150km/h, o que fez com que  o navio  navegasse adernado a estibordo por mais de  uma hora. É das cidade de Punta Arenas no Chile e de Ushuaia na Argentina, que partem as excursões para a Antártica e os pesquisadores brasileiros que vão trabalhar na Estação Comandante Ferraz na ilha Rei George. O cruzeiro saiu de Punta Arenas, no Chile,  e terminou  em Ushuaia, na Argentina.

Durante cinco dias navegamos por esta região em um navio chileno, o que significa que no almoço e no jantar invariavelmente desfrutávamos de vinhos chilenos, que acompanhavam deliciosos pratos típicos da região como a centolla e o famoso cordeiro patagônico, isto sem falar  na geléia de calafate (a fruta-símbolo da Patagônia,  de tom azul-violeta) servida no café da manhã.
Uma espécie gigante de caranguejo, a centolla, também chamada de centolla patagônica,centolla magallanica, centolla austral ou centolla chilena, tem uma carne tenra que lembra a da lagosta. É natural das águas frias e subnatárticas da costa sudeste do Pacífico, no Chile, em especial na região que vai desde Valdívia até o Cabo Horn e também do sul da Argentina. Sua captura ocorre em alto-mar, a mais de 100 metros de profundidade.  Como não poderia deixar de ser, estando em um barco chileno a Centolla foi um dos pratos presentes em nossos jantares sendo, por duas vezes, servida como entrada acompanhada de alface e aspargos e outros complementos.
Para harmonizar com esta maravilha foi servido no primeiro dia um vinho chadornay, Terra Andina, varietal, safra 2011, da vinícola de mesmo nome localizada na região do Vale Central do Chile, tendo ai sua Denominação de Origem. Este vinho harmoniza muito bem com mariscos, camarões, caranguejos como a Centolla, filés de salmão (servido em um dos jantares) frango, peru, massa com molhos cremosos (servidas em todos os almoços, no buffet, e preparadas na hora com molho a sua escolha) e carpacio de carne (servido de entrada em um dos jantares). 

Este vinho apresenta tons amarelos dourados, é fresco, aromático, com baixo teor alcoólico (13.50% vol) com notas de abacaxi, cítricos e baunilha. É suave, sedoso, com bom volume e um agradável final. Combina também com frutas tropicais como papaia (impossível de encontrar nesta região), manga, banana e abacaxi. Recomenda-se ser consumido jovem a fim de desfrutar-se de seus aromas, mas pode ser guardado por 1 ou 2 anos.
 
No segundo dia em que serviram centolla de entrada fomos brindados com o vinho chardonay Santa Digna, Reserva, safra 2011, da vinícola Miguel Torres, da zona de Rio Claro, que tem o clima mais frio da região do Vale Central do Chile. O vinho, sempre servido na temperatura adequada, em torno de 8 graus, apesar do frio que fazia do lado de fora, apresenta aromas onde predominam notas varietais da uva chadornay, lembrando manga e damasco, com alguns tons de baunilha e côco. Tem um retrogosto bastante frutado, com bom equilíbrio entre a densidade e a acidez.  Harmoniza muito bem com pescados ao forno, frutos do mar, peru e frango servido em molhos cremosos.



No terceiro dia do cruzeiro fomos brindados com o maravilhoso cordeiro patagônico, que é criado nos pastos locais e assado, inteiro, em espetos, isto claro em uma casa de assados em terra, no navio ele foi assado ao forno e acompanhado por um delicioso molho, legumes e arroz. 
Esta maravilhosa iguaria é encontrada na maioria das províncias da Argentina, principalmente na de Rio Negro, onde está localizada a cidade de Bariloche, mas Ushuaia não fica para trás, há várias casas de assado muito charmosas, com o típico cordeiro no espeto exposto na vitrine para aguçar o nosso paladar. 
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Para acompanhar esta maravilha da gastronomia patagônica foi servido um Merlot Terra Andina, Vale Central, safra 2011. Este vinho tem cor rubi violáceo escuro, é suave, bastante balanceado, com aromas de frutas muito maduras e ameixas, apresenta bom corpo, boa estrutura em boca e taninos suaves. Ele é perfeito para acompanhar uma boa carne e massas. É um vinho que pode ser guardado até por três anos, mas se for consumido jovem pode-se desfrutar do frescor dos seus aromas, e acreditem eu fiz isto até a última gotinha de vinho. Para me auxiliar, o garçom que servia a minha mesa era extremamente atento, assim minha taça nunca estava vazia.


Continuando com a orgia gastronômica no quarto dia do cruzeiro foi servido filé de res com molho de vinho cabernet sauvignon e romero, acompanhado de arroz com açafrão e ratatouile de verduras. Como entrada foi servido um carpacio de rês com mostarda dijon, alcachofras, alface e pão torrado. Para acompanhar o filé de res foi servido um vinho Santa Digna Syrah, reserva, safra 2011, da vinícola Miguel Torres. Este é feito com uvas syrah com uma pequena porcentagem de cabernet  sauvignon. É um vinho bastante opulento, vigoroso, de bom corpo e com taninos sedosos. Apresenta cor púrpura e notas de frutas de bosque tais como a amora, violeta e toques de cassis.

Este mesmo shyraz foi servido em um almoço para acompanhar um porco assado com molho agridoce com catchup, com arroz com amêndoas em fatias, uva passas e batatas cozidas. Maravilhoso!!!!!!

Em mais uma etapa da  harmonização de comidas com a coleção de vinhos, no jantar da segunda noite do cruzeiro foi servido um filé de merluza austral a la plancha, marinado ao estilo del sur, isto é, limão, alho, orégano e merkén (que é um tempero chileno e mapuche feito com pimenta cacho de cabra seca e defumada, misturada com sal, cominho e sementes de  coentro). 

Para acompanhar foi servido um vinho sauvignon blanc, Terra Andina, safra 2011, de cor palha pálido com rasgos de verde limão, de aroma intenso, fresco, lembrando a lima, nectarina, pêssego e maracujá. No paladar tem um volume bastante agradável, é equilibrado e harmonioso. É um vinho para ser consumido jovem e combina muito bem com mariscos frescos, ostras e peixes.
Depois de tudo isto é desnecessário dizer que ao regressar aumentei a frequência as aulas de pilates e as caminhadas, mas valeu a pena!!!!




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